No tabuleiro da Baiana tem empreendedorismo

05/04/2016
Bahia Criativa
Foto: Rosilda Cruz

Com o objetivo de identificar e buscar alternativas no enquadramento de projetos junto aos mecanismos de financiamento e leis de incentivo à cultura, membros da Associação de Baianas de Acarajés, Mingaus, Receptivos e Similares (ABAM) participaram de uma oficina sobre Enquadramento de Projetos Culturais. Realizado pelo Escritório Bahia Criativa - fruto de um convênio firmado entre o Ministério da Cultura e o Governo da Bahia, gerido pela Secretaria de Cultura do Estado (SecultBA) - o encontro aconteceu nesta terça (05), na sede do Conselho Municipal da Comunidade Negra, em Salvador.

Para dar as boas vindas, o secretário de Cultura do Estado, Jorge Portugal, reforçou a importância da iguaria que é cartão postal da Bahia e que hoje conta com 3500 vendedores só em Salvador, sendo cerca de 600 licenciados. "Tenho falado fortemente sobre o conceito de economia da cultura por onde passo. A cultura é nossa maior riqueza e essa riqueza gera receita. Nós baianos temos com o acarajé um compromisso cultural, religioso, mas que também é um motor da economia. Esta ação de capacitação do Bahia Criativa faz com que o conhecimento e o recurso cheguem na ponta, que é a cultura popular, cumprindo assim sua função mais democrática", pontuou.

Estiveram presentes também a diretora do Centro de Culturas Populares e Identitárias (CCPI), Arany Santana e o superintendente de Promoção Cultural da SecultBA, Alexandre Simões. O curso foi ministrado pela administradora e pós-graduada em Gestão de Projetos pelo The Institute of Commercial Management (UK), Flávia Paixão.

A coordenadora nacional da ABAM, Rita Santos, comemorou a iniciativa, que é realizada em parceira com o CCPI, unidade vinculada à SecultBA: "Antigamente, baiana era mulher que não sabia fazer nada, aí ia vender acarajé. Hoje todos que estão aqui representam conselhos, grupos, atuam em diversas frentes. São mulheres empoderadas. Antes os bancos não queriam saber de nós, agora nos ligam. Vamos hoje aprender a fazer projetos o que nos tornará mais independentes".

Rita também enfatizou o desejo de resgatar outros quitutes que já foram vendidos nos tabuleiros das baianas, como a moda e o bolo de folha, mas que atualmente são cada vez mais difíceis de serem encontrados. O ofício da Baiana de Acarajé foi oficialmente reconhecido como Patrimônio Cultural do Brasil em 2005, pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). Em 2012, foi registrado em âmbito estadual, pelo Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (IPAC) e em setembro de 2015, foi empossado o Conselho Gestor da Salvaguarda do Ofício de Baiana de Acarajé, que tem entre os representantes o IPAC e o Centro de Culturas Populares e Identitárias (CCPI) da SecultBA.

Muitas gerações de baianas

Mãe, baiana de acarajé desde os nove anos de idade e coordenadora estadual da ABAM já em sua segunda gestão, Angelice Batista dos Santos marcou presença na oficina "para ampliar ainda mais o conhecimento, pois agora, além do ofício, tenho responsabilidades de coordenadora da associação".

Para ela, que vende acarajé no Jardim de Alah, o ofício é hereditário: "Minha bisavó era mulher de tabuleiro, vendia fato; minha avó herdou o tabuleiro, vendia frutas; já minha mãe seguiu nesse comércio só que vendendo acarajé, o que possibilitou criar seus cinco filhos, que também vendem acarajé, além de netos e bisnetos que se dedicam a isso. É um repasse de saber, que já está na quinta geração. Meu único filho já trabalhou vendendo acarajé, hoje continua me ajudando, mas faz faculdade de fisioterapia".

Apesar de famosas e reconhecidamente importantes para a cultura e a economia, as baianas de acarajé enfrentam ainda muitos desafios, um deles foi convencer a Fifa a franquear a elas o acesso ao interior do estádio Fonte Nova, durante a Copa das Confederações (com êxito), até a luta contra a proibição da venda da iguaria nas areias das praias da cidade e a convivência com os food trucks. Mas parece nada faz a massa desandar, pelo contrário, o dendê é o ingrediente que torna cada vez mais saborosa a empreitada. "Esse curso vai ajudar em mais um desafio, que é buscar os caminhos certos para fortalecer ainda mais o nosso ofício", reforça Angelice.