Ouro Negro fomenta diversidade da cultura afro-brasileira no Carnaval 2019

05/03/2019
Ilê Aiyê
Ilê Aiyê / Foto: Fafá Araújo

Uma rainha africana veio para o Carnaval da Bahia. Não, não era uma fantasia de carnaval, mas sim a mais alta representação da República Democrática do Congo, a rainha Diambi Kabatusuila que saiu de Kinshasa, capital e maior cidade do país onde reina e veio participar da festa junto ao afoxé Filhos do Congo, que comemora 40 anos. Este é um exemplo da força e da beleza com o qual desfilaram as dezenas de blocos e agremiações que contaram com apoio do Edital Carnaval Ouro Negro 2019, promovido pelo Governo do Estado da Bahia.

Mais de 40 mil foliões associados com fantasias, brilhos e mostrando toda atitude, resistência das comunidades populares, ancestralidade do povo negro, força das religiões de matrizes africanas e dos ritmos originalmente afro-brasileiros. “O Ouro Negro é uma iniciativa do governo do estado, fruto dos clamores do movimento negro da Bahia. O governo investe para manter nas ruas a diversidade que é o grande diferencial do Carnaval da Bahia”, afirma a secretária de Cultura do Governo da Bahia, Arany Santana. Para 2020, a secretária anuncia uma avaliação do desempenho do edital neste ano para propor melhorias e acolher ainda mais entidades. “Queremos que mais entidades possam ser apoiadas pelo Carnaval Ouro Negro no ano que vem. Vamos aperfeiçoar o edital pra levar ainda mais brilho e beleza dos blocos afro pro nosso Carnaval”, relata a secretária.

Arany acredita que a maior contribuição do Programa Ouro Negro para o Carnaval de Salvador é a pluralidade de estilos das entidades de matrizes africanas, com reggae, samba e afoxés. “São 12 anos apoiando a manutenção da diversidade para os três circuitos da festa. Algumas entidades mantém sua longevidade também por conta deste apoio”, avalia Arany.

Filos de Gandhy
Filhos de Gandhy / Foto: André Frutuôso

Datas Comemorativas – 2019 foi um ano emblemático para vários blocos afro e de samba e todos comemoraram com muito estilo e beleza nas suas passagens pelo Carnaval. O afoxé Filhos de Gandhy completou 70 anos, mantendo a tradição de ser o tapete branco da avenida, trazendo ouro para a folia e fazendo homenagem a Tempo, entidade que rege o caminhar, as decisões e o destino das pessoas. E foram mais de seis mil associados, acompanhando o bloco em três dias na festa. Foliões como o cientista social Ademário Souza Costa, 44 anos, que desfila com o bloco desde a infância: “Desde pequeno eu pensava que ser baiano era sair no Gandhy e torcer pelo [Esporte Clube] Bahia”, disse Costa que é neto de um adepto do Candomblé, cresceu ouvindo oficinas de atabaques e agogô em casa e este ano trouxe o filho João Miguel Cândido Costa, 15 anos, que pretende prosseguir com a tradição da família.

Já o Mais Belo dos Belos completou 45 anos, exaltando a importância das canções criadas por compositores baianos para o bloco. Como tema deste ano, o Ilê relembrou a música “Que Bloco é Esse”, criada por Paulinho Camafeu, em 1975. “Somos o primeiro bloco afro e há 45 anos ininterruptos estamos desfilando no carnaval mesmo com toda dificuldade que a gente enfrenta. Então é hora de celebrar as conquistas que acompanham o surgimento do Ilê Aiyê, essa transformação que a cidade sofreu na musicalidade, na estética, no resgate da autoestima do povo negro e, sobretudo, no despertar desse sentimento de negritude”, disse Antônio Carlos dos Santos, o Vovô do Ilê, presidente do bloco. No desfile da segunda-feira, no Campo Grande, o bloco convidou o ator e diretor Ângelo Flávio, um ativista da causa negra, para recitar versos de canções emblemática da história do Ilê Aiyê.

