09/02/2018

Foto: Almir Santos
Após 220 anos, o Largo de Pelourinho volta a ser palco de uma história marcante. O sofrimento amargado pelos heróis da Revolta dos Búzios deu lugar a um canto que entoa sinais de resistência e continuidade. O vozeirão por trás desse chamamento é de ninguém menos do que o cantor Lazzo Matumbi, que abriu oficialmente, nesta noite de sexta-feira (09), o Carnaval do Pelô. Acompanhado da cantora Iracema do Ilê Aiyê e do cantor Lazinho do Olodum, Lazzo Matumbi juntamente com o compositor Tote Gira, apresentaram um espetáculo marcado pela reafirmação dos ideais de liberdade e igualdade. A abertura do show se deu com a leitura do manifesto da Revolta Búzios pelo ator Dody Só. O texto, que aponta os princípios de um dos mais emblemáticos movimentos revolucionários populares do país e que teve como um dos palcos dos castigos dos negros escravizados revoltosos, o próprio Pelourinho.
“Infelizmente, o derramamento de sangue das pessoas negras continua nos dias de hoje, mas nossa consciência está tão evoluída, que a gente consegue subir no palco onde irmãos e irmãs sofreram violência para cantar a liberdade de uma forma muito sublime. É como se a gente tivesse dando continuidade ao papel que nossos ancestrais começaram: o de resistência”, discorre o cantor Lazzo Matumbi.
A emoção de fazer parte dessa história e de relembrar um momento tão importante para o povo baiano, sobretudo, para a população negra, foi tanta que os cantores Lazzo e Tote apresentaram duas músicas inéditas, compostas especialmente para o show. “Trazer esse tema para o Pelourinho é unir o útil ao agradável de tal forma que nos motivou a escrever "Esse chão tem minha cor" e "Revoltas", duas canções que enfatizam o momento histórico a partir da pegada da sobrevivência, da resistência e, principalmente, do seguimento da luta de maneira mais consciente”, explica Matumbi.
“Ê Carnaval eu vim te ver. Um sentimento nobre eu vim cantar para vocês, da Revolta dos Búzios. Esse chão tem minha cor, cada pedra meu suor”, era um dos trechos da canção inédita que a aposentada Jó Castro já acompanhava na ponta da língua. “Somos parte dessa história, desses heróis que nos precederam para que tenhamos força para continuar e o canto é apenas o primeiro passo”, disse emocionada.
Não é a primeira vez que a Revolta dos Búzios é tema de canções. Diversas agremiações afrocarnavalescas apresentam em seus repertórios músicas que entoam a luta dos negros pela abolição da escravatura e pela resistência que seguiu após o 13 de Maio. “Seja na música, seja nas nossas atitudes, precisamos fazer uma nova Revolta dos Búzios urgente”, clamava a cantora do Ilê Aiyê, Iracema, que apresentou duas canções da banda que fazem referência à revolta social, são elas: "Esperança de um povo" e "Heranças Bantos".
O protagonismo da população negra era evidente nesta noite de Carnaval do Pelô, a observação é da historiadora e professora universitária Fernanda Oliveira. “É encantador vir para Salvador e se ver nas pessoas, sobretudo quando elas ocupam todas as esferas: o espaço destinado ao público, mas também os palcos e o tema da festa”, destaca a gaúcha, que fazia sua estreia na folia soteropolitana.
CARNAVAL DA CULTURA - O Carnaval da Cultura é o carnaval da democracia e da diversidade e do folião pipoca, que leva para as ruas, durante todos os dias e circuitos da folia, a mistura de ritmos e gêneros musicais e, principalmente, a estética e a arte de diferentes artistas, grupos e entidades culturais da Bahia. São centenas de atrações e shows gratuitos de afoxé, samba, reggae, axé, pop, MPB, fanfarras e muito mais. É diversão garantida para todos os gostos e estilos no espaço público da rua para alegria do folião. O Carnaval da Cultura – uma realização da Secretaria da Cultura do Estado da Bahia, por meio do Centro de Culturas Populares e Identitárias (CCPI) – está organizado a partir de quatro programas: Carnaval do Pelô, Carnaval Pipoca e Carnaval Ouro Negro. A programação completa de nossa festa está disponível nos sites www.cultura.ba.gov.br e www.carnaval.bahia.com.br