31/03/2015
O projeto do roteirista Douglas Tourinho, patrocinado pelo Governo do Estado, através do Fundo de Cultura do Estado da Bahia, Secretaria da Fazenda e Secretaria de Cultura do Estado da Bahia, visa desenvolver um roteiro de ficção para longa-metragem inspirado num recorte do texto da escritora Patrícia Toledo sobre a história de Felipa de Souza, a mulher mais abertamente desafiadora do Santo Ofício durante a visita dos inquisidores à cidade de Salvador, Bahia, nos anos de 1591/1592. Por sua orientação sexual, homoerótica, Felipa foi julgada e severamente punida, açoitada em praça pública e condenada ao degredo. A previsão para a finalização do roteiro é para julho de 2015.
"Felipa de Souza" - O roteiro, que leva o mesmo nome da personagem, apresentará uma abordagem original sobre a Primeira Visitação do Santo Ofício (1591-95) ao Brasil. O foco principal não é, como em muitas obras baseadas nesse período de nossa história, sobre a caça dos inquisidores aos cristãos-novos que muitas vezes mantinham em segredo as tradições judaicas e as crenças de sua cultura. Essa abordagem explora o olhar para outros personagens perseguidos e punidos pelo visitador Heitor Furtado de Mendonça ao desembarcar na Bahia, em 1591, com a missão de ouvir as confissões da população e aplicar penas aos hereges. E ao conceito de heresia se inclui, nessa época, também diversos comportamentos morais e sexuais, associados, por razões variadas, ao que a inquisição concebia como erros de fé. Assim, foram penitenciados, além dos judaizantes, homens que questionavam a conotação de pecado na fornicação, sodomitas, bígamos, blasfemos, acusados de praticar feitiçarias e muitos outros.
O enredo do roteiro Felipa, baseado na obra literária de Patrícia Toledo, “Felipa de Souza” e adaptada para o cinema por Douglas Tourinho, inicia-se os preparativos para a chegada em Salvador, na Bahia, de Heitor Furtado de Mendonça e sua pequena comitiva, em 1591. A cidade entra em pânico. Todos sabem o que isso significa: o início da ação inquisitorial no Brasil. Após a publicação do Edital de Fé e o Monitório da Inquisição, os fiéis são convocados a confessar e delatar as culpas concernentes ao Santo Ofício, sob pena de excomunhão maior. Em várias dessas confissões, Felipa de Souza, uma costureira de 35 anos, é citada por sua conduta sexual homoerótica. Entre esses depoimentos, o mais contundente e revelador foi o de Paula de Siqueira, esposa do contador da fazenda do Governo, que narra com detalhes o caso de amor que viveu com a acusada. A partir desses depoimentos, Felipa é presa e submetida a uma série de interrogatórios.
O início da nossa história é quando o jovem sacerdote Pedro Martins é designado pelas autoridades eclesiásticas da Bahia para arrancar da costureira Felipa de Souza a sua confissão. Sem saber o real motivo de sua prisão, e simpatizando com a aparente ingenuidade do padre, ela narra sua história de vida – a chegada com os pais à Bahia ainda criança; o casamento arranjado, aos 16 anos, com Francisco, um pedreiro, 20 anos mais velho; a amizade com Elise, uma mulher encantadora bem a frente de seu tempo, e o início do romance entre as duas que só tem fim quando Elise volta para a França, sua terra natal; o reencontro com a escrava Quitéria, ex-vizinha de sua infância, e a retomada da amizade com conotações sensuais e, por fim, o tumultuado romance com a ardilosa Paula de Siqueira que acaba sendo uma das suas delatoras, diante do Santo Ofício. Sensibilizado e estranhamente atraído pela personalidade de Felipa, que narra com franqueza e sem nenhum resquício de culpa ou arrependimento as suas relações amorosas, o padre Pedro Martins, apesar da perturbação que isso provoca em seu espírito cristão, esquece o papel designado a ele de algoz, se enternece pela história de Felipa e luta por sua causa a ponto de comprometer a sua relação com a igreja ao largar a batina e partir em busca de Elise para cumprir uma promessa feita a Felipa, depois de ela ser condenada.
