01/11/2011
[caption id="attachment_15050" align="alignleft" width="406" caption="Foto: Ricardo Konká"]
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O espetáculo Diário do Farol: onde as palavras se revelam inadequadas, baseado no livro Diário do Farol, de João Ubaldo Ribeiro, estreia no Teatro Molière (Aliança Francesa), dia 11 novembro, às 20horas, onde cumpre temporada de sexta a domingo, até 18 de dezembro. Contemplada pelo edital Prêmio Funarte de Teatro Myriam Muniz 2010, a montagem dirigida por Fernanda Paquelet (Siricotico: uma comédia do Balacobaco/Capitães da Areia), homenageia os 70 anos do premiado escritor através de um dos seus mais complexos personagens: um faroleiro transgressor dos códigos morais e éticos.
Em sua casa, construção anexa ao farol situado na ilhota de Água Santa, um ex-padre de 60 anos, cujo nome não é revelado, vivido por Amarílio Sales (Policarpo Quaresma/ Jeremias, o Profeta da Chuva), coloca a plateia frente a frente com atos inescrupulosos que têm o intuito de confirmar a sua existência. Ao relembrar a infância na fazenda, o personagem descreve surras e humilhações cometidas pelo pai, interpretado por Daniel Becker (A Prostituta Respeitosa/Dias de Folia). A partir da morte da mãe, papel da atriz Nayara Homem (Casais pelo Buraco da Fechadura/Vira Lona, Lona Vira), ele passa a ouvir a voz materna, sussurrando-lhe vingança. Mandado para o seminário, ele passa a criar intrigas e prestar favores sexuais para sobreviver no ambiente permeado de corrupção e, assim, alcançar seus objetivos.
Quando conclui os estudos religiosos, ele é enviado à paróquia de Praia Grande como padre e começa a se relacionar sexualmente com as noivas da cidade, dentre elas a jovem esquerdista Maria Helena, representada por Tatiane Carcanholo (Guilda/Viva o Povo Brasileiro), que rejeita seus apelos amorosos. Desprezado e com desejo de ir à forra, ele se infiltra, durante a Ditadura Militar, num grupo subversivo para encontrá-la. Ao entrar nesse universo como delator, descobre o prazer nas torturas. Considerando-se acima do bem e do mal, o ex-padre espalha um rastro de destruição e não poupa ninguém para fazer valer a sua vontade.
Apesar das camadas dramáticas e de toda a vilania do faroleiro, a diretora afirma que não é a falta de limites dele o que mais a instiga a construir o trabalho, mas, sim, as condições ideais encontradas por ele nas organizações públicas e religiosas para exercer seu sadismo. "O personagem, dentro da Igreja e no Governo da época da ditadura militar, consegue fazer o que quer, sem nenhum freio, pois as intuições o protegem", revela Paquelet.
Idealizador do projeto e adaptador do texto, Amarílio concorda com esse ponto de vista da diretora e revela que a ideia de transpor para os palcos a obra de João Ubaldo Ribeiro surgiu da observação cotidiana da quantidade de notícias veiculadas nos meios de comunicação sobre atos extremados de violência. "São imensos os interesses da sociedade e a exposição pela imprensa, desses acontecimentos, que nos causam reações instintivas, provocando julgamento imediato", afirma Amarílio, ganhador do Prêmio Braskem de Teatro, na categoria Melhor Ator, pela interpretação da matriarca de A Casa de Bernarda Alba. De acordo com ele, o assassino que cada pessoa carrega no íntimo se revela nesses momentos, quando a mídia explora à exaustão casos como os de Guilherme de Pádua e Paula Tomaz, Suzana Von Richttofen e os irmãos Cravinhos, e Wellington Menezes de Oliveira, o atirador de Realengo.
