Cultura, gênero e mídia em debate no Mês da Mulher

17/03/2014

Grupo de pesquisa da UFBA lança livro e promove mesa redonda com representantes femininas da cultura baiana, em março, no Goethe Institut

No mês em que a mulher é o foco central de uma série de homenagens, protestos e discussões em várias partes do mundo sobre suas lutas históricas, conquistas, dificuldades e enfrentamentos na vida contemporânea, o grupo Miradas, vinculado ao Centro de Estudos Multidisciplinares em Cultura (Cult) e ao Programa Multidisciplinar de Pós-Graduação em Cultura e Sociedade da UFBA (Pós-Cultura), realiza em Salvador dois eventos em sintonia com essas reflexões: o lançamento do livro Miradas: Gênero, Cultura e Mídia, uma coletânea de artigos publicada pela editora Edufba, e a mesa redonda A Mulher e a Cultura, com depoimentos da diretora teatral, dançarina e coreógrafa Carmen Paternostro, da socióloga e pesquisadora Mary Castro e da diretora do Centro de Culturas Populares e Identitárias (CCPI), Arany Santana. A mediação do debate será feita pela professora Linda Rubim, coordenadora do grupo Miradas. A programação gratuita acontece no dia 19 de março, a partir das 19h, no Goethe-Institut (Corredor da Vitória). Professora da Escola de Dança da UFBA. Carmen Paternostro construiu uma trajetória artística de êxito no contexto das artes cênicas da Bahia, realizando montagens marcantes que se destacaram, sobretudo, pela valorização da plasticidade e da elaboração coreográfica. Nos anos 2000, seu trabalho deu especial atenção às identidades de gênero interceptadas com temas transversais como música, política e religião, o que pode ser percebido em espetáculos comoChiquinha GonzagaRainhas em XequeMulheres de HollandaO Evangelho segundo Maria. Este é o recorte do depoimento que Carmen dará em sua participação na mesa redonda A Mulher e a Cultura. Doutora em Sociologia pela University of Florida, pesquisadora do Centro de Estudos de Migrações Internacionais da Universidade Estadual de Campinas, professora da Universidade Católica do Salvador e coordenadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas de Juventudes, Identidade, Cidadania e Cultura, dentre outras atividades, a convidada Mary Castro é outro nome de peso na mesa redonda. Mary falará sobre a relação entre a mulher e a cultura com base na sua atuação nas áreas de sociologia, estudos culturais e demografia, que resultou em pesquisas vinculadas a temas como gênero, família, feminismo, juventude, migrações internacionais e cidadanias. Também participará do debate a gestora, professora, atriz e ex-secretária municipal da Reparação, Arany Santana, que atualmente dirige o CCPI, órgão ligado à Secretaria de Cultura do Estado da Bahia. Em sua participação no evento, ela falará sobre a cultura popular como espaço de expressão da mulher, em especial, das mulheres negras. Militante histórica do movimento negro na Bahia, Arany é um nome fundamental na memória sociocultural de Salvador, sobretudo por ter sido uma das fundadoras do bloco afro Ilê Aiyê, um dos patrimônios da cultura baiana, que este ano completa quatro décadas de existência. LIVRO – Logo após a realização da mesa redonda, o grupo Miradas lançará uma publicação que reúne vários artigos focados na interseção entre gênero, cultura e mídia, num conjunto de olhares múltiplos para a situação das mulheres em um mundo de preconceitos e desigualdades. Coordenado na UFBA pela professora Linda Rubim, o Miradas se consolidou no universo acadêmico a partir de um percurso comprometido com a tríade ensino, pesquisa e extensão. As atividades sistemáticas dos seus integrantes (pós-graduandos de mestrado e doutorado ligados, em sua maioria, ao Programa de Pós-Graduação em Cultura e Sociedade) têm uma abordagem multidisciplinar sobre as relações entre os três focos de abordagem do livro, essenciais para pensar e viver o mundo contemporâneo. De acordo com Linda Rubim, ao se inserir no ambiente acadêmico o Miradas passou a produzir reflexões sistemáticas à luz da multidisciplinaridade, documentadas nos artigos desta coletânea que dá ênfase à situação da mulher e a sua história de lutas para tornar-se sujeito da sua vida em um mundo de preconceitos. No