23/02/2012
Trajados de branco ou preto, com máscaras assustadoras, fazendo sons com a boca e com instrumentos, levando também nas mãos objetos que remetem a cenários de filmes de terror, os Blocos do Silêncio, mais uma vez na noite da sexta-feira carnavalesca, desfilaram pelas ruas de Maragojipe anunciando ao povo que já é Carnaval. Esta tradição, que tem mais de um século, anualmente ocorre a partir de meia-noite, na virada para o sábado, e é uma das mais relevantes expressões populares da folia maragojipana.
Os grupos de "fantasmas", "almas penadas" e "monstros" partem de diversos pontos da cidade, até se encontrarem no ponto principal da festa: a Praça Ermezindo Mendes – Praça da Matriz. Pelos trajetos e no grande encontro, os Blocos do Silêncio divertem e assustam a população, que se reúne nas portas de suas casas, nas esquinas e praças, à espera da passagem destes personagens. Há, também, referências a rituais religiosos, em respeito à fé naquilo que não é terreno.
Um dos locais de concentração e saída de um dos Blocos do Silêncio é a porta do cemitério da cidade. A dona de casa Jorgina Santana, de 75 anos, que, desde que nasceu, mora na base da Ladeira da Saudade, onde o cemitério se localiza, esteve outra vez sentada à porta de casa à espera da chegada do grupo: "Vejo isso desde que me entendo por gente. É bom de ficar olhando", afirma, enquanto conta que, por problemas de saúde, não consegue mais acompanhar a festa pela cidade. "Mas eu ia todo ano. Eu botava minhas máscaras e não perdia. Eu não iria perder, não é?", finalizou Jorgina.
Comprometido com a ação, combustível que torna possível a manutenção destas apresentações, um dos fantasiados não revelou sua identidade. Apresentando-se como "Alma Leva Todo Mundo", o rapaz, de 35 anos, comentou que há duas décadas repete esta tradição ano a ano: "Isto é a animação de Maragojipe. É o que faz a nossa festa. Nos próximos dias, estarei também nas ruas, vestido de careta, vestido de mulher, animando todo mundo", contou ele.
O jovem garçom Antonio Jorge Souza, de 24 anos, que estava entre os curiosos espectadores, também reconhece o valor da manifestação: "É muito interessante. Se a gente não mantiver estas tradições, Maragojipe perderá sua força. Nosso carnaval é excelente por causa desta cultura", opinou.
O Carnaval de Maragojipe, cidade do Recôncavo Baiano, é tombado como Patrimônio Cultural Imaterial da Bahia desde 2009. As ações que mantêm as peculiaridades da festa são apoiadas pela Secretaria de Cultura do Estado da Bahia (Secult BA), através do programa Outros Carnavais, que investe este ano R$ 270 mil no evento.
Além do Outros Carnavais, a SecultBA realiza no Carnaval de Salvador os programas Carnaval Ouro Negro, que apoia 127 entidades de matrizes africana e indígena; o Carnaval Pipoca, que promove 20 desfiles de trios independentes, diversificando e qualificando os shows apresentados nos circuitos; e o Carnaval do Pelourinho, com 53 bandas e artistas se apresentando nos espaços do bairro, além de uma programação temática a cada dia, homenageando os traços e ritmos da cultura baiana. O Carnaval do Pelourinho, inclusive, também recebe grupos culturais de Maragojipe, entre orquestras, charangas e blocos de mascarados, que ocupam as praças mostrando suas tradições.