Processo técnico. A peça, que discute questões como relações sociais e distúrbios de comportamento, transcorre em três planos: presente, memória e alucinação, entrecruzados para contar a história deste homem atroz. Paquelet, responsável também pela concepção de luz, explica que a platéia percebe claramente as mudanças de cena através da iluminação: no primeiro, ocorrem os relatos e suas reflexões sobre a vida; a luz tem inspiração no luar. No campo da memória, o faroleiro revive o passado ao relembrar a vida na fazenda, a convivência familiar, o internato e a paixão por Maria Helena; então a escolha foi criar uma atmosfera com coloração amarelada, remetendo à luz de velas. No plano do devaneio, onde o personagem conversa com a mãe morta, ela optou por uma iluminação bastante fria e intensificada no tom de azul.
Outras simbologias estão presentes nos artefatos cenográficos, retratando lembranças afetivas dele, e no ambiente cênico, em forma de cruz, que representa o peso que esse homem carrega. O figurino dos personagens, elaborado a quatro mãos, pelos designers de moda Daniel Moraes e Leila Eva Machado, traz inspiração nas imagens suscitadas a partir das histórias contadas pelo faroleiro. Como algumas indumentárias passariam pelo processo de envelhecimento, a dupla aproveitou uma viagem feita à Alemanha e optou por comprar parte dos trajes em brechós berlinenses, ajustados nos corpos dos intérpretes quando chegaram a Salvador. As demais roupas foram criadas exclusivamente para a peça, como o vestido florido de Maria Helena e o rendado em tom terroso da mãe.
Em sua primeira trilha sonora composta para teatro, o músico Alex Mesquita se apoiou na obra adaptada de Ubaldo e nas conversas com a encenadora. "Acho que a chave é produzir algo que corrobore com o que está sendo dito, criando um ambiente acústico e sônico, que transporte os atores e o público à realidade imaginária", explica o compositor, que em 22 anos de carreira já trabalhou com nomes de peso, tais como Carlinhos Brown, Margareth Menezes, Daniela Mercury e Roberto Mendes.
Laboratório. Para arquitetar o Diário do Farol: onde as palavras se revelam inadequadas e entender a conduta do ex-padre, a diretora e o elenco realizaram ciclos de leituras dramáticas da peça, acompanhadas de debates com psicólogos, psiquiatras, psicanalistas e assistentes sociais. Nesses encontros, diante das inúmeras hipóteses levantadas, os atores aproveitaram as conversas para construir seus personagens e Paquelet definiu o perfil do protagonista. No ponto de vista dela, pelas características existentes no livro, o personagem pode ser psicopata, esquizofrênico ou psicótico, devido à licença poética do escritor. "Depois de Édipo, a psicanálise não analisa mais personagens de ficção dada a liberdade que eles têm de ser o que quiserem. Acaba que o diagnóstico fica comprometido" - esclarece a diretora, que aproveitava esses encontros e bate-papos para esboçar cenas da peça e definir os rumos da encenação.
Ao longo de três meses de preparo do espetáculo, outras leituras foram feitas, na sede da Quatro Produções Artísticas e na Livraria Cultura, para que um público heterogêneo, formado por médicos, artistas, jornalistas, donas de casa e estudantes também pudesse opinar sobre o texto e dar sua contribuição. Filmes e livros foram utilizados pela diretora: do cinema ela cita A Ilha do Medo, suspense de Martin Scorsese; Onde os Fracos Não Têm Vez, drama premiado dos irmãos Coen, e o romance de época O Nome da Rosa, pela direção de Jean Jacques Annaud. As inspirações nas letras vieram de Mentes Perigosas: o psicopata mora ao lado, da psiquiatra Ana Beatriz Barbosa Silva e Serial Killers: made in Brasil, da especialista em criminologia Ilana Casoy.
