Secretário de Cultura Jorge Portugal recebe a Comenda Marquês de Abrantes em Santo Amaro

15/06/2015

[caption id="attachment_62938" align="aligncenter" width="448" caption="Foto: Prefeitura de Santo Amaro"][/caption] Neste domingo (14), o movimento na cidade de Santo Amaro teve um ar patriótico com hasteamento de bandeira e desfile cívico pelas ruas do município, em comemoração ao 14 de junho, Data Magna da cidade. O ato é tradicional e lembra a importância da data como o início do movimento pela Independência do Brasil. Na ocasião o secretário estadual de Cultura, Jorge Portugal, recebeu a Comenda Marquês de Abrantes, na Câmara de Vereadores. Confira abaixo o discurso de Jorge Portugal: 14 DE JUNHO/ SANTO AMARO- TERRA DE AUDACIOSOS “Santo Amaro quero dar-te/ no calor da louvação...” Talvez seja esta a terceira vez em que assomo a esta tribuna no dia 14 de junho para falar ao meu povo de Santo Amaro. Sempre que aqui venho, não gosto de deixar apenas palavras vazias que o vento varre depois para o esquecimento. Lembro-me de que na última vez em que aqui falei, estávamos em pleno calor da luta para termos em nossa cidade um campus da UFRB. Ora, como houvera sido Santo Amaro a primeira cidade a reclamar, na ata de vereação de junho de 1822 justamente uma universidade para o país, e a UFRB, recém fundada, havia se instalado aqui, propus, de maneira audaciosa, que não mais comemorássemos o 14 de Junho, enquanto não tivéssemos honrado a memória dos nossos ilustres antepassados, em seu pleito, há mais de um século. Bem, o 14 de junho continuou a ser comemorado, mas a UFRB finalmente veio, não sem muita luta e mobilização. Hoje estou de volta. E na especial e transitória condição de Secretário de Cultura do Estado da Bahia. Talvez o primeiro santamarense a chegar a lugar tão distinto. O primeiro negro, com certeza! E é com essa dupla responsabilidade que hoje falo para vocês sobre fatos históricos que nos certificam como uma terra de audaciosos, de pessoas ousadas, de vanguardistas incomparáveis. O primeiro fato é o tema central da noite, e resumo a história tão bem sabida por vocês, mas um pouco desconhecida para os que nos visitam nesta noite: Na campanha pela Independência do BrasilVila de Nossa Senhora da Purificação e Santo Amaro teve um papel estratégico ao realizar em 14 de junho de 1822 uma sessão de sua Câmara de Vereadores na qual  foi aprovada, entre outras propostas,  a implantação de "um centro único de Poder Executivo no Brasil, a ser exercido pelo Príncipe Regente, segundo as regras prescritas em uma liberal Constituição". A Câmara de Santo Amaro respondia assim a uma carta consulta enviada de Lisboa pelos deputados constituintes baianos que lá estavam para elaborar a nova Constituição Portuguesa, após a Revolução do Porto, ocorrida no ano anterior.  Na mesma sessão a Câmara apoiou outras propostas como a criação de um Exército formado exclusivamente por brasileiros e de uma Armada Naval, para a defesa do Brasil; a criação de um Tesouro Nacional e de um Tribunal Supremo de Justiça; a liberdade de comércio,  a criação da uma universidade e a prática da liberdade religiosa. Este episódio foi relatado pelo maior historiador baiano LUIZ HENRIQUE DIAS TAVARES, em seu livro clássico a "A Independência do Brasil na Bahia". Ele descreve o ocorrido na Vila de Santo Amaro da Purificação em 14 de Junho de 1822:

