Rodas de Conversas reúnem mestres, saberes e especialistas em discussões e cantorias

09/05/2012
Índios, afrobrasileiros e questões de gênero na Roda. No último dia da Celebração das Culturas dos Sertões, foram abertas as Rodas de Conversas, que reuniram cerca de 150 participantes para um debate amplo e extremamente rico sobre as identidades sertanejas, a convivência com o semiárido, culturas tradicionais e sertão no mundo. Nas Rodas, a diversidade do sertão se evidenciava na própria formação do público, formado por pesquisadores, mestres de saberes populares, representantes de movimentos sociais, profissionais das mais diversas áreas envolvidas com os sertões , além de professores, estudantes e artistas. No encontro sobre “Identidades Sertanejas”, mediado por Claudia Vasconcelos, coordenadora geral do projeto das Rodas de Conversa, o público pode assistir a um vídeo sobre o povo Pankarerê, da região do Raso da Catarina, que cultiva como uma das suas principais tradições a realização da Festa do Amaro, celebrando as crenças e a cultura dos Pankarerê, em torno de rituais de cura e de confraternização.  A fala “Índios e os Sertões”, foi feita por feita por Juracy Marques, professor da UNEB – de Juazeiro, e Nadia Akauã, representante do povo Tupinambá, do sul da Bahia. Nesta mesma Roda, as Identidades de Gênero e Masculinidades dos Sertões foram abordadas pela professora da Universidade Estadual da Bahia (Uneb), Nara Cláudia Vasconcelos. "O feminino, no sertão, oscila entre a imagem de uma mulher submissa e a de uma mulher forte. Essa última acontece porque a masculinidade é uma marca muito forte no sertão, transbordando para a mulher, a mulher-macho, como diz a canção", disse Nara, que também relatou histórias de mulheres que romperam com o estereótipo típico da mulher recatada e sem desejo sexual.  Também participaram da Roda sobre Identidades Sertanejas a professora Íris Verena Oliveira, da UNEB de Conceição do Coité e Elias Lima, representante da Federação do Culto Afro-brasileiro de Feira de Santana, abordando o tema Religiosidade africana no Sertão. Um Outro Sertão Possível Ainda pela manhã, na Roda “Um Outro Sertão Possível”, que tratou sobre estratégias e culturas de convivência com o semiárido, foi apresentado o projeto de Formação de Educadores Populares Agroecológicos, do Instituto de Permacultura/Escola Umbuzeiro, para um grupo formado ainda por jovens de mais de sete cidades do MOC - Movimento de Organização Comunitária (Feira de Santana) e representantes do IRPAA – Instituto Regional da Pequena Agropecuária Apropriada (Curaçá). Também foram discutidas iniciativas na área de formação juvenil, no tema com a participação da Rede de Educação do Semiárido Brasileiro. Nesta Roda, foram discutidas as formas de captação de água nas regiões onde ocorrem períodos de estiagem. Os participantes colaboraram contanto experiências eficazes para amenizar os efeitos da seca. "Não precisa depender do envio de carro-pipa para as cidades, contamos com formas de captação que devem ser incentivadas, como os barreiros, açudes e cisternas", disse Kamilla Souza, do Movimento de Organização Comunitária de Feira de Santana. Representações do sertão e culturas tradicionais As culturas tradicionais e as representações do sertão no mundo foram tema das Rodas de Conversa da tarde do último dia da Celebração das Culturas dos Sertões, com destaque para a medicina popular. “A prática oficial nega a medicina popular, ao mesmo tempo em que extrai dela o conhecimento para a produção de seus medicamentos”, disse Daniela Martins, professora da Universidade Estadual da Bahia. O momento em que a medicina popular passou a ser marginalizada foi pontuado na fala de Daniela. “As práticas médicas oficiais e as práticas médicas tradicionais nem sempre tiveram relações tensas, como vemos hoje. A imagem negativa das práticas tradicionais, como as curadoras, os terapeutas populares, surge com a instalação das escolas de medicina, com uma intenção de reserva de mercado”, explica a professora. A tutela da prática médica, porém, guarda uma contradição: enquanto as culturas tradicionais eram debatidas em uma sala, as representações dos sertões no mundo eram questionadas na outra. O cineasta Marcelo Rabello contou a experiência de educação popular dos pontos de cultura nas cidades sertanejas e enfatizou a necessidade de pensar a educação para a cultura. “É preciso de educação para o desenvolvimento da cultura, é preciso que haja capitação para que o outro seja inserido no trabalho, tendo voz. Não adianta ir a uma comunidade e falar sobre ela, é preciso que eles mesmos sejam capazes de dizer”, defendeu o cineasta. As rodas primaram por sempre trazer pesquisadores e representantes das culturas populares para compor as mesas. Depois das explanações, o público era convidado a fazer perguntas e intervenções.