“As Duas Histórias – O Perfume das Rosas e Olodum” foi o tema da comemoração dos 40 anos do Olodum. “A temática escolhida pelo bloco representa a leveza do amor e da gentileza que sabemos praticar. É uma resposta ao momento que vivemos. Ao longo desses anos, foi esse perfume, esse aroma que nos fortaleceu e sempre marcou essa tradição dos tambores associada a letras de protesto”, diz Arany Santana ao falar da importância do bloco e sua essencial presença no Carnaval Ouro Negro.

O Alerta Geral, a Didá e a Mulherada também tiveram datas importantes, os três blocos fizeram 25 anos em desfiles cheio de vida, cor, dança, percussão e samba. “Ver esse tapete branco comemorando as bodas de prata é emocionante demais. Fruto de um trabalho de toda diretoria do bloco pioneiro a trazer o samba para o trio no Carnaval”, relata Zé Arerê, como é chamado José Luis Lopes, presidente e fundador do bloco.

Didá
Didá / Foto: Nilton Lopes

Presença Feminina - As mulheres negras mostraram toda força e beleza durante a festa. No comando de agremiações, comandando percussão, organizando as alas e fazendo as coreografias, a presença feminina foi marcante no Carnaval Ouro Negro. O bloco A Mulherada que abriu a folia na quinta-feira (28/03) e a Didá, que desfilou sábado (02/03) e segunda-feira (04/03), mostraram o quanto as mulheres estão na linha de frente e trazem potência e beleza para a Avenida.

Além de organizar e curtir a folia, as mulheres não deixam de usar o espaço para fazer alertas importantes contra o machismo. “’Tocar pode, bater não’ é um slogan para a gente. Para nós, é fundamental também trazer para rua uma música anti-baixaria e combater a violência”, conta Paula Érica, diretora administrativa do bloco A Mulherada.

A Mulherada
A Mulherada / Foto: Fafá Araújo

Samba – Importante destaque do Carnaval Ouro Negro 2019 foi o samba, presença marcante na folia, em blocos como: Alerta Geral, Reduto do Samba, Alvorada, Abuse e Use e Axé Dadá.

“O carnaval sem samba não existe. Já é tradição. Quando fundei o Pagode Total, foi com inspiração no Alerta Geral e são 20 anos de muita alegria”, diz Cumpadre Washington. A Madrinha do Alerta Geral, a atriz Solange Couto, que há 12 anos desfila no bloco, elogia: “No auge dos meus 62 anos posso dizer que desfilar com o Alerta Geral é um orgulho. O bloco vem bravamente fortalecendo o samba, as origens e isso é o mais importante”.

Nomes de peso no samba nacional desfilaram com os blocos apoiados pelo Ouro Negro, como Xande de Pilares, no Alerta Geral, Nelson Rufino no Amor e Paixão e Xanddy do Harmonia do Samba no Reduto do Samba. Para Xanddy, estes blocos são essenciais para a folia por trazerem o samba com a tradição afro-brasileira. “A toda cultura africana, meu respeito e admiração. Nossa cultura, nossas raízes vem daí”, disse o cantor.

Festa e Fé – Diversos blocos desfilaram homenageando Orixás, entidades das religiões afro-brasileiras. No Circuito Batatinha, saindo pelo Contrafluxo a partir da rua Chile sentido Campo Grande, vários blocos e afoxés como o Filhos do Korin Efan, o Ginga do Negro e o afoxé Laroyê Arriba. O tradicional Filhos de Korin Efan trouxe como tema Oke Arô Okê, Salve Oxóssi, Salve o Rei de Ketu. “Estamos trazendo a questão da preservação do meio ambiente, já que estamos homenageando os Orixás que são a força da natureza”, diz Elisângela Silva, presidente do bloco. Odé, rei das matas, também foi homenageado do bloco Ginga do Negro com o tema “Pigmeus da terra de Oxóssi”.

