A história de Marquês de Sade ganha versão teatral

24/08/2015
As histórias do célebre escritor libertino francês chegam aos palcos baianos na montagem Sade, assinada pelo dramaturgo e encenador Gil Vicente Tavares, com estreia para o dia 03 de setembro e temporada de quinta a sábado, às 20h, no Teatro ICBA (Av. Sete de Setembro – Vitória). O mais novo espetáculo do grupo Teatro NU conta com realização da Maré Produções Culturais e patrocínio do Fundo de Cultura da Bahia. O aristocrata cujo nome deu origem ao termo sadismo será encarnado pelo premiado ator Carlos Betão, que dividirá o palco ao lado dos também premiados atores Marcelo Praddo e Wanderley Meira, todos vencedores do Prêmio Braskem de Teatro, além das atrizes Fafá Menezes e Márcia Andrade. Fruto da pesquisa no mestrado, feita por Gil Vicente Tavares sobre os fatos e passagens memoráveis de sua vida, a peça se configura como uma grande fantasia autobiográfica do marquês, recheada de discussões sobre política, erotismo, moral cristã e  bons costumes. A peça ganhou o Prêmio Fapex de Teatro, em 2010, e foi publicada pela EDUFBA, junto a mais duas obras. Sade celebra a parceria bem sucedida do Teatro NU com a produtora cultural Fernanda Bezerra, diretora da Maré Produções, com quem já realizou as montagens Os javalis,Sargento GetúlioQuartetoCaymmi – Da Rádio para o Mundo e agora Sade. Teatro NU e Maré estabelecem uma relação de construção em que a produção integra o próprio grupo, fortalecendo as condições de produção da obra. Neste trabalho, produção e encenador optaram por promover uma ação de formação de plateia, empregando um valor de ingresso popular R$20,00 (inteira) e R$10,000 (meia entrada), a fim de estimular que o público de Salvador frequente o teatro. O Espetáculo – Para encarnar os vários personagens que aparecem na história, os atores se desdobram num constante jogo de trocas e metalinguagem. Todos são parte das fantasias de Sade, cuja escrita cruzou as fronteiras daquilo que se evita falar: a sexualidade não-convencional, a violência, a loucura, a homossexualidade, a cultura do estupro, além de diversos questionamentos políticos sobre o período histórico conturbado que Sade viveu. Por tratar de temas que acabaram por incomodar a sociedade de sua época, Sade foi preso diversas vezes, até, ao final da vida, ser conduzido a um manicômio, onde passou os últimos dias de sua vida, entre encenações com os detentos e uma saúde fragilizada. Na encenação, o cenário busca essa atmosfera de sala de tortura e de sanatório, hospital, tentando metaforizar esses ambientes frios, de sofrimento, dor, trazendo referências à ditadura militar, à inquisição, a uma sala de tratamento de loucos, com seus choques elétricos, injeções, amarras. Mais do simplesmente revelar a vida de um personagem célebre da história e da literatura, a peça Sade vai tocar em temas ainda atuais como o poder, a decadência e a própria sexualidade, que extrapola os convencionalismos. A cenografia é assinada por Eduardo Tudella, reafirmando a longa parceria com o diretor. O figurino, assinado por Rino Carvalho, emprega renda e couro, explorando dois materiais amplamente usados no mercado erótico e na alta costura, referências que ao mesmo tempo evocam a época em que Sade viveu e figurinos de moda e de lojas de sexo. A maquiagem proposta por Anna Oliveira agrega glamour e uma atmosfera de capa de Revista, esse palco contemporâneo das vaidades. O texto de Gil Vicente Tavares, que também assina a direção musical do espetáculo, explora os recursos da palavra, tal qual é empregada na obra de Marquês de Sade, que sempre se ampara nas possibilidades de alterar uma cena e um contexto pelo jogo com os termos. Mais do que contar a história de um homem, a montagem pretende provocar reflexões sobre as relações humanas, seus jogos de poder e sexualidade. Serviço Temporada de Estreia do Espetáculo Sade De 03 de setembro a 10 de outubro. Onde: Teatro ICBA Ingressos: R$ 10,00 (meia)/R$ 20,00 (inteira). Sobre Teatro NU - O Teatro NU pretende ser, para além de um grupo que pesquisa no palco a linguagem teatral, um ambiente de discussão sobre dramaturgia, cultura e sociedade. Concentrando-se no trabalho do ator e na sua relação com o texto, o Teatro NU privilegia a nova dramaturgia baiana e mundial, sem, no entanto deixar de dialogar com os clássicos que, como o nome diz, são eternos. No palco, estreou com Os amantes II, texto de Gil Vicente Tavares que, juntamente com Os javalis, havia tido relativo êxito em Roma, aonde Gil havia ido assistir às leituras de ambas as peças. A segunda montagem do grupo foi justamente do segundo texto lido na Itália. Os javalis estreou em 2008, mas não parou por aí. Em 2009, encerrou o Festival de Teatro Brasileiro em Fortaleza e em 2010 viajou por Itabuna, Camacã e Camaçari. 