Serviço:
O quê: Diário do Farol: onde as palavras se revelam inadequadas
Quando: 11/11 a 18/12; (sexta a domingo)
Horário: 20 horas
Onde: Teatro Molière (Aliança Francesa, Ladeira da Barra, nº 401)
Ingressos: R$20 (inteira), R$10 (meia)
Classificação: 18 anos
Informações: (71) 3336-7599
www.ofaroldecadaum.blospot.com
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O espetáculo Diário do Farol: onde as palavras se revelam inadequadas, baseado no livro Diário do Farol, de João Ubaldo Ribeiro, estreia no Teatro Molière (Aliança Francesa), dia 11 novembro, às 20horas, onde cumpre temporada de sexta a domingo, até 18 de dezembro. Contemplada pelo edital Prêmio Funarte de Teatro Myriam Muniz 2010, a montagem dirigida por Fernanda Paquelet (Siricotico: uma comédia do Balacobaco/Capitães da Areia), homenageia os 70 anos do premiado escritor através de um dos seus mais complexos personagens: um faroleiro transgressor dos códigos morais e éticos.
Em sua casa, construção anexa ao farol situado na ilhota de Água Santa, um ex-padre de 60 anos, cujo nome não é revelado, vivido por Amarílio Sales (Policarpo Quaresma/ Jeremias, o Profeta da Chuva), coloca a plateia frente a frente com atos inescrupulosos que têm o intuito de confirmar a sua existência. Ao relembrar a infância na fazenda, o personagem descreve surras e humilhações cometidas pelo pai, interpretado por Daniel Becker (A Prostituta Respeitosa/Dias de Folia). A partir da morte da mãe, papel da atriz Nayara Homem (Casais pelo Buraco da Fechadura/Vira Lona, Lona Vira), ele passa a ouvir a voz materna, sussurrando-lhe vingança. Mandado para o seminário, ele passa a criar intrigas e prestar favores sexuais para sobreviver no ambiente permeado de corrupção e, assim, alcançar seus objetivos.
Quando conclui os estudos religiosos, ele é enviado à paróquia de Praia Grande como padre e começa a se relacionar sexualmente com as noivas da cidade, dentre elas a jovem esquerdista Maria Helena, representada por Tatiane Carcanholo (Guilda/Viva o Povo Brasileiro), que rejeita seus apelos amorosos. Desprezado e com desejo de ir à forra, ele se infiltra, durante a Ditadura Militar, num grupo subversivo para encontrá-la. Ao entrar nesse universo como delator, descobre o prazer nas torturas. Considerando-se acima do bem e do mal, o ex-padre espalha um rastro de destruição e não poupa ninguém para fazer valer a sua vontade.
Apesar das camadas dramáticas e de toda a vilania do faroleiro, a diretora afirma que não é a falta de limites dele o que mais a instiga a construir o trabalho, mas, sim, as condições ideais encontradas por ele nas organizações públicas e religiosas para exercer seu sadismo. "O personagem, dentro da Igreja e no Governo da época da ditadura militar, consegue fazer o que quer, sem nenhum freio, pois as intuições o protegem", revela Paquelet.
Idealizador do projeto e adaptador do texto, Amarílio concorda com esse ponto de vista da diretora e revela que a ideia de transpor para os palcos a obra de João Ubaldo Ribeiro surgiu da observação cotidiana da quantidade de notícias veiculadas nos meios de comunicação sobre atos extremados de violência. "São imensos os interesses da sociedade e a exposição pela imprensa, desses acontecimentos, que nos causam reações instintivas, provocando julgamento imediato", afirma Amarílio, ganhador do Prêmio Braskem de Teatro, na categoria Melhor Ator, pela interpretação da matriarca de A Casa de Bernarda Alba. De acordo com ele, o assassino que cada pessoa carrega no íntimo se revela nesses momentos, quando a mídia explora à exaustão casos como os de Guilherme de Pádua e Paula Tomaz, Suzana Von Richttofen e os irmãos Cravinhos, e Wellington Menezes de Oliveira, o atirador de Realengo.