De acordo com Soraia Cabral Gomes, presidente do afoxé Laroye Ariba e yalorixá do Ilê Axé Ofon D’Ewa, assim como a maioria dos afoxés, o Laroye nasceu dentro de um terreiro de Candomblé. “Nosso bloco leva a saudação de Exú, Laroyê. Para que ele nos dê caminho, é que nos fazemos este padê, pedindo para ele que proteja a nossa comunidade”, explica Soraia.

Desfilando no Circuito Osmar (Campo Grande) e Dodô (Barra/Ondina), com diversas alas e uma percussão afiada, o Cortejo Afro, conhecido como ‘Elegantemente Sofisticado’, trouxe de volta um Orixá como tema para a festa. “Não é qualquer Orixá. Estamos falando de Oxalá, Orixá da paz, pra convocar para essa energia de luz. Oxalá usando Ekodidé significa a humildade de voltar atrás, pedir perdão e ser humilde”, diz o artista plástico Alberto Pitta, presidente do bloco que teve como tema “Porque Oxalá usa Ekodidé”.

Velhos e novos tempos – Curtir os antigos carnavais também faz parte da festa no Ouro Negro com o Bloco da Saudade. “O público principal [do bloco] é o da melhor idade, que tem poucos espaços no Carnaval de Salvador”, conta Tanise Cabral, filha do fundador e atual vice-presidente. Ela informa que o bloco desfilou neste ano com 1200 associados, incluindo mães, pais, filhos e avôs.

Saudar os ancestrais faz parte das entidades de matrizes africanas na folia de momo. Assim como o cuidado com o futuro dos blocos que já nasce com as crianças na festa. Neste ano de 2019, os pequenos foliões tiveram espaços em blocos como a Vamos Nessa Kids, o Bloco da Capoeira, comandada pelo cantor e compositor Tonho Matéria, o bloco Didá, formado exclusivamente por mulheres e crianças. Foliões mirins como é o caso de Monique Correia, 8 anos, que vestida de baiana participou do desfile da Didá, acompanhada pela avó Eliene Oliveira dos Santos, baiana de acarajé que sempre traz a neta pro carnaval. “Eu adoro a Didá e também me vestir de baiana como a minha vó. Me acho linda assim”, conta Monique que é a única neta de Eliene. “Sempre quis que algum neto me acompanhasse e como ela é a única neta e adora o carnaval vem comigo pra ala das baianas”, disse a baiana.

Folia nas mídias – Na era das selfies e compartilhamentos, a SecultBa não deixaria de mobilizar seus perfis nas redes sociais com a cobertura em tempo real das principais atrações que passaram pelas ruas e palcos do Pelô e os blocos apoiados pelo Carnaval Ouro Negro. Duas equipes trabalharam simultaneamente para alimentar com fotos e vídeos a produção realizada por fotógrafos e jornalistas durante os seis dias de festa.

Com enfoque na cobertura do folião, histórias de Carnaval foram trazidas à tona através de publicações no Instagram (https://goo.gl/rR8xtx), Twitter( https://goo.gl/EqzPyV), Facebook (https://goo.gl/EDJSD5) e Flickr (https://goo.gl/6c7RT5), alcançando milhares de seguidores de forma orgânica.

Carnaval da Cultura – É o carnaval dos blocos afro, de samba, de reggae e dos afoxés, apoiados por meio do Edital Ouro Negro para desfilar nos três principais circuitos da folia: Batatinha, Dodô e Osmar. É a folia animada, diversa e democrática do Carnaval do Pelô, que abraça o carnaval de rua, microtrios e nanotrios, além de promover nos palcos grandes encontros musicais e variados ritmos numa ampla programação. Tem Afro, Reggae, Arrocha, Axé, Antigos Carnavais, Samba, Hip-hop e Guitarra Baiana, além de Orquestras e Bailes Infantis. E é também a preservação do patrimônio cultural, com o apoio ao carnaval tradicional dos mascarados de Maragojipe. Promovido pelo Governo do Estado, através da Secretaria de Cultura (SecultBA), o Carnaval da Cultura é da Bahia. O Mundo se Une Aqui! Confira mais fotos no Flickr: https://goo.gl/6c7RT5