“O ritual é uma espécie de limpeza da áurea de cada um dos seus participantes, mas a benção é extensiva a todos”, explica Valdemar José de Souza (Tio Souza), diretor social da entidade. A saída do Gandhy no Centro Histórico de Salvador é uma das mais concorridas atrações da programação do Carnaval do Pelourinho que tem 73 atrações neste ano, entre shows, fanfarras, performances e desfiles pelas ruas, além de grandes cantores e compositores em um grande palco armado no Largo do Pelô.
Pela primeira vez em Salvador, Ildenir Freitas, 67 anos, coordenadora da Casa da Cultura Maranhão no Rio de Janeiro, não escondia a emoção. “Meu maior sonho era ver o Gandhy passar e estou realizando isso hoje”, declarou. O que mais chamava a sua atenção era o conjunto das roupas e indumentárias, o toque dos agogôs. “Isso é África”, ressaltava!
A aposentada Maria de Lourdes Ribeiro Gomes, 63, participa da saída do afoxé desde os cinco anos de idade, quando era trazida pela mãe. “É uma emoção muito grande, principalmente quando soltam as pombas. Tenho certeza de que vai abrir meu caminho e de toda a minha família”, dizia emocionada.
O afoxé completa 65 anos de existência. Foi criado em 1949 por estivadores do cais de Salvador, todos praticantes do candomblé, reunindo hoje cerca de 8 mil membros, homens inspirados pelo princípio da não violência. “A mensagem do Gandhy para o carnaval deste ano é a mesma de quando ele foi criado, a mensagem da paz, da não-violência”, afirma Tio Souza. Deixando um tapete branco formado pela indumentária de milhares de participantes, ao som do ijexá, o Gandhy seguiu para a Praça Castro Alves onde participou do Afródromo.
Desde 2010, o ‘Desfile de Afoxés’ – manifestação carnavalesca composta por cânticos, indumentárias, instrumentos musicais e rituais das religiões afro-brasileiras – integra a identidade da folia baiana, tendo sido reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial da Bahia, via Secretaria de Cultura do Estado (SecultBA), com decreto do governador Jaques Wagner. O decreto garante reconhecimento oficial e prioridade nas linhas de financiamento destinadas à preservação dessa manifestação cultural.
Foto: Lucia Correia Lima
