Expedição Cinema de Rua realiza roteiro pela cidade

17/07/2013

Com o objetivo de discutir a relação entre os cinemas de rua e o centro de Salvador, considerando a importância desses locais e as mudanças ocorridas na dinâmica da cidade ao longo do tempo, a “Expedição Cinema de Rua”, realizada pelo Museu de Arte Moderna da Bahia (MAM-BA) na última sexta-feira, 12, contou com a participação de estudantes, pesquisadores, cinéfilos e curiosos, que puderam desvendar um pouco mais sobre as dinâmicas e riquezas dos cines que compõem um pedaço da história da cidade. A ação integrou a proposta de externalização de projetos do MAM-BA, que possibilita a realização de eventos ligados ao museu em espaços externos a ele. Durante a Expedição, os participantes traçaram um mapa e seguiram pelas ruas do centro de Salvador, tendo como guia o urbanista e mestrando em arquitetura João Pena. “A construção da cidade também acontece através de uma imagem de sociedade que se quer construir e que não necessariamente já está construída. Os equipamentos urbanos, principalmente os públicos e os de uso coletivo, muitas vezes são projetados com o propósito não apenas de atender uma necessidade, mas para a construção de um cenário urbano”, atentou Pena. Roteiro – Do ponto de encontro no Campo Grande, o grupo partiu para o Aquidabã, iniciando o seu trajeto pelo Cine Tupy, que foi inaugurado em 1956, e fica bem no início da Barroquinha. De lá, os participantes seguiram para o Cine Teatro Jandaia – construído em 1911 e que está fechado há 15 anos. Em seguida, passaram pelos cinemas Pax e Astor, na Rua da Ajuda, além do Cine Aliança (ex-Olímpia – 1975), na Baixa dos Sapateiros. Seguindo pela Praça da Sé, o grupo parou em frente ao Cine Excelsior, finalizando seu passeio no Cine Glauber Rocha, onde os “expeditores” foram contemplados com uma palestra do atual diretor e programador do espaço, Cláudio Marques. Empreendedor nato, Cláudio traçou um panorama histórico do cinema na capital da Bahia, revelando detalhes da abertura do Espaço Unibanco de Cinema de Salvador, na Praça Castro Alves, coração da cidade. Logo quando abriu, o desejo dos idealizadores era que a programação fosse totalmente alternativa, mas, como afirma Cláudio Marques, perceberam que era necessário fazer uma mistura com os chamados blockbusters – termo usado para designar os filmes mais assistidos e grandes produções do cinema – para que houvesse uma adesão de público e as pessoas se sentissem a vontade de ir ao espaço. Hoje, o público é composto notadamente por jovens e idosos, que revivem o centro histórico e o cinema de memória. “A gente fez uma coisa fantástica que foi inverter o polo da cidade. Na beira da Baía de Todos-os-Santos, de frente pra Castro Alves, em um espaço que tem o nome de Glauber, ao lado de um com o nome de Gregório de Mattos e da Igreja da Barroquinha, onde simbolicamente está o axé da Bahia”, conta Cláudio.

Cine Glauber Rocha – A região do Centro Histórico de Salvador já foi conhecida como “Cinelândia” e chegou a reunir nove cinemas de rua, na primeira metade do século XX. A avenida J. J. Seabra – popularmente conhecida como Baixa dos Sapateiros – e a Rua Chile concentravam as principais salas no auge das exibições cinematográficas, reunindo um grande e diversificado público. Em dezembro de 2008, com a reinauguração do Cine Glauber Rocha, localizado na Praça Castro Alves, local do antigo cine Guarany – fundado em 1919 e que estava com suas portas fechadas desde 1998 –, registrou-se uma esperança de revitalização cultural na região do centro da cidade. Ele foi a principal sala de cinema de Salvador por cerca de 70 anos. Moderníssimo na época de sua inauguração, era frequentado pela elite da sociedade baiana. Em 1955, após um período de decadência, foi reformado e reinaugurado, quando ganhou o formato do telão retangular e som estéreo. Foi lá a estreia do primeiro longa-metragem do cinema baiano, Redenção (1959), cuja lente anamórfica foi inventada pelo próprio diretor, Roberto Pires. Ao longo do tempo, o Cine Guarany se tornou um importante espaço cultural e todas as estreias de curtas e longas baianos eram feitas no local que, em meados dos anos 60, ainda se tornou palco para debates do Clube de Cinema, formador de uma geração artística e intelectual, liderado por Walter da Silveira, um dos mais importantes críticos de cinema do país. Anos depois, o Cine Guarany passou por uma nova reforma, encabeçada pela arquiteta ítalo-brasileira Lina Bo Bardi, e foi reaberto em 1982, com o novo nome que homenagearia o cineasta baiano Glauber Rocha, morto em 1981. Por mais de uma década, o Cine Glauber Rocha encantou plateias com a magia do cinema, mas a chegada das modernas salas de shopping afastaram o grande público e o cinema foi fechado em 1998, deixando uma grande saudade para aqueles que o conheceram. Em 2009, foi reaberto neste formato, que permanece até hoje.