Na liberdade, Ilê Aiyê faz o primeiro desfile comemorativo de 45 anos

03/03/2019
Ilê Aiyê
Saída Ilê Aiyê / Foto: André Frutuôso

Que Bloco é esse?', a pergunta feita pela música de Paulinho Camafeu há 45 anos continua dando o tom da admiração e da surpresa daqueles que apreciam a passagem do bloco afro Ilê Aiyê. O Mais Belo dos Belos realizou nesta noite de sábado, 0203, no Curuzu, mais um ritual de saída, que envolve práticas da religiosidade africana, o forte toque da percussão, a apresentação da Deusa do Ébano 2019 e o pedido de paz para o Carnaval de Bahia. Depois é só subir a Ladeira do Curuzu e ocupar a cidade com sua beleza e nobreza, elevando a auto estima da comunidade negra, como faz há 45 anos.

Essa autoestima era perceptível para quem lançava o olhar para a multidão que aguardava o início da cerimônia religiosa presidida pela mãe de santo Hildelice Benta, ialorixá do Terreiro Ilê Axé Jitolu. Em meio a aglomeração, estava o casal de aposentados Reginaldo Gonçalves, 62 anos, e Evanildes Gonçalves, 52. Eles acompanham o Ilê Aiyê desde a fundação, mas começaram a sair no bloco no ano de 2014. “Quando estamos vestidos com a fantasia do Ilê Aiyê nestes três dias é que sentimos nosso respeito. O Ilê sempre está progredindo em defesa dos negros” disse Reginaldo. Logo em seguida a fala dele foi complementada pela da esposa Evanildes que sentenciou “Essa roupa é um passaporte, quando chegamos com ela, tudo de bom acontece”.

Fundador e presidente da entidade,  Antônio Carlos Vovô,  relata a satisfação em ocupar as ruas de  Salvador nesse aniversário: “Pra mim é muito gratificante colocar o bloco na rua mais um ano. Somos o primeiro bloco afro e há 45 anos ininterruptos estamos desfilando no Carnaval mesmo com toda dificuldade que a gente enfrenta, então é hora de celebrar as conquistas que acompanham o surgimento do Ilê Aiyê, essa transformação que a cidade sofreu na musicalidade, na estética, no resgate da autoestima do povo negro e, sobretudo, no despertar desse sentimento de negritude, que fez com vários outros blocos afro surgissem na Bahia, no Brasil e até no mundo”

Desde 1974 quando fez o primeiro desfile, responsável por ressignificar o Carnaval de Salvador e possibilitando o acesso do povo negro à maior festa de rua do planeta,  a atuação do Ilê no combate ao racismo e compromisso para uma educação anti-racista mostram que a agremiação extrapola os limites do Carnaval.

“Eu sou professora alfabetizadora e tive a honra de, entre 1999 a 2003, ser capacitada pelo Ilê Aiyê. Eles tinham um projeto de Extensão Pedagógica.  Durante o curso, tive como professores a Makota Valdina Pinto, Jorge Conceição, Jonatas Conceição, Ana Celia Silva que me ensinaram a trabalhar com a história da África e da Cultura Afro Brasileira antes mesmo da Lei 10639 existir. Sou eternamente grata ao Ilê Aiyê, aos seus cadernos pedagógicos, que eu tenho todos.

ENCONTRO DE RAINHAS

Enquanto, Daniele Nobre, a Deusa do Ébano 2019 se preparava para ser apresentada oficialmente, a primeira rainha do Ilê Aiyê, Maria de Lourdes Cruz, que reinou no desfile do bloco afro no Carnaval de 1976, relembrou os tempos em que esteve com a coroa: “Emoção muito grande em ser a primeira rainha, ainda mais que era em uma época diferente. Rainha sempre existiu, mas rainha negra era difícil e o Ilê Aiyê abriu este espaço. Antigamente o negro não usava vermelho (...) não achava que tinha uma roupa ou um cabelo adequado para ir para os lugares. Hoje se chamarem: ‘vumbora ali’, você usa um torso ou uma trança africana e vai para qualquer lugar e quando você chega ainda é destaque, na simplicidade que você está”, conta Dona Mirinha ou Tia Rainha, como é respeitosamente chamada pelas deusas do ébano, título dado às rainhas do bloco que a sucederam.

Nos minutos que antecediam à saída do bloco, no primeiro desfile de comemoração dos 45 anos do Ilê Ayê, Daniele Nobre, eleita Deusa do Ébano 2019 falou das suas expectativas: "Estou ansiosa para chegar na Avenida para dançar e para mostrar porque eu fui eleita. Não só pela minha beleza, mas também pela minha dança e pela minha simpatia”.

A IMPORTÂNCIA  DO CARNAVAL OURO NEGRO -  De acordo com a Secretária de Cultura do Estado da Bahia Arany Santana, que estava presente e representou o Governador Rui Costa na cerimônia, “Esta 12ª edição do programa Ouro Negro é extremamente vitoriosa e comemorativa, porque diversos blocos fazem aniversário. Além do Ilê Aiyê, que está fazendo 45 anos, Olodum, 40 anos, Didá e A Mulherada, 25 anos e os Filhos de Gandhy, o afoxé mais antigo do Brasil que faz 70 anos. Todos estes blocos são apoiados pelo Governo do Estado, através do Ouro negro, e é motivo de muita alegria porque são esses os responsáveis pela reafricanização do carnaval da Bahia e por esta diversidade do carnaval da Bahia. Eles oferecem um caldeirão de multiplicidades para este carnaval”.

Antônio Carlos Vovô também ressaltou a importância do Ouro Negro, principalmente, para viabilizar o desfile dos blocos menores. O Ilê Aiyê desfila com o apoio do Carnaval Ouro Negro 2019, programa de fomento promovido pela Secretaria de Cultura do Estado da Bahia (SecultBA).

E tem mais Ouro Negro

O Ilê Aiyê desfila de novo no Campo Grande, na segunda (4/3) e na terça-feira (5/3) de Carnaval. O “Charme da Liberdade” leva o seu espetáculo cênico-musical para o circuito Osmar. A Band’Aiyê vai comandar o bloco, que  vai  ser acompanhado de um cortejo comemorativo ao tema do Carnaval com destaque para o carro que se transforma em um verdadeiro altar para a recém eleita Deusa do Ébano 2019, Daniele Nobre, e para as princesas Nana Sarah e Gleiciele Teixeira, eleitas no último dia 16 na 40ª Noite da Beleza Negra, festas das mais concorridas e tradicionais do calendário de verão de Salvador.

Carnaval da Cultura – É o carnaval dos blocos afro, de samba, de reggae e dos afoxés, apoiados por meio do Edital Ouro Negro para desfilar nos três principais circuitos da folia: Batatinha, Dodô e Osmar. É a folia animada, diversa e democrática do Carnaval do Pelô, que abraça o carnaval de rua, microtrios e nanotrios, além de promover nos palcos grandes encontros musicais e variados ritmos numa ampla programação. Tem Afro, Reggae, Arrocha, Axé, Antigos Carnavais, Samba, Hip-hop e Guitarra Baiana, além de Orquestras e Bailes Infantis. E é também a preservação do patrimônio cultural, com o apoio ao carnaval tradicional dos mascarados de Maragojipe. Promovido pelo Governo do Estado, através da Secretaria de Cultura (SecultBA), o Carnaval da Cultura é da Bahia. O Mundo se Une Aqui! Confira mais fotos no Flickr: https://goo.gl/6c7RT5

Repórter: Tedson Souza