IV Caravana Cultural da SecultBA visita Canudos e Monte Santo

29/05/2014

Município: Canudos
A quarta-feira da IV Caravana Cultural da SecultBA começa desbravando o sítio histórico e arqueológico do Parque Estadual de Canudos (PEC). Apesar da triste história do local, as suas belas locações também são fonte de reflexão e contemplação. "Uma história tão bonita não deve ser lembrada apenas como um palco de massacre, mas como um símbolo de luta social, de resistência da população sertaneja", coloca o prefeito de Canudos, Genário Alcântara. No ponto estratégico Alto da Favela, tendo como trilha sonora o artista local Bião de Canudos, a SecultBA conversou com Luis Paulo Neiva, coordenador do Parque e professor da Universidade Estadual da Bahia. "O Alto da Favela é um ponto estratégico pois aqui foi colocada a matadeira para atingir Canudos, daqui os canhões eram disparados devido à visão frontal do arraial conselheirista", explica Luiz Paulo.
Em Canudos, a Caravana visitou também o Memorial Antônio Conselheiro. O Memorial abriga duas exposições, com curadoria por Claude Santos. Uma delas, intitulada Imagens de Canudos, apresenta uma síntese do trabalho de alguns artistas que tiveram a Guerra de Canudos como fonte de inspiração para suas obras, sejam elas do Brasil ou do exterior e que buscaram, com seus trabalhos, resgatar a história do povo do Arraial de Canudos. A outra exposição, Euclydes da Cunha em Canudos, mostra o cotidiano de Euclydes da Cunha no palco da Guerra de Canudos, tendo como fonte seus escritos e desenhos. No auditório do Memorial, a equipe da SecultBA assistiu à Mostra Cultural, onde foi apresentado um trecho da emocionante peça Melelego, que retrata a Guerra de Canudos. A peça é dirigida por Carlos Carneiro da Cia Teatral de Canudos, grupo que faz parte do projeto social Canudos Desenvolvimento Sustentável Local. Fechando a manhã, o debate entre a população local e o Secretário de Cultura Albino Rubim discutiu a implementação do Sistema Nacional de Cultura, aprovado em 2012, e sua relação com o distribuição de recursos pela Secretaria. "A cultura precisa de mais recursos pois os recursos sempre serão insuficientes para a riqueza cultural e o tamanho que a Bahia tem. Conseguimos aumentar em 51% o orçamento da Secretaria no governo Wagner e em 2005, quando foi criado o Fundo de Cultura da Bahia, 75% dele era utilizado pelo próprio Estado, hoje o Fundo é utilizado somente pelas comunidades culturais. Isso nos levou a uma situação muito melhor, porém sabemos que não é ideal". Já em relação ao Sistema Nacional de Cultura, muitos benefícios serão obtidos, entre eles, a definição mais claras de responsabilidades no campo da cultura. "Hoje na cultura todos fazem tudo, não há uma separação clara das responsabilidades, o sistema vem para resolver isso também", e completa "Mas temos que brigar para que o fundo nacional de cultura seja ampliado ou o sistema não funcionará bem, devido à sua estrutura de repasse financeiro. Esta não é uma briga apenas dos gestores, precisa haver mobilização e organização da comunidade cultural". Também foi destacado o importante trabalho que a Universidade Estadual da Bahia tem feito por Canudos através do professor Luiz Paulo Neiva e outros representantes, trabalho reconhecido pelos gestores culturais e comunidade civil. "É impactante o trabalho que a UNEB está fazendo aqui. Muitas vezes a Universidade se fecha e a sabedoria que existe lá dentro não pode ser guardada para si. Este é um exemplo de como uma Universidade pode atua em prol do desenvolvimento cultural de uma cidade", diz Albino Rubim. Município: Monte Santo Na segunda parte do dia, a IV Caravana Cultural SecultBA Sertão Baiano seguiu viagem para o município de Monte Santo, famoso pelo turismo religioso. Do ponto de encontro no Centro de Lazer Amélia Andrade, a equipe visitou a Fundação Galdino Andrade Museu do Sertão, sediada numa casa construída em 1902 por Galdino Andrade, mais conhecido como Coronel Galdino, personagem de grande influência na época. O museu estava em estado de abandono e foi reformado em 1981, como explica Amélia Rodrigues, Diretora de Cultura do município e neta de Coronel Galdino: "A casa estava caindo as pedaços, fizemos um acordo com o então prefeito da época Antônio Cordeiro de Andrade, e a reforma aconteceu em 1981 para a abertura do museu, mas precisamos desenvolvê-lo. Queremos que aqui seja um museu apenas da Guerra de Canudos e abriríamos outro para o Sertão. Aqui em Monte Santo se concentra muita história, religiosidade e cultura da região. Monte Santo servia de passagem e ponto de parada durante a Guerra de Canudos." O acervo do museu conta com armas, fotografias, esculturas e pinturas, entre outros itens em sua maioria provenientes da Guerra de Canudos. Do museu, a Caravana seguiu para o Santuário da Santa Cruz de Monte Santo, patrimônio histórico e arquitetônico nacional e grande responsável pelo turismo religioso de Monte Santo. As escadarias íngremes de quase 4 km de comprimento são construídas em pedra e, ao longo do caminho, encontram-se 23 capelas que representam os quadros da Via Sacra de Cristo. Também foi realizada uma visita à antiga prefeitura, hoje em dia funcionando como uma Biblioteca Municipal. Nos tempos da Guerra de Canudos, o prédio servia de prisão para o Exército Brasileiro. A Mostra Cultural em Monte Santo buscou exibir as principais manifestações artísticas do município, começando pelo Teatro Popular Noite de Reis, demonstrando um fragmento da Paixão de Cristo. O forró também fez parte da mostra, com o trio de sanfoneiros composto por Emanuel do Artur, Bino e Joston. A terceira apresentação foi um Samba de Roda pela Comunidade Quilombola Laje do Antônio, que também apresentou seu Terno de Reis. Outro Terno de Reis foi encenado pelo grupo Renascer da Comunidade da Barra. Fechando as apresentações, o Teatro Popular Noite de Reis encenou a peça Narradores da Liberdade, dirigida por Ivan Santana, um espetáculo popular que fala do sentido da liberdade para cada um. No debate entre a população de Monte Santo e a equipe da SecultBA, foi colocado pela Comunidade Quilombola Laje de Antônio presente no local, a dificuldade da população rural ao se inscrever em editais de incentivo à cultura por falta de estruturas como conexão à Internet e a necessidade de trabalhar em conjunto com a Secretaria de Ciência e Tecnologia para que as pessoas da zona rural possuam as mesmas condições de concorrência com as da zona urbana. Mais uma vez o Fundo de Cultura ficou em pauta. Ao ano, mais de 1000 projetos são enviados à Secretaria e em 2013 396 projetos foram aprovados. No entanto, o orçamento ainda é insuficiente para a quantidade de inscrições que aumentam a cada ano, principalmente com as ações de territorialização da cultura, onde a quantidade de projetos de municípios do interior inscritos é cada vez maior. Outro assunto debatido foi a periodicidade de projetos; colocou-se a necessidade de implementar-se um calendário de fomento, uma agenda onde as pessoas já saibam quando os editais serão abertos para um melhor planejamento, o que já está sendo desenvolvido pela SecultBA.