23/02/2017

Carnaval sempre foi e sempre será um tema que inspira escritores, músicos, artistas. O genial Oswald de Andrade disse: "O carnaval é a religião da raça". Jorge Amado escreveu "O país do carnaval", Caetano Veloso versou "Atrás do trio elétrico só não vai quem já morreu". Para o professor Paulo Miguez o carnaval é a alma da nossa cidade, elemento da cultura baiana. É com o depoimento deste mestre que iniciamos a nossa série de entrevistas especiais sobre a folia de Momo. Leia a entrevista. Amanhã será a vez do compositor, Luciano Gomes, falar sobre a comemoração dos 30 anos da música "Faraó - Divindade do Egito".
O projeto Carnaval Ouro Negro chega à décima edição com apoio da Secretaria de Cultura do Estado da Bahia garantindo a valorização e preservação de agremiações de matriz africana no Carnaval. Que avaliação o senhor faz desse projeto?
A existência do Programa Ouro Negro é um fato de grande relevância para o carnaval. E pelo menos por duas razões que merecem aqui ser registradas. Uma, por tratar-se de uma intervenção clara de política cultural nos festejos carnavalescos, o que, lamentavelmente, não tem sido um eixo privilegiado pelos órgãos públicos, sempre pouco cuidadosos com os aspectos simbólicos do carnaval. A outra, por ser um programa dedicado às entidades afrocarnavalescas, sabidamente entidades que enfrentam imensas dificuldades de ordem econômico-financeira para se fazerem presentes na festa, em que pese a sua importância histórica e simbólica para o carnaval baiano.
Alguns militantes da cultura negra acenderam o debate acerca da criação do "afródromo", que seria um circuito exclusivo de desfile de entidades carnavalescas de matriz africana. O senhor vê neste circuito uma alternativa de valorização e promoção de uma parte da nossa identidade sócio-cultural?
Compreendo as mais que justas razões que estimularam as organizações afrocarnavalescas na direção da criação do Afródromo. Todavia, não creio que a organização de um circuito exclusivo seja a melhor forma de enfrentar os problemas com que estas organizações se deparam no carnaval. A luta tem que ser pela presença delas nos circuitos oficiais e em absoluta igualdade de condições das demais entidades carnavalescas.
O carnaval de rua está de volta. Prática que caracteriza de fato a folia momesca e que, conseqüentemente, nos faz refletir sobre como o capitalismo reconfigura o modus operandi das pessoas, que passaram a viver a festa dentro de camarotes. Como o senhor analisa esse resgate?
O carnaval sempre teve a rua como seu território privilegiado. Mas este território foi sempre objeto de grandes disputas porque, de resto, o carnaval é e sempre foi uma arena de conflitos e disputas. Os camarotes são um "revival" dos velhos clubes sociais que até os anos 1980 realizavam seus bailes e gritos de carnaval - clubes tanto da elite quanto dos setores populares. Penso que as pessoas têm o direito de escolher a forma de brincar o carnaval. Uns preferem a algazarra das ruas; outros optam pelos camarotes. Não vejo problema nisso. Problema existe quando camarotes são instalados em espaço público, algo absolutamente inaceitável e que tem que ser duramente combatido. Mas, instalados em espaços privados não me parece que possam ser vistos como um problema. Neste caso, são mais um equipamento da festa, aliás, hoje, o equipamento que se firma como o eixo central do negócio carnavalesco.
O Tropicalismo faz 50 anos, este será o tema do Carnaval da Cultura/ Governo do Estado. O senhor disse que sem o Tropicalismo não existiria Axé, e casou polêmica. Qual o ponto de confluência dos dois movimentos?
A Tropicália foi uma genial revolução cultural que abriu caminhos os mais diversos para a evolução da música brasileira. E foi com esta compreensão que fiz a afirmação de que sem ela não haveria Axé Music. Na base da estética musical da Axé Music, preparando o terreno para seu nascimento, além da janela aberta pela Tropicália estão o trio elétrico, a trieletrificação do ijexá capitaneada por Morais Moreira, e a batida dos tambores dos blocos afro. Ou seja, a emergência da Axé Music, este maravilhoso híbrido musical de muitos artistas (compositores, cantores, instrumentistas) baianos, não é algo isolado e que tenha surgido do nada.
Como o senhor sintetiza esta grande celebração, que é o Carnaval de Salvador? O senhor diria que Momo está satisfeito com a folia?
