08/09/2016

Foto: Izabella Valverde
Há sete anos o Núcleo Viansatã de Teatro Ritual formado por artistas movimenta-se em torno do banquete ao Caos, inspirado pela filosofia cruel do encenador, ator e poeta francês Antonin Artaud. Desde a noite libriana de sua criação, o grupo tem se alimentado de histórias que versam a respeito de paixões devoradoras e realiza investigação continuada sobre o cruzamento de rituais sagrados e energia sexual como motriz de criação compartilhada.
Nesse espetáculo, A Danação de Tristão e Isolda - Capítulo I será evocada a trágica paixão do casal de tempos medievais que inspirou diversas narrativas de amor pelo mundo. A encenação se iniciará ao ar livre - no chão de pedras centenárias do Largo do Cruzeiro de São Francisco, no Pelourinho - e tratará do mito de Tristão e Isolda. Em seguida a antiga história ganha seu Duplo, uma adaptação viansatãnica envolta em enigmas e mistérios, que acontecerá dentro da Bouche de L’Enfer - sede do grupo, localizada no número 21, no mesmo Largo.
A peça ficará em cartaz até 13 de outubro, sempre às terças, quartas e quintas-feiras, às 20h. A temporada integra o projeto “Ciclos de Contágio Teatral - Manutenção do Núcleo Viansatã”, contemplado pelo Edital de Apoio a Grupos e Coletivos Culturais 2014 da Fundação Cultural do Estado da Bahia (FUNCEB), vinculada à Secretaria de Cultura do Estado da Bahia (SecultBA), financiado pelo Fundo de Cultura (FCBA) e Secretaria da Fazenda do Estado (SEFAZ-BA).
O ator e sacerdote do Viansatã, Jones Mota - que interpretará Marc (Rei da Cornualha), adianta que quem subir as escadas da Bouche estará escolhendo beber da poção que explodirá o universo do mito de Tristão e Isolda em imagens, sabores e aromas. "É um convite para navegar por fractais do mito, em que a nau é a própria poética do Viansatã e o tesouro, a Danação. Não há o desejo de controlar as pupilas. Há o desejo de dilatá-las para que o público consiga ver para além da forma", pondera.
Mito - A lenda conta a história do jovem cavaleiro Tristão, que recebeu de seu tio, o Rei Marc, a missão de buscar em outras terras sua futura esposa, a princesa Isolda. Durante a viagem, Tristão e Isolda bebem inadvertidamente de uma poção e se apaixonam de forma irreversível. Os jovens vivem terríveis dilemas de honra, dever e afeto, mas não conseguem conter a paixão avassaladora que os toma vivendo em segredo um caso de amor que os leva à morte em circunstâncias cruéis.
É sobre esse mito que trata a primeira parte de A Danação de Tristão e Isolda, contado pelo Mestre de Cerimônias ao público que estiver presente no Largo do Cruzeiro de São Francisco. Quando o fim parecer provável, o Mestre de Cerimônias fará o convite àqueles que desejarem subir as escadas da Bouche de L’Enfer para que assistam a "tempestades no fundo do mar", onde vive um outro Tristão, uma outra Isolda, um outro Marc, bruxas e deusas.
Releitura - A adaptação viansatãnica apresenta novas encarnações dos personagens: o guerreiro Tristão vira o padre da Paróquia de Santa Brígida e o Rei Marc é um grande empresário, dono do cabaré onde vai trabalhar Isolda, agora uma misteriosa cigana. A poção do amor, responsável por fazer Tristão e Isolda apaixonarem-se perdidamente, se faz presente como mulher, a personagem Belladona, beata da paróquia de Tristão.
A Lua, por sua vez, também é apresentada em livre interpretação, personificada como cantora do cabaré de Marc, que contribuirá profundamente para a paixão de Tristão e Isolda. O reino da Cornualha, local da história medieval, se torna uma rua cheia de contradições; bares, altares, vitrais e quartos formam um caleidoscópio onde a narrativa da danação dos amantes verte-se em um acontecimento impremeditável, cíclico (que não tem início-meio-fim) e episódico.
Amanda Maia realça que a história é cheia de "espaços aerados e inconclusos, metáforas abertas e metonímias, como todo quebra-cabeça que se preze", e foi dessa forma que o grupo fez suas escolhas de encenação.
Por ser um grande manancial de suas investigações artísticas, o grupo se comprometeu a realizar ainda o Capítulo 2 e 3, tornando esse o ponto inicial de uma trilogia. "Nossa história é como uma gestação. Cada momento que passamos dentro e fora do grupo foi para sermos quem somos agora neste espetáculo, no meu caso, a Poção: doce, quente e líquida mulher que me tornarei para enamorar os desejos malditos", explica Mascarenhas.
Serviço
O quê: Espetáculo A Danação de Tristão e Isolda - Capítulo 1
Quando: Nas terças, quartas e quintas-feiras, até 13 de outubro,
Horário: 20h
Local: Bouche de L'Enfer - sede do Núcleo Viansatã de Teatro Ritual, localizada no Largo do Cruzeiro de São Francisco, 21, 1º andar, Pelourinho - Salvador/BA
Entrada Franca