“Capitães da Areia” inspira jogo de realidade alternativa que traz para os dias de hoje a essência da obra de Jorge Amado

12/12/2011
Uma verdadeira fusão entre o mundo real e o virtual. É assim que se pode definir - de modo bastante resumido - a proposta dos Alternate Reality Games, também conhecidos como ARGs. Importante ferramenta transmidiática e nova aposta do cenário do entretenimento, esse tipo de jogo, ainda pouco produzido no Brasil, foi uma das apostas dos "Jogos Capitães da Areia", desenvolvido pelo coletivo baiano Porreta Games com patrocínio da operadora Vivo, através do programa Vivo Lab e do Programa Faz Cultura do Governo do Estado da Bahia. O projeto foi lançado no dia 2 de dezembro e reúne sete jogos eletrônicos inspirados nesta que é uma das mais famosas obras do escritor baiano Jorge Amado, entre eles o jogo de realidade altenativa Sentinelas do Trapiche, que traz para os dias de hoje a essência do famoso livro através da história de uma ONG em luta contra o desrespeito aos direitos dos trabalhadores jovens de baixa renda. Tendo como ponto de partida uma história de mistério, com vários personagens, os ARGs são narrativas lúdicas que embaralham as fronteiras entre mundo real e o ficcional, usando os meios de comunicação. Para avançar, os jogadores devem resolver enigmas e procurar pistas nas mais diversas mídias: telefonemas, mensagens de fax, anúncios em jornal, emails, mídias locativas, websites, sites de relacionamento, mídias sociais e serviços de mensagens (chat, SMS). “Essas entradas são sempre acompanhadas de puzzles e mecânicas típicas de jogo, além, claro, de uma história que conduz todos os eventos do ARG, borrando as fronteiras da realidade com o mundo que foi criado para o jogo”, explica Luiz Adolfo Andrade, da equipe do Porreta Games e um dos idealizadores do Sentinelas do Trapiche. Para ele, a grande diversão do ARG, para o jogador, consiste justamente em encarar suas ações como se fossem parte da vida ordinária. O ARG Sentinelas do Trapiche, que buscou referências em "Capitães da Areia", foi realizado entre 01 de Junho e 30 de Julho de 2011 em quatro cidades - Rio de Janeiro, São Paulo, Porto Alegre e, principalmente, Salvador -, e contou com a criação de oito websites para o desenvolvimento de sua trama, sendo dois deles públicos e seis "secretos", descobertos pelos jogadores através das pistas que compuseram o jogo. Na equipe, entre principais envolvidos, estavam um webdesigner, dois produtores, um game designer, uma cenógrafa e figurinista, atores e figurantes, num total de quase trinta pessoas. O público participou presencialmente, nos live actions, e também através das redes sociais, criando comunidades no Orkut e no Facebook para jogarem e descobrirem juntos os mistérios do ARG. Já os perfis dos personagens do jogo nas redes sociais foram alimentados de modo a interagir com os jogadores, para ajudá-los ou desafiá-los. A proposta do Porreta Games é seguir investindo nesse modelo de jogo entre seus produtos, assim como contribuir para a criação de um público cativo desta modalidade em Salvador e na Bahia. “Eu considero essas realizações em transmídia como o desafio desta década em termos de produção midiática”, revela Luiz Adolfo Andrade, ao falar sobre os planos do grupo para o futuro. SOBRE O ARG SENTINELAS DO TRAPICHE* Lançado em 1937 e com mais de cinco milhões de exemplares vendidos até hoje, “Capitães da Areia” retrata em suas páginas as peripécias de personagens como Pedro Bala, Dora, Gato, Sem-Pernas e Professor. Abandonados por suas famílias, os jovens são obrigados a lutar para sobreviver nas ruas da São Salvador da década de 1930, onde encontram, além das dificuldades da pobreza e da vida insalubre, a liberdade e a lealdade nos grupos de capitães. No ARG, essa história, uma das mais comoventes do escritor Jorge Amado, foi atualizada para os nossos dias para contar a história de uma ONG em luta contra o desrespeito