02/03/2019

Foto: Alexandra Martins
Se tem algo que não passou despercebido na abertura do Carnaval do Pelô, na noite desta sexta-feira (1º de março), foi a presença feminina. No Largo do Pelourinho, palco principal da folia, o público presenciou a união de gerações de mulheres negras, que através da música preservam um legado de resistência e ancestralidade.
A voz que abriu os trabalhos foi a da cantora Márcia Short, uma das figuras mais representativas do carnaval baiano. Embora tenha na bagagem a conta de 30 carnavais, destes, 25 no Pelô, esta foi a primeira vez da artista na abertura da folia. “Essa oportunidade vem coroar um desejo antigo. O Pelourinho é um camarote a céu aberto, tem segurança, tem conforto, tranqüilidade, comida, bebida, boa música. É o nosso camarote negro”, decretou a cantora.
Através do repertório apresentado, a artista levou o público para um passeio na trilha sonora carnavalesca: do clássico “Faraó, divindade do Egito” do Olodum à atualidade, com “Que suingue é esse”, do Afrocidade. Ao lado de Márcia, estava a dançarina e pesquisadora Nildinha Fonseca, primeira bailarina do Balé Folclórico da Bahia. “O melhor dia do meu Carnaval vai ser hoje, com certeza”, disse antes de se apresentar.
Reverência às Yabás – A noite foi coroada também com a apresentação de um trio de mulheres que representam uma geração de cantoras, compositoras e instrumentistas do samba de roda do Recôncavo Baiano. Foram elas Maryzélia Santos, Dona Chica do Pandeiro e Mestra Ana, que levaram ao Largo do Pelourinho o projeto “Samba das Yabás”.
Para as três não falta talento e resistência ao levar na bainha da saia, no gogó sagaz e no toque percussivo a história das mulheres no samba de roda baiano. Espelho disso é Dona Chica do Pandeiro, compositora e instrumentista autodidata, que aos 71 anos não perde a majestade que a tornou matriarca do grupo cultural Quixabeira da Matinha, de Feira de Santana. “Estar aqui com meu samba faz bem pra minha saúde mental”, resume.
Quem acompanhou Dona Chica é também outra importante figura feminina do samba de roda, a Mestra Ana. Aos 58 anos, a artista faz parte de uma família que tem como referência principal, a cachoeirana e líder do grupo Samba Suerdieck, Dona Dalva, da qual é filha. “Nós somos fruto de uma história de resistência, estar aqui é a prova disso”, diz Mestra Ana. Além de cantar, ela também compõe e tem como inspiração as orixás femininas Nanã, Oxum e Yemanjá. “Elas nos acompanham, nos protegem e são elas quem nos ajuda a resistir na valorização das mulheres no samba”, confidencia.
Certa disso esta a cantora Maryzélia Santos, 43, que em novembro de 2019, completa 10 anos de carreira. “Elas foram as precursoras dessa luta. É uma história altamente negra e saber disso faz com que eu fortaleça ainda mais a minha verdade. O que eu sinto é gratidão pela oportunidade de estar aqui fazendo história ao lado delas”, assegurou a artista, que participa do Carnaval do Pelô há três anos, sendo esta a primeira vez no palco principal.
Carnaval da Cultura – É o carnaval dos blocos afro, de samba, de reggae e dos afoxés, apoiados por meio do Edital Ouro Negro para desfilar nos três principais circuitos da folia: Batatinha, Dodô e Osmar. É a folia animada, diversa e democrática do Carnaval do Pelô, que abraça o carnaval de rua, microtrios e nanotrios, além de promover nos palcos grandes encontros musicais e variados ritmos numa ampla programação. Tem Afro, Reggae, Arrocha, Axé, Antigos Carnavais, Samba, Hip-hop e Guitarra Baiana, além de Orquestras e Bailes Infantis. E é também a preservação do patrimônio cultural, com o apoio ao carnaval tradicional dos mascarados de Maragojipe. Promovido pelo Governo do Estado, através da Secretaria de Cultura (SecultBA), o Carnaval da Cultura é da Bahia. O Mundo se Une Aqui! Confira mais fotos no Flickr: https://goo.gl/6c7RT5
Repórter: Juliana Dias