artigo As Mulheres do 8 de Março, a pesquisadora Adriana Jacob parte da simbologia de uma data (o Dia Internacional da Mulher) para tratar da  representação do feminino pela mídia, apontando “os meios de comunicação e, em particular, a imprensa como campo privilegiado para o estudo das identidades”. Em O Lugar das Mulheres em Desmundo e Anjos do Sol, dois filmes do cinema brasileiro ambientados em tempos diversos (o primeiro em 1570 e o segundo em 2002), Denise Bastos analisa a presença do patriarcado como lugar incontestável de poder. Seu texto enfatiza como a desigualdade das relações de gênero se articula pela tradicional força simbólica dos personagens masculinos que impõe ao feminino o lugar da submissão. Em As Herdeiras do Colonialismo na América Latina, Carolina Guzmán foca a sua atenção em populações que estão às margens das sociedades latinas, a exemplo dos negros, dos índios e, sobretudo, das mulheres. Através de um olhar histórico, Guzman se debruça sobre os princípios de exclusão desses povos e busca, em particular, entender a origem da submissão da mulher, considerada pelas forças hegemônicas como destino. No texto A Mulher Idosa em Narrativas Fílmicas, de Ana Messias, o cinema aparece como mediador de uma discussão sobre o fenômeno conhecido como “a revolução da longevidade” e que traduz um dos grandes desafios da contemporaneidade: conviver com uma população de idade cada vez mais avançada em sociedades sem condições para atender as demandas deste grupo social. O teatro aparece no conteúdo de Artes e Gerações, de Marcos Uzel, que investiga a imagem pública da conhecida atriz baiana Nilda Spencer (1923-2008), buscando perceber as intersecções existentes entre cultura, gênero e geração no percurso de construção da imagem pública de uma das mulheres mais respeitadas no cenário artístico da Bahia. Em Feminismo e Pornografia: Distanciamentos e Aproximação Possíveis, Léa M. Santana aborda o tema do prazer associado a uma sexualidade sem amarras, comportamento que ainda hoje não se livrou do campo das transgressões. Conforme a coordenadora do Miradas, Linda Rubim, Léa investiga essa questão e suas contradições na perspectiva das teorias feministas, onde se revelam ricas discussões, sejam por aquelas correntes que enxergam na pornografia a personificação do patriarcado que submete e transforma a mulher em objeto, sejam pelos que se opõem a este modo de compreensão, considerando a necessidade de novas leituras a respeito da sexualidade da mulher. O trabalho Ecos do Patriarcado nas Eleições do Distrito Federal, de Fernanda Argolo, trata da inserção da mulher no campo político, um lugar tradicionalmente habitado pelo gênero masculino. No decorrer da sua reflexão, Fernanda discorre o percurso histórico desta participação e convoca conceitos e categorias, tais como patriarcado e capital político. Segundo Rubim, um dos momentos instigantes do texto é quando a autora traz como pauta de discussão a ainda frágil “política de presença”, ou seja, a participação das mulheres nas casas legislativas, defendida como a possibilidade de realização da efetiva defesa dos interesses femininos. Por fim, em As Mulheres das Paisagens Rurais, a pesquisadora Cláudia Cambruzzi analisa o papel das agricultoras no desenvolvimento, manutenção e transmissão do patrimônio cultural rural. Essas trabalhadoras de cotidiano doloroso pouco ou nada respondem pela organização e controle de propriedade no seu contexto de atuação. Este é um dos dados da realidade da mulher no universo agrícola constatados em mais um importante estudo de gênero inserido nesta coletânea. Vale ressaltar que o livro foi pensado como parte da coleção “Sala de Aula”, criada pela Edufba com o objetivo de estender o poder de alcance do conhecimento produzido nas salas de aula para além das fronteiras da UFBA. FICHA LivroMiradas: Gênero, Cultura e Mídia Autor: Grupo de Pesquisa Miradas (Cult/Pós Cultura/UFBA) Editora: Edufba Preço: R$25,00 Informaçõeswww.edufba.ufba.br SERVIÇO O que: Mesa Redonda A Mulher e a Cultura Debatedoras: Arany Santana, Carmen Paternostro e Mary Castro Mediadora: Linda Rubim Quando: 19 de março, às 19h Onde: Goethe Institut (Corredor da Vitória) Ingresso: entrada franca