Pescadores e marisqueiras mantêm tradição das cheganças no Recôncavo baiano

04/08/2016
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Foto: Rosilda Cruz

A cidade de Saubara, no Recôncavo baiano, é um polo atrativo de manifestações culturais conhecidas como cheganças ou marujadas, que recontam, por meio de danças e cânticos, histórias diversificadas a respeito de acontecimentos dentro e fora do Brasil. À frente dessas manifestações populares no município costumam estar pescadores e marisqueiras que, quando se apresentam, atraem centenas de moradores e visitantes de outras cidades.

Existem cheganças em várias cidades do Estado. Porém, Saubara se destaca por sediar, desde 2013, o Encontro de Cheganças da Bahia. O evento reúne grupos culturais de diversos municípios, todos dedicados a performances baseadas em textos que exploram desde romances a atos heróicos marcantes na história da humanidade. Outro aspecto positivo é a celebração servir como troca de saberes entre agentes culturais, como explica Nilo Trindade, conselheiro do Conselho Estadual de Cultura da Bahia.

“No primeiro dia do Encontro de Cheganças, acontecem palestras e diálogos com mestres do saber popular da região. Já no segundo dia, as cheganças saem pelas ruas e, ao terminarem o desfile, se apresentam em um palco montado especialmente para a data”, explica Trindade.

Uma peculiaridade das cheganças é a relação com um instrumento típico das manifestações populares da Bahia: o pandeiro. Ele serve de ferramenta básica à sonoridade que dita o ritmo das encenações. Em batidas lentas ou aceleradas, é com esse apoio musical que os textos são recitados de modo harmônico.

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Foto: Rosilda Cruz

DESTAQUES – Duas marujadas de Saubara se destacam pela tradição e longevidade: a Chegança de Mouros Barca Nova e a Chegança dos Marujos Fragata Brasileira. Com relatos de mais de 100 anos de existência, a primeira delas é o grupo mais antigo da cidade e reconta a invasão acidental da marinha de Portugal nas águas da Turquia, além da tentativa dos portugueses de converterem os mouros (como eram conhecidos os muçulmanos do norte da África, onde a Turquia se localiza) ao cristianismo, uma vez que eram considerados pagãos.

Já a Chegança dos Marujos Fragata Brasileira possui esse nome em homenagem à Marinha. É um grupo que reconstrói, em seus cânticos, as lutas acontecidas no mar, em especial a que levou à independência da Bahia, em 1823, celebrada anualmente no 2 de Julho.

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Foto: Rosilda Cruz

MULHERES – As cheganças de Saubara se destacam ainda pela participação das mulheres, que conseguiram representatividade em uma tradição marcada pela presença masculina. Em 1991, mulheres da região decidiram criar o grupo Chegança de Mouros Feminina.

A iniciativa é considerada um avanço pelo agente cultural Rosildo do Rosário. Ele é mestre na Chegança dos Marujos Fragata Brasileira, título que garante sua presença à frente da manifestação durante as apresentações. Rosário explica que, por conta da influência militar ligada à formação das marujadas, a presença das mulheres foi vetada durante muito tempo.

O conselheiro de cultura Nilo Trindade assinala que a inserção das mulheres é um marco importante na tradição. “São mulheres guerreiras que saem para mariscar e ainda cuidam com todo o amor dos seus filhos e da casa. Me emociona vê-las se apresentando”, comenta.


FUNÇÕES – Seja chegança masculina ou feminina, cada integrante possui função diferente. Podem ser: piloto, mestre, contra-mestre, comandante, calafate, dentre outros postos.

Uma curiosidade é a presença do calafate, tripulante responsável pelo conserto das embarcações e que, nas marujadas, é atribuído às crianças. “As embarcações muito antigas possuíam locais bastante apertados onde um adulto não conseguia entrar. Assim, era comum que houvesse crianças a bordo para consertar esses lugares inacessíveis”, explica o mestre Rosildo do Rosário.

Atualmente, também existe em Saubara a Chegança Mirim, criada com a intenção de integrar cerca de 40 crianças entre cinco e 12 anos à manifestação cultural e passar os ensinamentos ligados à valorização da cultura popular.

A religiosidade é outro aspecto importante às cheganças. Como boa parte das manifestações culturais presentes no Brasil, elas estão ligadas ao cristianismo. O Encontro de Cheganças da Bahia, por exemplo, acontece em agosto em homenagem ao padroeiro de Saubara e protetor dos marujos: São Domingos de Gusmão. O santo é reverenciado durante a caminhada feita pelas ruas. “Quando somos convidados a nos apresentar em outra cidade, também reverenciamos o santo padroeiro do local”, finaliza o conselheiro de cultura Nilo Trindade.

Mês da Cultura Popular
- Durante o mês de agosto a Secretaria de Cultura do Estado da Bahia (SecultBA) homenageia as manifestações populares do estado, com textos e vídeos que trazem ao público conhecimento das ricas e diversificadas expressões culturais do povo baiano. Para acessar todos os textos e vídeos do Mês da Cultura Popular clique no botão abaixo.


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