11/11/2011
A montagem, dirigida por Luis Alberto Alonso, revisita personagens de clássicos de Shakeaspere numa parábola que evidencia o processo de miscigenação brasileiro
Com direção de Luis Alberto Alonso, o espetáculo “Outra Tempestade”, vencedor do Edital TCA Núcleo 2011, estreia no próximo dia 17 de novembro, na Sala do Coro do TCA, em apresentação para convidados. A peça fica em cartaz para o público de 18 de novembro até 18 de dezembro, de quinta a domingo, às 20 horas. Em 2012, deve percorrer quatro cidades do interior baiano: Ilhéus, Feira de Santana, Santo Amaro e Alagoinhas. O projeto selecionado para o edital de montagem de espetáculo teatral do TCA Núcleo tem produção de Rafael Magalhães, assinada pela Carranca Produções Artísticas. Com texto escrito pelas cubanas Raquel Carrió e Flora Lauten, “Outra Tempestade” é uma versão do clássico "A Tempestade" de William Shakespeare. Para criar a narrativa, as autoras revisitaram obras clássicas do dramaturgo inglês como "Hamlet", "Romeu e Julieta", "Macbeth", "Otelo" e "O Mercador de Veneza". Em busca da “terra prometida” um barco deixa o "Velho Mundo" e por conta de uma forte tempestade naufraga nas águas litorâneas do "Novo Mundo". A partir desse encontro no continente americano, os novos habitantes passam a viver um “outro” projeto e guiados pelas mãos do Mago Próspero é instaurada uma República e fundada uma utopia. Os “mitos” shakesperianos se entrelaçam e Próspero domina o jogo através de uma transmutação das entidades que habitam a ilha. Hamlet encontra com Ofelia/Oshun, Macbeth se debruça sobre seus fantasmas com Lady Macbeth/Oya, Ariel/Exu desenha o jogo conduzido pelo Mago e leva Shylock a merecido julgamento. A sedução e consequente amálgama entre o Velho e o Novo Mundo é dada também através dos planos das teatralidades, levando o espetáculo a uma grande performance de sonoridades, imagens, encontros e desencontros dos personagens. A obra Outra Tempestade é um texto dramático escrito no ano 1997 pelas autoras cubanas Raquel Carrió y Flora Lauten, dramaturgas e diretora do Teatro Buendia, Cuba. Foram dois anos para a elaboração deste intertexto para teatro com base num processo investigativo, além de conversas e entrevistas e o manuseio de dezenove fontes escritas, incluindo obras completas de autores como Shakespeare e José Martí (político, pensador, jornalista, filósofo e poeta cubano. Criador do Partido Revolucionário Cubano e organizador da Guerra de 1895 pela independência de Cuba do domínio espanhol). O ponto de vista anti-colonialista das autoras cubanas questiona posições estabelecidas Em Outra Tempestade, despojado da sua tragicidade, Hamlet, é um bufão que – após nos convidar a participar da representação - comenta ironicamente seus fatos fundamentais. O barco que naufraga não é observado desde a grota de Próspero, ele traz o próprio mago. Miranda não repudia Caliban, ama-o. Sicorax deixa de ser uma referência para se transformar em símbolo de maternidade. Durante a tormenta que destrói o barco, Oyá preserva para si o trovão, mas deixa o vento e a chuva nas mãos de Elegguá e Oshún respectivamente. Oshún, ainda sendo apresentada como deusa do amor e da sensualidade compartilha com Oyá a liderança dos mortos. A montagem Em quinze quadros que se sucedem vertiginosamente, o discurso dramático expressa o entrecruzamento de culturas, enquanto princípio de formação das gerações. “Condição da alma que é vivida e também sofrida, a brasilidade – assim como a latino-americanidade - não é a fascinação pelo estrangeiro, nem torsos nus dançando ao som de toques e cantos polirritmados, muito menos vulgares práticas esotéricas de raiz hispano/lusófona, africana ou aborígene. A brasilidade é, mais do que tudo, um estatuto de cultura, uma atitude sempre aberta, desintegradora e integradora, assimiladora e re-funcionalizadora dos códigos que chegaram e continuam chegando aos nossos países”, afirma Luis Alberto Alonso. Os rituais do texto são um convite à reflexão estética e teatrológica. Essa reflexão está relacionada ao que tem se determinado como Antropologia Teatral, um campo de investigação científica, mais ou menos emergente, que postula um amplo espectro de inquietações apaixonantes. Entre essas inquietações estão a abertura do sagrado e autêntico (e aqui entra a religiosidade) na aproximação a uma raiz ou sentido humano, o papel do símbolo na sua relação ou conceito, a procura de constantes “universais” na técnica do ator e o problema das origens do teatro. A estética desta montagem