A melhor síntese está numa canção de Caetano Veloso: "o carnaval é a invenção do Diabo que Deus abençoou". Quanto a Momo, é ele um soberano sempre cioso dos seus domínios, cuidadoso com seus súditos e sempre alerta e disposto a rebelar-se contra quem ouse pensar em domesticá-lo.
O projeto Carnaval Ouro Negro chega à décima edição com apoio da Secretaria de Cultura do Estado da Bahia garantindo a valorização e preservação de agremiações de matriz africana no Carnaval. Que avaliação o senhor faz desse projeto?
A existência do Programa Ouro Negro é um fato de grande relevância para o carnaval. E pelo menos por duas razões que merecem aqui ser registradas. Uma, por tratar-se de uma intervenção clara de política cultural nos festejos carnavalescos, o que, lamentavelmente, não tem sido um eixo privilegiado pelos órgãos públicos, sempre pouco cuidadosos com os aspectos simbólicos do carnaval. A outra, por ser um programa dedicado às entidades afrocarnavalescas, sabidamente entidades que enfrentam imensas dificuldades de ordem econômico-financeira para se fazerem presentes na festa, em que pese a sua importância histórica e simbólica para o carnaval baiano.
Alguns militantes da cultura negra acenderam o debate acerca da criação do "afródromo", que seria um circuito exclusivo de desfile de entidades carnavalescas de matriz africana. O senhor vê neste circuito uma alternativa de valorização e promoção de uma parte da nossa identidade sócio-cultural?
Compreendo as mais que justas razões que estimularam as organizações afrocarnavalescas na direção da criação do Afródromo. Todavia, não creio que a organização de um circuito exclusivo seja a melhor forma de enfrentar os problemas com que estas organizações se deparam no carnaval. A luta tem que ser pela presença delas nos circuitos oficiais e em absoluta igualdade de condições das demais entidades carnavalescas.
O carnaval de rua está de volta. Prática que caracteriza de fato a folia momesca e que, conseqüentemente, nos faz refletir sobre como o capitalismo reconfigura o modus operandi das pessoas, que passaram a viver a festa dentro de camarotes. Como o senhor analisa esse resgate?
O carnaval sempre teve a rua como seu território privilegiado. Mas este território foi sempre objeto de grandes disputas porque, de resto, o carnaval é e sempre foi uma arena de conflitos e disputas. Os camarotes são um "revival" dos velhos clubes sociais que até os anos 1980 realizavam seus bailes e gritos de carnaval - clubes tanto da elite quanto dos setores populares. Penso que as pessoas têm o direito de escolher a forma de brincar o carnaval. Uns preferem a algazarra das ruas; outros optam pelos camarotes. Não vejo problema nisso. Problema existe quando camarotes são instalados em espaço público, algo absolutamente inaceitável e que tem que ser duramente combatido. Mas, instalados em espaços privados não me parece que possam ser vistos como um problema. Neste caso, são mais um equipamento da festa, aliás, hoje, o equipamento que se firma como o eixo central do negócio carnavalesco.
O Tropicalismo faz 50 anos, este será o tema do Carnaval da Cultura/ Governo do Estado. O senhor disse que sem o Tropicalismo não existiria Axé, e casou polêmica. Qual o ponto de confluência dos dois movimentos?
A Tropicália foi uma genial revolução cultural que abriu caminhos os mais diversos para a evolução da música brasileira. E foi com esta compreensão que fiz a afirmação de que sem ela não haveria Axé Music. Na base da estética musical da Axé Music, preparando o terreno para seu nascimento, além da janela aberta pela Tropicália estão o trio elétrico, a trieletrificação do ijexá capitaneada por Morais Moreira, e a batida dos tambores dos blocos afro. Ou seja, a emergência da Axé Music, este maravilhoso híbrido musical de muitos artistas (compositores, cantores, instrumentistas) baianos, não é algo isolado e que tenha surgido do nada.
Como o senhor sintetiza esta grande celebração, que é o Carnaval de Salvador? O senhor diria que Momo está satisfeito com a folia?
A melhor síntese está numa canção de Caetano Veloso: "o carnaval é a invenção do Diabo que Deus abençoou". Quanto a Momo, é ele um soberano sempre cioso dos seus domínios, cuidadoso com seus súditos e sempre alerta e disposto a rebelar-se contra quem ouse pensar em domesticá-lo.