Processo técnico. A peça, que discute questões como relações sociais e distúrbios de comportamento, transcorre em três planos: presente, memória e alucinação, entrecruzados para contar a história deste homem atroz. Paquelet, responsável também pela concepção de luz, explica que a platéia percebe claramente as mudanças de cena através da iluminação: no primeiro, ocorrem os relatos e suas reflexões sobre a vida; a luz tem inspiração no luar. No campo da memória, o faroleiro revive o passado ao relembrar a vida na fazenda, a convivência familiar, o internato e a paixão por Maria Helena; então a escolha foi criar uma atmosfera com coloração amarelada, remetendo à luz de velas. No plano do devaneio, onde o personagem conversa com a mãe morta, ela optou por uma iluminação bastante fria e intensificada no tom de azul.
Outras simbologias estão presentes nos artefatos cenográficos, retratando lembranças afetivas dele, e no ambiente cênico, em forma de cruz, que representa o peso que esse homem carrega. O figurino dos personagens, elaborado a quatro mãos, pelos designers de moda Daniel Moraes e Leila Eva Machado, traz inspiração nas imagens suscitadas a partir das histórias contadas pelo faroleiro. Como algumas indumentárias passariam pelo processo de envelhecimento, a dupla aproveitou uma viagem feita à Alemanha e optou por comprar parte dos trajes em brechós berlinenses, ajustados nos corpos dos intérpretes quando chegaram a Salvador. As demais roupas foram criadas exclusivamente para a peça, como o vestido florido de Maria Helena e o rendado em tom terroso da mãe.
Em sua primeira trilha sonora composta para teatro, o músico Alex Mesquita se apoiou na obra adaptada de Ubaldo e nas conversas com a encenadora. "Acho que a chave é produzir algo que corrobore com o que está sendo dito, criando um ambiente acústico e sônico, que transporte os atores e o público à realidade imaginária", explica o compositor, que em 22 anos de carreira já trabalhou com nomes de peso, tais como Carlinhos Brown, Margareth Menezes, Daniela Mercury e Roberto Mendes.
Laboratório. Para arquitetar o Diário do Farol: onde as palavras se revelam inadequadas e entender a conduta do ex-padre, a diretora e o elenco realizaram ciclos de leituras dramáticas da peça, acompanhadas de debates com psicólogos, psiquiatras, psicanalistas e assistentes sociais. Nesses encontros, diante das inúmeras hipóteses levantadas, os atores aproveitaram as conversas para construir seus personagens e Paquelet definiu o perfil do protagonista. No ponto de vista dela, pelas características existentes no livro, o personagem pode ser psicopata, esquizofrênico ou psicótico, devido à licença poética do escritor. "Depois de Édipo, a psicanálise não analisa mais personagens de ficção dada a liberdade que eles têm de ser o que quiserem. Acaba que o diagnóstico fica comprometido" - esclarece a diretora, que aproveitava esses encontros e bate-papos para esboçar cenas da peça e definir os rumos da encenação.
Ao longo de três meses de preparo do espetáculo, outras leituras foram feitas, na sede da Quatro Produções Artísticas e na Livraria Cultura, para que um público heterogêneo, formado por médicos, artistas, jornalistas, donas de casa e estudantes também pudesse opinar sobre o texto e dar sua contribuição. Filmes e livros foram utilizados pela diretora: do cinema ela cita A Ilha do Medo, suspense de Martin Scorsese; Onde os Fracos Não Têm Vez, drama premiado dos irmãos Coen, e o romance de época O Nome da Rosa, pela direção de Jean Jacques Annaud. As inspirações nas letras vieram de Mentes Perigosas: o psicopata mora ao lado, da psiquiatra Ana Beatriz Barbosa Silva e Serial Killers: made in Brasil, da especialista em criminologia Ilana Casoy.
Serviço:
O quê: Diário do Farol: onde as palavras se revelam inadequadas
Quando: 11/11 a 18/12; (sexta a domingo)
Horário: 20 horas
Onde: Teatro Molière (Aliança Francesa, Ladeira da Barra, nº 401)
Ingressos: R$20 (inteira), R$10 (meia)
Classificação: 18 anos
Informações: (71) 3336-7599
www.ofaroldecadaum.blospot.com