O roteiro narra os preparativos de Felipa para enfrentar o tribunal da Inquisição. Mas depois de perder o apoio do Padre Pedro, afastado do caso, a costureira é entregue à própria sorte. Diante do Santo Ofício, Felipa assume as suas preferências sexuais e diz que, apesar de duas vezes casada, adora mulheres e sempre procura por elas, movida “pelo grande amor e feição carnal que sente quando as vê”. Heitor Furtado de Mendonça assina a sentença e condena Felipa a receber açoites em praça pública, diante da Igreja da Sé, segurando uma vela acesa, e caminhar pelas ruas de Salvador, com as mãos amarradas por corda, sob os insultos da população. Condenada também ao degredo perpétuo, Felipa é deportada para local desconhecido.
Com os recursos e a liberdade da ficção aliados à pesquisa histórica, a intenção é reescrever para o cinema, a trajetória de Felipa de Souza, que faz parte de uma galeria de personagens, ausente dos livros oficiais de história e, no entanto, é fundamental para entendermos a formação da sociedade brasileira.
Douglas Tourinho - Baiano de Jequié e morando em Salvador há nove anos, é formado em Cinema e Jornalismo pela Universidade Federal Fluminense (1985); estudou teatro no Tablado e na Escola Martins Penna. Fez parte da equipe de autores /roteiristas da novela “Lado a Lado”, de Claudia Lage e João Ximenes Braga, com supervisão do novelista Gilberto Braga (TV Globo 2012/2013) – Vencedora do EMMY INTERNACIONAL 2013 na categoria “Melhor Telenovela” (Nova York / 2013). Escreveu o roteiro do longa-metragem “Mulheres do Brasil” (em parceria com Melanie Dimantas), direção de Malu de Martino e produção de Elisa Tolomelli. Colaborou nos roteiros dos filmes “Cazuza - O Tempo Não Pára”, de Sandra Werneck e Walter Carvalho; “Amores Possíveis”, de Sandra Werneck e “Manobra Radical”, de Elisa Tolomelli. Foi um dos roteiristas de “Como Esquecer” de Malu de Martino e produção de Elisa Tolomelli. Para o teatro, escreveu os musicais: “Dolores” (em parceria com Fátima Valença), direção de Antonio de Bonis – CCBB / Teatro Carlos Gomes/ Teatro João Caetano/ Teatro das Artes (RJ) e TBC-SP (1999 / 2000); “Elis – estrela do Brasil” (parceria com Fátima Valença) , com direção de Diogo Vilela – 2002 (CCBB RJ/CCBB SP/ Scala RJ); “Grande Othelo – Êta Moleque Bamba”, com direção de André Paes Leme – 2004/2006; “Rodriguenas” (adaptação de textos de Nelson Rodrigues, 1989/90). Escreveu em parceria com Fátima Valença o musical infanto-juvenil “Den-Bau” , direção de Agnes Moço e Marcelo Morato (Teatro Villa-Lobos/2000). Em parceria com Antonio de Bonis fez o roteiro de “O Bem do Mar”, espetáculo com músicas de Dorival Caymmi, direção musical de Leandro Braga, Wagner Tiso e Ricardo Rente. Em 2002 dirigiu e roteirizou o show “Gonzagão – 90 Anos” (Sarau Agência Cultural/ RJ). Fez roteiros e direção artística do projeto “Festa de Arromba – os 40 anos da Jovem Guarda” (Tema Eventos Culturais/2005) com direção musical e arranjos de José Lourenço e shows com Erasmo Carlos, Wanderléa, Golden Boys, Jerry Adriani, Vanusa, Wanderley Cardoso e Martinha. Direção musical e arranjos de José Lourenço (CCBB/RJ, CCBB/SP e CCBB/DF – julho a setembro de 2005).