é a do não cenário, do espaço nu, o palco desmantelado, o não uso de cenografia na sua denominação tradicional e convencional, não uso de estruturas que dêem referência a espaço, tempo ou lugar. Os elementos que integram o palco são as ações criadas entre atores, luz, texto literário e sonoridades. A luz dialoga com o ator, o figurino com os elementos, a música com as ações e assim, usando como num jogo de probabilidades todos os instrumentos da encenação, menos a cenografia tradicional, o que revela um conceito de cenário já existente, o próprio palco sem vestimentas. “O ator e um espaço vazio é o que predomina nesta montagem. Há coisas urgentes a serem mostradas nesta obra, elas atingem muito profundo o ser humano e estas “coisas” são expostas. Não é uma estética minimalista, eu diria mais bem uma estética do seco”, argumenta o diretor Luis Alonso. Segundo o crítico cubano Pedro Morales, “Outra Tempestade é fruto de uma perversão, quase um ato de bruxaria, uma apoteose de Ilusionismo Teatral”. Para Luis Alberto Alonso, o texto “Outra Tempestade, no aspecto literário, lembra a obra de João Ubaldo Ribeiro, Viva o Povo Brasileiro, pois, ao mesmo tempo que rememora elementos fundadores, evoca mitos de origem e relembra contos e lendas que existem na tradição oral, transgredindo conceitos como os de herói e povo. TCA Núcleo – Edição 2011 “Outra Tempestade”, projeto selecionado para o edital de montagem de espetáculo teatral TCA.NÚCLEO 2011, é assinado pela Carranca Produções Artísticas em parceria com o diretor associado Luis Alberto Alonso. Entre os pontos relevantes que definiram esta decisão a Comissão destacou a qualidade artística e cultural do projeto e ressaltou, entre outras questões, os indicadores de inovação e originalidade e o caráter formativo e de pesquisa apontado na justificativa e exposição oral do projeto. A Comissão de Seleção que avaliou os projetos inscritos, nesta edição 2011, foi formada por Elísio Lopes Júnior (Diretor, dramaturgo e diretor de teatro da FUNCEB), Celso Junior (Ator, diretor e professor), Luiz Marfuz (Diretor e professor), Jorge Vermelho (Ator, diretor e atual diretor artístico do BTCA) e Cacá Carvalho (Diretor e ator paraense reconhecido por trabalhos de destaque na televisão, teatro e cinema). Edições anteriores – Desde que se tornou uma realização feita através de editais e seleções públicas, em 2007, o Núcleo de Teatro do TCA (TCA.Núcleo) possibilitou a montagem de quatro espetáculos teatrais, que, ao todo, alcançaram um público de mais de 12 mil pessoas. Foram eles: 2007/2008, “Policarpo Quaresma”, com texto de Lima Barreto e direção de Luiz Marfuz; 2008/2009, “Jeremias, o Profeta da Chuva”, com texto e direção de Adelice Souza; 2009/2010, o infanto-juvenil “Aventuras do Maluco Beleza”, dirigido por Edvard Passos, e “Dias de Folia”, dirigida por Jacyan Castilho. Sobre Luis Alberto Alonso Radicado na Bahia há oito anos, o artista de origem cubana é fundador do grupo Oco Teatro Laboratório junto com o ator e produtor Rafael Magalhães. Alonso também é idealizador e diretor artístico do Festival Latino-Americano de Teatro da Bahia (FILTE) e responsável por inúmeras publicações e traduções de teatro. Dirigiu, em Salvador, espetáculos como "Branca - O Santo Inquérito" (2007), versão de O Santo Inquérito de Dias Gomes, “Cuide de você” (2004), "Intervenções em Preto e Branco” (2010) e “Os Sonhos de Segismundo" (2009), este último indicado a Melhor Espetáculo do Prêmio Braskem 2009. Organiza a Coleção Dramaturgia Latino-Americana em parceria com a Editora da Universidade Federal da Bahia –EDUFBA. Tem participado de festivais e ministrado palestras e cursos em vários países como Estados Unidos, Espanha, Portugal, Dinamarca, Polônia, Eslovênia, Áustria, Suécia, República Dominicana, Chile, Equador, Peru, Alemanha, Cuba, Brasil. Graduou-se em direção teatral pela Escola Nacional de Artes (ENA), de Havana (Cuba) e integrou o Instituto Superior de Arte (ISA) de Havana, Cuba durante 3 anos. Integrou a 1ª Companhia de Teatro de Cuba, Teatro Buendia, onde atuou em diversos espetáculos. Em 2000, foi agraciado com o título de “Ator de Primeiro Nível”, o mais importante reconhecimento de avaliação pelo Ministério da Cultura de Cuba. Em 2001 ingressou no Instituto Superior de Arte de Havana (ISA), na área de Interpretação Teatral. Desde 2005 faz parte como membro permanente do Grupo Internacional de Pesquisa Teatral no Trabalho do Ator, Ponte dos Ventos, dirigido pela atriz fundadora do Odin Teatret, Iben Nagel Rasmussen.