Evento aconteceu no dia 29 de março, na Sala do Coro, e foi precedido por bate-papo do autor com o público no Conversas Plugadas do TCA
[caption id="attachment_20643" align="aligncenter" width="420" caption="Fotos: Jamile Amine"]
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Quando Aldri Anunciação, autor da peça em um ato Namíbia,Não!, participou do projeto Conversas Plugadas, o público baiano enfim conheceu detalhes do processo de criação da obra. O texto do espetáculo que vem causando enorme sucesso por onde passa foi lançado em livro, na noite de 29 de março, na Sala do Coro do Teatro Castro Alves, em Salvador.
Durante o bate-papo, Aldri, que assina pela primeira vez o texto de um espetáculo, explicou como resolveu encarar este desafio. “As ideias são como pessoas, elas batem à sua porta. Quando essa chegou, pensei que tinha batido na porta errada, mas achei a ideia simpática, procurei autores e apresentei a proposta. Muitos achavam interessante, mas perigosa, pelo fato de misturar comédia com racismo. Alguns autores saiam pela tangente, até que eu me dei conta de que estava procurando um autor especifico, que era eu mesmo”, revelou.
Nessa busca por um autor que apostasse na sua ideia, Aldri começou a rabiscar, até que o texto foi tomando corpo. “Naquele ponto vi que já não era uma mais uma ideia, mas um espetáculo. Foi assim que percebi Namíbia, Não! sendo criado”, contou o autor, que também destacou um dos principais motivos da identificação da plateia com a peça: o confinamento.
A história parte dos dois personagens presos em um apartamento, por conta de uma medida provisória que os obrigaria a voltar à África, caso saíssem de casa. O público, por sua vez, confinado à estrutura autoritária do teatro, onde não pode falar e só consegue se expressar através do riso, do choro ou outro tipo de emoção, tem respondido à peça esgotando as bilheterias de praticamente todas as apresentações.
Ao fim do bate-papo com o plateia presente ao Conversas Plugadas ontem à noite, Aldri anunciou a novidade. “Estou pensando agora em fazer a trilogia do confinamento. Ela já começou com Namíbia, Não!, passará por um texto que estou escrevendo atualmente e terminará com uma ideia que ainda está adormecida, quietinha, mas latente”, confidenciou.
Autor respondeu ao questionamento do público sobre influências
Apesar de não buscar uma fonte específica de inspiração, o texto escrito por Aldri e o espetáculo em si são propositalmente repletos de referências. “A estrutura dramatúrgica se dá de forma bem realista, nada é não explicada, tem a ver com a escola realista. Chega um momento em que deixo de explicar, ai começam a aparecer várias imagens surreais e absurdas, que também são influências. Há uma passagem em que há a quebra da quarta parede, o que pode ser uma referência a Bertold Brech. Tudo isso percebi ao longo do ato de construir Namíbia,Não!”, explicou.
ReconhecimentoA diretora de teatro Fernanda Júlia, tida como profissional genuinamente talentosa, que compareceu para o Conversas Plugadas e à sessão de autógrafos, parabenizou Aldri em público: “Namíbia, Não! é minha grande paixão. Seu texto é uma grande contribuição para mim, que sou artista negra. Você mostra não só o negro na cena, mas o negro falando de si, sendo protagonista e não plano de fundo. É bacana se ver e ser visto em uma cena. Desta forma você trabalha o teatro como contribuição politica. Meus parabéns”, disse Fernanda Júlia.
José Jackson, diretor da adaptação baiana “Dois Perdidos Numa Noite Suja”, destacou a importância do livro como complemento da obra. “Te dou os parabéns por dar acesso ao publico à leitura do texto, é uma iniciativa super louvável. O espetáculo é muito rico, há muita informação e coisas muito profundas que vão além de ver a encenação. Dessa forma o público tem a oportunidade de aprofundar o entendimento”, disse.
Já a atriz Jane Santa Cruz, destacou a construção imagética da obra. “Acho interessante as imagens que você traz através da divergência ideológica dos dois personagens, o que acaba promovendo diversas ações. É um grande projeto, delicado e profundo”, diz.
Ator x Escritor
Segundo Aldri, enquanto ator, foi muito difícil se desprender das ideias, escolher um dos personagens e negar o outro. “Foi ainda mais complicado porque escrevi o texto pensando em atuar como o André, mas recebi de Lázaro Ramos, diretor da peça, a ordem para atuar como o Antônio”, declarou.
E sobre a relação com o diretor, que tentava desamarrar e dar dinâmica ao espetáculo, Aldri conta que foi preciso dialogar muito para fazer as quebras necessárias. “Eu fiz um texto bastante rubricado, então acabei determinando muita coisa, tempo de pausa, músicas, figurino, cores. Fui até um pouco egoísta, tentei ao máximo preservar a história. Mas a relação com Lázaro foi realmente rica. Ele propunha mudanças e sem sempre aquilo me convencia. Hoje ele diz que lancei o livro por pura raiva e protesto aos cortes, pro público conhecer a peça na íntegra”, contou sorrindo. As pessoas gargalharam diante da anedota.
A partir de 13 de abril, o livro Namíbia,Não! estará disponível nas livrarias Cultura e Saraiva. Para aquisição imediata, já pode ser encontrado na Pérola Negra, loja no bairro do Canela, em Salvador, e na Edufba (Editora da UFBA). O preço de capa é R$25. O público pode seguir acompanhando notícias sobre o espetáculo e seus desdobramentos através do blog da peça. SERVIÇO: Livro Namíbia,Não!, peça teatral em um ato, de autoria de Aldri Anunciação. Onde encontrar: para aquisição imediata, na loja Pérola Negra (bairro do Canela, Salvador. Tel (71) 3336-6997) e na Editora da Universidade Federal da Bahia, Edufba. Após 13 de abril, também nas livrarias Saraiva e Cultura. Preço de capa na Edufba: R$25 (valor pode variar nas demais livrarias)