Essas medidas iam na contramão do que desejava Portugal e desafiava frontalmente o Comandante das Armas Portuguesas na Bahia, General Madeira de Melo. Ele já dominava Salvador, onde dois dias antes ocupou militarmente as ruas para impedir que a Câmara se reunisse para aclamar Dom Pedro de Alcântara como "Defensor Perpétuo do Brasil”. Com a decisão, Santo Amaro entrou em rota de colisão com os interesses portugueses e embora não tivesse aclamado Dom Pedro nem pregasse a independência, a decisão abria caminho para outras vilas se pronunciarem a respeito. Em síntese: antes mesmo do “Independência ou Morte”, de D.PedroI, na prática, Santo Amaro já bradava pela independência do país 4 meses antes! Foi um gesto de audácia, uma atitude de franca ousadia política! Bom, isso foi em 1822. Antes, porém, ainda em 1798, quatro negros e mestiços baianos, usando pulseira de búzio e argola na orelha já haviam tentado levantar o povo contra o jugo português e libertar o Brasil de Portugal, transformando nosso país em uma república e abolindo, de vez, a escravidão. Vejam que ideário avançado para a época! Todos conhecem essa rebelião por muitos nomes: Revolta dos Búzios, Conjuração Baiana, Sedição de 1798, Revolução dos Alfaiates. Eram quatro os seus líderes, que tiveram o destino da forca, na praça da Piedade: Lucas Dantas, Luiz Gonzaga da Virgens, João de Deus e Manuel Faustino dos Santos Lira, santamarense, então um rapaz de 22 anos, o mais jovem de todos, com um poder de oratória impressionante e radical na sua paixão libertária.Mais uma vez, estava lá Santo Amaro, escrevendo a História do Brasil, com a marca definitiva da audácia, da coragem e da ousadia cívica. Último fato, para ficarmos aqui por hoje: 1889, um ano depois de abolida a escravidão, ainda era enorme o poder de fogo das instituições seculares que sempre mandaram no Brasil: a aristocracia rural e a Igreja Católica, principalmente. Pois bem, com o intuito de comemorar a liberdade conseguida um ano antes, no dia 13 de Maio, o ex-escravizado e agora cidadão livre João Obá, convocou mães e filhas de santo, alabês para baterem um candomblé em praça pública, no largo do Xaréu, evento logo denominado de Bembé. Claro que tomou a cautela de chamar também o povo da Capoeira, que fazia, ao mesmo tempo, a roda e a segurança, contra a bem provável repressão da polícia. Fizeram o Bembé durante 3 dias e, de lá para cá, só duas vezes deixaram de bater.E a cidade pagou caro por isso! João Obá: audacioso, valente ancestral! Contados os fatos, Sr. Presidente, provamos que a ousadia e a audácia está no DNA da nossa gente.E nós, os herdeiros desse legado, temos a obrigação de não o deixar morrer, de transmiti-lo às gerações seguintes. Essa herança muito explica outros vultos brilhantes, de outrora e da contemporaneidade, no campo da arte ou da ciência, que deixam outras cidades do Brasil literalmente boquiabertas ante a explosão de tantos talentos num só lugar. Explica Assis Valente, Teodoro Sampaio, as Tias que levaram o samba para o Rio de Janeiro, explica Emanuel Araújo, Dr, José Silveira, Padre Gaspar Sadoc, o sociólogo Guerreiro Ramos, explica Clóvis Amorim, Caetano Veloso, Maria Bethânia,Frank Romão, Mano Décio da Viola, Roberto Mendes e essa turma nova e brilhante que continua nossa narrativa. Portanto, Sr. Presidente, precisamos sempre estar à altura do monumento cultural que é Santo Amaro: amar esta cidade, zelar por ela, respeitar nossos artistas e geniais criadores e, sempre que for necessário, “mandar os malditos embora”. Hoje, falo desta tribuna como o mais humilde dos seus filhos. Todavia, como sou portador do legado dos que escreveram a ata de vereação do 14 de junho de 1822, do legado libertário de Manuel Faustino dos Santos Lira, e do legado de João Obá, sinto-me crescer enormemente e até aceito ser chamado Secretário de Cultura, dessa cultura que é meu sangue, minha inspiração e minha vida. Por tudo isso... “Santo Amaro quero dar-te/no calor da louvação/todo encanto de minh’arte... Jorge Portugal