aos direitos de jovens de baixa renda. Assim, além de trazer para a contemporaneidade as questões discutidas em “Capitães da Areia”, promove-se, também, novas reflexões. No jogo, a agência de empregos STANDARD se aproveita indevidamente da mão-de-obra de jovens de baixa renda. A ONG Sentinelas do Trapiche, formada por jovens que foram explorados pela STANDARD, pede ajuda aos jogadores para desmascarar Deolindo Barreiras, dono da empresa. As ações do “Sentinelas do Trapiche” se passam em quatro cidades – Salvador, Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre – e na internet, onde os jogadores se esforçam para desvendar enigmas colocados em sites secretos. Alguns vídeos criados especialmente para o jogo podem ser conferidos no Youtube. ARGS: LOGÍSTICA Em todo ARG existe um profissional responsável por criar a historia, elaborar e gerenciar os enigmas, o chamado Puppetmaster, que é o pilar do jogo. A equipe de produção deve contar também com animadores de rede (que dão vida aos personagens do ARG, criando perfis em sites de relacionamento na Internet, atualizando essas páginas, estabelecendo comunicação pelo computador, entre outras atividades). É necessário ainda um programador, para criar alguns sites específicos para o jogo em questão, atores (que dão vida e cara aos personagens do ARG) e uma equipe técnica, para produzir fotos e vídeos, por exemplo. No geral, os ARGs envolvem baixos custos, porque os vídeos, no geral, devem parecer amadores, feitos pelas próprios personagens, e a mídia mais utilizada para sua difusão é a Internet, o que requer pequeno investimento. O mais importante é que sejam construídas ambientações verossímeis (no espaço urbano e no virtual), para criar no jogador a impressão da existência dos personagens enquanto pessoas reais vivenciando situações reais. A participação dos jogadores e a opinião do público em geral são fundamentais para o desenvolvimento do enredo, que é construído conforme as pessoas vão jogando e desvendando os mistérios. O ARG COMO FERRAMENTA TRANSMÍDIA Os ARGs funcionam de maneira extremamente eficaz em estratégias de entretenimento em transmídia, além de integrarem uma tendência que vem ganhando força, especialmente no exterior: a retomada das cidades como um espaço para os jogos. No Brasil, o cenário é um pouco diferente, pois os ARGs ainda não recebem o mesmo investimento e destaque que têm internacionalmente – apesar da procura crescente por parte dos jogadores brasileiros. Ainda assim, diversas empresas estão investindo nesses jogos como mais uma estratégia de atrair e fidelizar o cliente, além de comunicar ao consumidor sua marca através do entretenimento – o que pode chamar a atenção de pessoas avessas à publicidade comum. Além disso, os ARGs costumam gerar visibilidade, mídia espontânea, cadastro em banco de dados, dentre outros, a um custo mais baixo que o de ações de marketing. O potencial está no fato de os jogadores estimularem outras pessoas a jogarem e a produzem conteúdo: eles registram o jogo, divulgando-o, e suscitam debates em sites, wikipedia, blogs e redes sociais, por exemplo, gerando repercussão online e boca a boca. Criar uma história em transmídia significa criar uma narrativa que circula além de uma plataforma midiática: uma história principal se desdobra em diferentes mídias, de um quadrinho a uma série online, de um filme a um game, expandindo-se e ganhando, assim, novos contornos e intensidade. Vale usar todos os tipos de meios de comunicação para desenrolar a trama - elegendo sempre uma plataforma como principal, mas de modo com que cada outra mídia possa contribuir com algo novo para a narrativa. Atualmente, o formato transmídia é utilizado por diversos estilos de narrativas – literatura (Perárcio, de Braulio Mantovani; HQs The Walking Dead), ficção seriada (Lost, Heroes, Dexter), cinema (Avatar, Batman: the dark night), e games (gênero dos jogos de realidade alternativa).