12/07/2011
Sonhos & Dança
A Companhia de Dança Infantojuvenil da Funceb faz história e coleciona elogios, dentro e fora do Estado. Este ano, serão abertas cinco novas vagas
Texto TATIANA MENDONÇA tmendonca@grupoatarde.com.br
Olha a Feira de São Joaquim! - grita Denny Novaes, o professor-coreógrafo, na tentativa de que as meninas parem de conversar. Em véspera de São João, convenhamos, a tarefa e quase impossível. Mas Denny é brabo e insistente, consegue o feito. "Vou de Piaget a Pinochet", brinca.
A Cia. de Dança Infantojuvenii da Funceb ensaiava pela centésima vez os passos de Boi Gira Bumbá, uma representação do universo mitológico feminino inspirado em manifestações populares nordestinas e africanas. No palco, o vermelho que vestem lembra que já viraram mocinhas. Denny, que as viu crescer, resolveu transformar o rito em espetáculo.
A coreografia foi apresentada pela primeira vez nas comemorações pelo Mês da Dança, em abril, no Teatro Castro Alves. Na platéia, Anna Cristina Gonçalves, diretora da Ebateca, espantava-se com a qualidade do trabalho. Enquanto o grupo dançava, lembrou-se dela mesma pequena se apresentando com o Ballet Brasileiro da Bahia (BBB), que tinha à frente o mestre Carlos Moraes. "Para mim, foi uma grata surpresa ver aquele trabalho fantástico. Me emocionei muito".
Terminado o espetáculo, resolveu convidar o grupo - formado por 15 meninas e um menino, com idades entre 11 e 16 anos, estudantesda Escola de Dança da Funceb-para participar do Festival Ballace, que há seis anos reúne em Camaçari bailarinos de diversas escolas e estados do País.
Eles foram, já alertados de que não iriam concorrer. Safira Sacramento, 11, lembra que no começo ficou meio intimidada com os narizes empinados das bailarinas "chiquinhas" que circulavam por lá, mas depois encheram-se de coragem. Ao fim da apresentação, foram ovacionados pelo público. Seria impossível descrever suas carinhas mais que surpresas quando o júri anunciou que as havia inscrito na competição, e mais, que sairiam dali com dois troféus: o de Destaque e o 1o lugar na Categoria Infantil Dança Popular.
O festival aconteceu no começo de junho, e de lá a Cia. já saiu com outro convite, o de participar das eliminatórias nacionais para o Youth America Grand Prix, um dos maiores festivais de dança do mundo, que acontece anualmente em Nova York. A seletiva acontece em setembro em Santos.
LINDA DE ASSUSTAR
Para Safira, esse é só o começo de um sonho. Nem é preciso conversar com ela para saber que nasceu bailarina. Todo seu corpo diz isso enquanto dança, tão linda que é de assustar um desavisado espectador. Quando começa a contar sua história, as peças se juntam. A mãe é professora da Escola de Dança, e ela perambula por ali desde os 2 anos, vendo e participando das aulas.
Com a criação da Cia., em meados do ano passado, ela passou a ensaiar mais (são três vezes na semana) e a se apresentar com mais freqüência ao público. Mesmo se o grupo não for aprovado na seletiva em Santos, Safira já está com a passagem marcada para os EUA. Ela ganhou uma bolsa da conceituada Alvin Ailey e irá para lá em janeiro, acompanhada da mãe.
A maioria dos estudantes da Escola de Dança da Funceb, que é pública, é formada por negros de baixa renda, moradores de bairros periféricos. Safira mora em Caminho de Areia. Carine dos Santos, 14, sua colega da Cia., em Cajazeiras. Ela leva uma hora e meia para ir de casa até a escola, no Pelourinho. A mãe, coruja, a acompanha e fica esperando até a aula terminar. Quando elas chegam em casa, já passa das oito da noite. "Aí ainda vou estudar... Tem dia que madrugo".
Aluna do primeiro ano do ensino médio, Carine começou a estudar balé aos 11 anos, lá mesmo em Cajazeiras. Uma amiga falou da Escola de Dança da Funceb e ela se interessou. Ama tanto dança que nem sabe dizer do que mais gosta, se de balé clássico, dança contemporânea, afro ou popular. "Fico muito indecisa".
Completando o trio das meninas que ficam sempre na frente, ouvindo atentamente as orientação de Denny, está Aman-da Costa, 15- Com a Cia., elas se sentem comoalunas profissionais. "Seantesa gente se dedicava 90%, agora tem que se dedicar 100% e mais um pouquinho", ri.
Moradora de Nova Brasília e aluna do segundo ano, Amanda venceu pela dedicação e insistência. "Sempre quisfazer aula de dança, mas eram todas muito caras. Aí estava no Pelourinho com meu tio e vi umas meninas entrando aqui na escola.
A gente veio ver o que era, mas as inscrições já tinham acabado. Aí eu atormentei todo mundo, ficava ligando para o coordenador toda hora, até que ele me deixou fazer o teste". E olha que ela tinha na época só 10 anos. Então é preciso crer quando diz que vai ser bailarina para toda a vida. "E tem outro jeito?"
CONTO BRASILEIRO
Com o propósito de criar um "repertório de dança popular brasileira", a Cia. de Dança Infantojuvenil da Funceb já está ensaiando seu quinto espetáculo, Canto do nosso povo-Um conto brasileiro, ainda sem data definida de estreia.
Este ano, cinco novas vagas serão abertas para alunos interessados em ingressar na Cia., o que já causa um alvoroço na escola, como conta Clécia Queiroz, coordenadora do curso preparatório, que reúne 550 crianças e adolescentes dos 5 aos 17 anos. "É uma formação longa que inclui aulas de balé clássico, dança contemporânea e danças populares. Eles já saem prontos para ingressar no curso profissional". Amadores, no melhor sentido do termo, eles já são.


Acompanhe as novidades no blog da Cia de Dança Infanto-Juvenil.