2009 foi também o primeiro ano do Teatro NU Cinema, projeto que contou com a montagem de três peças curtas de Anton Tchekhov numa sala de cinema da cidade, antes das sessões de filmes, formando uma plateia que, em pesquisa feita, em sua maioria nunca havia ido ao teatro; e mostrando outras possibilidades de arte na cidade de Salvador. Paralelo a isso, o blog do Teatro NU passou a ser um ambiente de discussão que vem mantendo, ainda hoje, um diálogo constante com a classe teatral e os curiosos da cultura e da arte baiana. Quase que como uma extensão do blog, o Teatro NU realizou eventos em torno da história do teatro na Bahia e em torno da dramaturgia. Memórias do Teatro na Bahia colocou em foco alguns dos principais atores, do palco e da sociedade, da primeira geração de profissionais do teatro em Salvador. Primeiramente num evento de um dia, com Letizia Russo, e, no ano seguinte, com a presença dos dramaturgos Darío Facal, da Espanha, e Ramón Griffero, do Chile, o evento Diálogos Sobre Dramaturgia Contemporânea pretende ser um espaço onde o texto e os autores são o centro das atenções. Em 2011, aconteceu a segunda edição do Teatro NU Cinema, dedicado à dramaturgia baiana, com autores selecionados através de um edital. Também o grupo montou duas peças curtas que cumpriram temporada no verão, no mesmo formato antecedendo sessões de filmes. Convidados a abrir o projeto Domingo no TCA, do Teatro Castro Alves, com as peças curtas de Tchekhov, e devido ao sucesso para mais de seis mil pessoas, surgiu a ideia de juntar duas delas e criarmos o espetáculo Dos males dos casamentos: Tchekhov em dois tempos. Em agosto do mesmo ano, o Teatro NU estreou seu primeiro monólogo, fazendo a abertura do Festival Bahia em Cena. Sargento Getúlio, a partir da obra homônima de João Ubaldo Ribeiro. O espetáculo vem tendo uma bela carreira, tendo sido agraciado com o Prêmio Braskem de Teatro nas categorias melhor espetáculo e melhor ator. Além disso, o espetáculo esteve presente em festivais internacionais como o Porto Alegre em Cena e o Janeiro de Grandes Espetáculos, e em 2014 o espetáculo rodou o país por quase 50 cidades, com o projeto Palco Giratório, do SESC, além do edital de circulação da Funarte e através da Caixa Cultural. Após dois anos dedicados a Sargento Getúlio, com festivais e circulações, o Teatro NU resolveu comemorar os 15 anos de carreira de seu diretor artístico, convidando o ator Bertrand Duarte – fora do palco a quase 30 anos – para dividir o palco com Marcelo Praddo no espetáculo Quarteto, de Heiner Müller, que havia sido a peça de formatura de Gil Vicente Tavares e foi montada noutra perspectiva, 15 anos depois. Nem bem estreou no ICBA, numa temporada em maio, e o espetáculo foi selecionado para a mostra oficial do Porto Alegre em Cena assim como o Festival Latino Americano de Teatro, que acontece em Salvador, e, mais recentemente, o Cena Contemporânea, festival internacional de Brasília. Ainda em 2014, o Teatro NU experimentou seu primeiro musical de bolso, numa homenagem ao centenário do grande compositor baiano, com Caymmi: do rádio para o mundo. Sobre o Diretor Gil Vicente Tavares – Professor adjunto da Escola de Teatro, Doutor em Artes Cênicas e compositor. Com 16 anos de carreira nos palcos baianos, Gil Vicente Tavares ainda se considera um debutante na cena das artes cênicas da Bahia. Apesar disso, o encenador, tem uma marca de produção invejável dentro do cenário baiano, onde ano a ano são formados diretores teatrais, muitas vezes considerados revelação dada criatividade e inventividade, mas que não conseguem se manter no mercado. Além de dirigir as montagens do Teatro NU (citadas acima), Gil Vicente também é um dramaturgo requisitado, assinando textos como Canto Seco, recentemente encenado por Rino Carvalho, no Tetro Gamboa, e Alugo minha língua, com direção de Fernando Guerreiro, que dirigiu, também, Vixe Maria, Deus e o Diabo na Bahia, que Gil escreveu com mais dois dramaturgos. Gil também foi um dos roteiristas do filme Cidade baixa, de Sérgio Machado. Gil está desde 2006 à frente do Teatro NU, grupo de teatro que pesquisa no palco a linguagem teatral, um ambiente de discussão sobre dramaturgia, cultura e sociedade. Concentrando-se no trabalho do ator e na sua relação com o texto, o Teatro NU privilegia a nova dramaturgia baiana e mundial, sem que, no entanto, deixar de dialogar com os clássicos que, como o nome diz, são eternos. Com Marcelo Praddo e Carlos Betão, atores do grupo, e outros profissionais convidados, o diretor explora o trabalho do ator, sem perder de vista a atenção à dramaturgia e a encenação teatral despida de adornos. Além de artista, Gil se destaca como um crítico cultural e compartilha seu olhar inquieto sobre a cidade no site do grupo (http://www.teatronu.com.br), convocando outros pensadores baianos a refletir sobre a cultura, arte e política em Salvador. Engrossam o coro das provocações Ordep Serra, Claudio Marques, Márcio Campos e James Martins.