12/04/2016

Foto: Rosilda Cruz
Cinco integrantes do Conselho Estadual de Cultura participaram, na última segunda-feira, 11, do Circuito Cultura Viva, projeto idealizado pela Secretaria da Cidadania e da Diversidade Cultural (SCDC), órgão ligado ao Ministério da Cultura (MinC). O evento, realizado no Espaço Xisto, nos Barris, em Salvador, marcou o início da construção do Encontro Nacional dos Pontos de Cultura (TEIA), que está previsto para acontecer, em novembro, na capital baiana.
Como representantes da sociedade civil no Conselho Estadual de Cultura, estiveram presentes os conselheiros Jorge Baptista Carrano, Fernando Teixeira e a conselheira Ana Vaneska. Já as conselheiras de cultura Arany Santana e Cristiane Taquari marcaram presença como agentes culturais e integrantes do Centro de Culturas Populares e identitárias (CCPI).
A noite foi de intenso processo de diálogo com membros do pontos de cultura, produtores, artistas e demais agentes culturais. “O tema principal foi a Cultura Popular. A Cultura Viva é Cultura Popular, e a Teia do mesmo modo. E é muito importante que um encontro deste tipo seja realizado na Bahia, aonde temos manifestações culturais populares muito diversas, e tão diversas que provocaram na Secretaria Estadual de Cultura (Secult) a necessidade de dividir o estado em 27 territórios de identidade para operar a política considerando a riqueza existente. Temos, a exemplo, o Vaqueiro, no Sertão, e, a Boa Morte, em Cachoeira, o hip-hop nos guetos. Vivemos, infelizmente, em um momento conservador e marcado por atitudes fascistas que tentam suprimir a diversidade, essas diferença”, afirmou a conselheira Ana Vaneska.
Ana reforçou a importância de espaços como a Teia para avançar na discussão sobre construção de ferramentas de combate a processos de intolerância religiosa que tem se repetido no Brasil e, com muita frequência, na Bahia. A conselheira lamentou o fato de ainda ser cultivado um lamentável processo de demonização de práticas da cultura popular negra, como o Candomblé, a Capoeira , o Samba de Roda.
“O povo de terreiro tem sido alvo de perseguições e desrespeito por conta das suas tradições religiosas. As práticas coletivas e saberes existentes numa comunidade tradicional são Cultura Popular e patrimônio cultural, assim como também o é, o ofício da baiana do acarajé”, reforçou.
A conselheira lembrou o fato de o acarajé ter sido utilizado, inclusive, como nome de uma operação da Polícia Federal que investigava desvios de dinheiro. "O acarajé é o alimento sagrado de Iansã, não pode denominar uma prática de corrupção dentro do Estado, e a ela ser comparado. Abordar essas questões em um evento como esse, na atual conjuntura do país, nos fortalece para lutar contra a violência propagada na cena atual, e que tem uma incidência grande tanto na cultura africana quanto na cultura indígena. É uma temática, inclusive, que nos leva a questões como o genocídio da juventude negra e dos povos indígenas, parcelas da população que, historicamente, têm sido negligenciadas e tem tido seus direitos violados”, completou.
TRANSVERSALIDADE – Quem também aproveitou o evento para alertar sobre importantes debates culturais foi o conselheiro de cultura Jorge Baptista Carrano. Ele alertou para a atual crise financeira e política do país, e como esse impacto é ainda mais forte no orçamento destinado às pastas da Cultura. “É preciso garantir a estrutura suficiente recurso para que a cultura popular possa acontecer de verdade”, afirmou o poeta.
Assim como Ana Vaneska, o conselheiro Jorge Baptista Carrano faz parte de um grupo de trabalho criado pelo Conselho Estadual de Cultura para buscar alternativas de intermediação entre as demandas da sociedade civil e os órgãos ligados à gestão cultural. O foco é o atual momento de crise. (Clique aqui e saiba mais a respeito do grupo de trabalho)
Carrano defendeu que os órgãos ligados à pasta da Cultura comecem a enxergar a cultura de modo transversal a partir da cultura popular da Bahia e dos Colegiados Setoriais das Artes. Essas sãos instância de saber que, segundo o conselheiro, serão cruciais para facilitar o acesso dos agentes culturais às políticas públicas com linguagem mais acessível e inclusiva. “É preciso mudar a linguagem tecnicista dos editais para que os agentes da cultura popular possam, de fato, ter acesso a estes instrumentos de fomento”, finalizou.
O Circuito Cultura Viva segue nesta quarta-feira, 12, com um bate-papo com midialivristas. O evento terá início às 18 horas, no Instituto Mídia Étnica, localizado na Rua Areal de Baixo, 06, Dois de Julho.