Praça Castro Alves é palco de encontro e despedida dos blocos Ouro Negro

23/02/2012
As entidades carnavalescas de matriz africana abriram os desfiles do último dia de carnaval na Praça Castro Alves e também foram responsáveis pela animação de quem ficou até mais tarde na Praça do Poeta. Descendo da Rua Chile, circuito Batatinha, ou vindo pela Ladeira de São Bento, do tradicional circuito Osmar, blocos afro e afoxés protagonizaram uma bela despedida da folia deste ano. O canto religioso dos afoxés abriram os caminhos, na tarde de terça-feira. Primeiro, o mais antigo deles, o afoxé Filhos de Gandhy, que esse ano aderiu à luta pelo fim da violência contra as mulheres. "Os homens devem ser parceiros de suas mulheres e não seus agressores", pedia o puxador do afoxé, em meio ao canto para todos os Orixás. No pescoço dos associados, as contas azul e branco se uniram às de cor rosa e branca, da campanha de não agressão. As mulheres comemoram logo atrás, no afoxé Filhas de Gandhy. Ao invés do ijexá da versão masculina, elas dançavam o samba da banda Viola de Doze. Afoxé é religiosidade, alegria e também consciência social. Saudando a importância do livro e da leitura para a formação do cidadão, o afoxé Filhas de Olorum trouxe versos e homenageou o escritor tema do carnaval 2012, Jorge Amado. Amor ao Ilê - O último dia de folia também foi a vez do circuito Batatinha receber o mais belo dos belos. O Ilê Aiyê se despediu do carnaval com o mesmo brilho que saiu no primeiro dia de desfile, no Curuzu. Homens e mulheres: adultos, idosos e crianças capricharam no visual, com elementos da cultura africana, para dar adeus ao Carnaval de 2012. A vendedora Aiane de Matos usava um turbante de onça, com aplicação de tecido dourado. "Sempre dá para valorizar a fantasia. Fazer um charme a mais. O turbante está pesado, mas este é o último dia, vale a pena pra fazer bonito no meu bloco", justifica. Quem também fez bonito foi a Deusa do Ébano deste ano, Edjane Nascimento, apesar do cansaço causado pela maratona de apresentações. "Eu esperei esse título por quatro anos, e, quando você faz o que gosta, o que ama, não tem cansaço que te deixe abater. Acho que só vou sentir mesmo amanhã", afirma. As crianças também marcaram presença. Kailane tem sete anos e desfila no Ilê desde os dois anos. "Tenho paixão por esse bloco, por isso fiz questão de trazer ela desde cedo", conta a mãe. A jornalista Francylene Martins não teve a mesma sorte. Só pôde desfilar quando conquistou a independência financeira, há seis anos. Guardou a paixão por muitos anos. "Quando consegui ter minha carteira de associada foi uma alegria. Uma afirmação étnica e a valorização da minha auto-estima enquanto mulher negra", comemora. Quando foi lembrada do fim da folia momesca deste ano, lamentou. "Uma pena que acabou. Já estou com saudade". Até 2013 - Outros blocos também se despediram do carnaval de 2012 no circuito Batatinha. O afoxé Filhos de Ogum de Ronda apresentou o tema "Ogum traz a paz". "Ganga Zumba Rei dos Palmares" foi a ordem que embalou os associados do afoxé Ganga Zumba. O samba também esteve presente neste adeus. O Trio Samba Maria trouxe o grupo Chita Fina, formado por mulheres, que fizeram os foliões dançarem no Circuito Batatinha. Samba também animou os associados e pipocas que seguiam o mais antigo bloco de índio do carnaval de Salvador. O Apaxés do Tororó trouxe o grupo Filosofia do Samba. Quem estava na Praça Castro Alves ainda curtiu o final do desfile de blocos afro populares como o Olodum, que trouxe uma multidão de seguidores desde o Campo Grande e o Muzenza, com sua forte batida percussiva e o balanço do reggae. Foi um verdadeiro encontro de blocos afro e afoxés na Praça do Povo. As cores das diversas fantasias dos associados se harmonizavam num belo espetáculo carnavalesco que envolvia o público pipoca. Se dependesse da animação do folião, os tambores e pandeiros do Ouro Negro ainda tocariam por toda a última madrugada do Carnaval 2012, deixando uma forte expectativa para o próximo ano.