Praça Jubiabá, símbolo de fracasso
Jornal A TARDE - 08-01-2011
Praça Jubiabá, símbolo de fracasso
Dimitri Ganzelevitch Produtor cultural
dimitri.bahia@gmail.com
Em 1975, o Centro Histórico ainda não tinha sido tombado pela Unesco. Desde aquela data e por quase 12 anos, vivi em frente a um terreno baldio na Rua do Paço.
Pouco após minha chegada a Salvador, elaborei um projeto visando transformar o monte de entulho em espaço lúdico para as crianças carentes do bairro. A ideia era propor a artistas baianos conceber estruturas para jogos infantis, resultando simultaneamente em Museu de Escultura ao ar livre, nova opção de turismo cultural. Assinada pela comunidade da área, a proposta foi entregue ao biônico prefeito Wilson Magalhães. Tanto gostou que guardou numa gaveta e nunca mais se falou nele. Anos depois, o governo ACM inventou para o dito espaço uma artimanha de eventos barulhentos que me convenceram a mudar de endereço.
Já com o terceiro milênio bem adentrado, uma nova emenda socializante saiu pior que o anterior soneto direitista: em poucas semanas, bancos e mesas pareciam ter sofrido uma guerra civil, enquanto as luminárias arrancadas provavam a inadequação do investimento. Às pressas, a Secult improvisou mais uma reforma.
Por mórbida curiosidade, passei por lá dois dias antes do Réveillon. O Iraque é aqui e agora. Vergonhoso! Irritado, fui conversar com um velho comerciante da área. Este não hesitou em apontar como responsável o secretário estadual de Cultura, que, em quatro anos, fora de dramática incompetência na resolução de qualquer problema relativo ao Centro Histórico. Nem soube escolher seus colaboradores, como aquela triste senhora do “Pelô''s Entertainemnt” que, chegando tarde ao batente, deixa o carro estacionado na porta, apesar da proibição, para sair mais cedo.
Receber tal cargo não significa ganhar a Mega-Sena e ficar dando pulinhos de egolatria, mas aceitar pesada responsabilidade social.
Acredito piamente que o imperial barbudo tenha feito milagres no interior, em compensação ao desastre na capital. Onde? Não faço ideia. Santo Antônio de Jesus? Brumado? Jacobina? Nilo Peçanha? Agora me parece ter chegado a hora de prestar contas.
Praça-símbolo de vitória - ESPAÇO DO LEITOR
Quero me reportar a um trecho de comentário feito em artigo neste jornal, que se refere a uma suposta desordem na Praça Jubiabá.
“Anos depois, o governo ACM inventou para o dito espaço uma artimanha de eventos barulhentos que me convenceram a mudar de endereço”.A afirmação é um exemplo claro de preconceito. A música barulhenta a que esse senhor se refere é o reggae, pois naquela época era o espaço da música alternativa. Com o reggae e o rap ali, se concentravam vários negros. Talvez seja por isso que esse senhor se convenceu a mudar de endereço. Sou moradora da Rua do Passo desde 85. Foram muitas lutas para continuar morando neste local.
Hoje nós temos filhos nascidos e criados aqui, mas não tínhamos uma área para as crianças brincarem, só a Escadaria do Passo. Muitas vezes tive que brigar porque alguns moradores não queriam que os meninos brincassem de bola.
Isso me angustiava muito, não ter uma área de lazer para as crianças. Eu, particularmente, me empenhei em lutar por essa conquista e em seminários realizados por moradores, apresentamos 126 propostas para o governo do Estado. A proposta da praça estava lá e virou realidade, um espaço de lazer para a comunidade, principalmente para as crianças.
A Praça Jubiabá é símbolo de vitória, pois foi uma demanda da comunidade. Ela passou por uma reforma porque o vandalismo cresceu muito.
Nós, da comunidade, falamos com o Ipac sobre o que tinha acontecido e aí então foram tomadas providências para bancos mais resistentes de cimento, que foram fincados no chão. A praça continua sendo frequentada por moradores, adultos e crianças.
Sinto muito orgulho quando vejo que a praça está tendo o seu papel de praça, que não precisa do poder público para funcionar.
JUSSARA SANTANA, PRODUTORA CULTURAL