21/03/2011
Uma tentativa desesperada de compreender a crueldade e a insensibilidade das pessoas é a tônica de Luz Negra, que volta a cartaz a partir de 19 de março e cumpre temporada, sábados e domingos, às 20 horas, no Teatro SESI, Rio Vermelho (Salvador/Bahia), até 24 de abril. A montagem contemplada com o Edital Manoel Lopes Pontes da Funceb/Secretaria da Cultura do Estado da Bahia tem direção de Rino Carvalho e apresenta no elenco Caíca Alves, Leonardo Mineiro e Evelin Buchegger, indicada. categoria melhor atriz, ao Prêmio Braskem de Teatro 2010, cuja cerimônia está marcada para abril.
O texto do dramaturgo salvadorenho Alvaro Menen Desleal (1931-2000), encenado em dezenas de países, traz os personagens Goter e Moter, um político e uma ladra respectivamente, que foram decapitados em praça pública, porém não sabem se estão vivos ou mortos. Suas cabeças encontram-se próximas a um corpo hibrido, em um lugar ermo, sem referências, “talvez um lugar abandonado por Deus”, sugere o diretor. Ele também explica que na peça original a ladra era um personagem masculino, e o corpo hibrido, figura extremamente simbólica, representava vários personagens como um cego, uma menina e um faxineiro. Na adaptação baiana, o corpo é um único e enigmático personagem. Já o político em cena não representa o sentido estreito da palavra, mas o filosófico e o social da política. Ele é esperançoso, sincero e acredita no ser humano. Por sua vez, a ladra, oriunda da alta sociedade, tem uma visão oposta, soberba e arrogante e afirma que não se envolve com política.
Outra adaptação de Rino Carvalho foi trazer o texto político de Desleal para um viés místico-religioso, mais próximo da cultura brasileira. O diretor também optou pelo realismo fantástico ao teatro do absurdo. “O texto é o mesmo, mas o realismo fantástico nos permite a liberdade para criar uma situação que não é a nossa realidade, desde o lugar, a sonoridade, as estranhezas, os personagens. Tanto que na peça, aquilo que os personagens estão vendo e vivendo não é o mesmo que o espectador percebe. Segundo Carvalho, Luz Negra mostra que a vida perdeu o valor, e que o ser humano é somente estatística na mídia, na televisão. “Não importa o que se fez ou faz, ninguém nos ouve. Por outro lado, curiosamente, não importa o lugar onde você esteja; bom ou ruim, você sempre vai reclamar, porque isso é intrínseco no homem”.
Razão e emoção - Luz Negra é um espetáculo de visual e sensibilidade incomuns. Exige muito dos intérpretes; cenário, luz, trilha sonora e maquiagem são interferências estratégicas para compor o ambiente de um realismo fantástico. As duas cabeças gritam a céu aberto a palavra “amor”. Mas elas não gritam para os políticos que legitimaram o seu degolamento, e sim para o fundo do coração do homem comum. Luz Negra poderia ser apenas o desejo de liberdade ou de justiça, mas o autor foi além, e fala de um mundo individualista, globalizado e paradoxal, cujas fronteiras abertas para todos os lados, a emoção é considerada uma pedra no caminho. É o conflito entre a razão e o sentimento