Espetáculo Pele Negra, Máscaras Brancas faz primeira apresentação no interior do estado, em Alagoinhas

26/09/2019
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Foto: Divulgação


Com direção da artista alagoinhense Onisajé (Fernanda Júlia), o espetáculo Pele Negra, Máscaras Brancas fez sua estreia em Alagoinhas na noite da última terça-feira, dia 24 de setembro, com casa cheia no Centro de Cultura de Alagoinhas. Baseada em livro homônimo do psiquiatra negro Frantz Fanon, a montagem da Companhia de Teatro da UFBA denuncia as conseqüências do racismo estrutural nas subjetividades negras. Essa foi a primeira apresentação do espetáculo no interior do estado, em noite marcada pela emoção e confraternização de artistas e lideranças negras. A apresentação fez parte da programação da VIII Semana de Arte e Cultura do Litoral Norte e Agreste Baiano, que acontece até o próximo domingo (29).

 

Além de elenco 100% negro, o espetáculo é o primeiro da companhia a ter uma mulher negra na direção. Com dramaturgia afrofuturista, o espetáculo perpassa três períodos para falar sobre o processo de colonização das mentes e corpos negros: 1950, quando Fanon teve a sua tese de doutorado rejeitada pela banca examinadora; 2019, momento em que o espetáculo coloca Fanon em cena para mais uma vez defender a sua tese; e 2888, ano em que vivem os seis personagens-tese que vivem uma perspectiva ocidentalizada do negro no futuro.

 

Após os aplausos da plateia, a diretora Onisajé subiu ao palco acompanhada por sua mãe, a Yalorixá Mãe Rosa do terreiro Ilê Axé Oyá L'adê Inã, que foi vítima de intolerância religiosa em maio deste ano. Subiram ao palco também outros artistas alagoinhenses que fazem parte da montagem, entre eles a assistente de direção Fabíola Nansurê, o produtor executivo Anderson Dantas e o iluminador cênico Nando Zâmbia. “Que a cultura de Alagoinhas empreteça, pois quanto mais peles negras, menos máscaras brancas”, aclamou Onisajé ao destacar o potencial dos artistas negros do município.

 

Intolerância religiosa - Em conversa após o espetáculo, a Yalorixá Mãe Rosa falou do orgulho de ver o sucesso do trabalho dos seus três filhos (Onisajé, Nansurê e Zâmbia), todos “artistas formados pela Universidade Federal da Bahia (UFBA)”. Ela falou também sobre o momento de intolerância religiosa que viveu e sobre a resistência das religiões de matrizes africanas. No dia 27 de maio, um grupo se reuniu na frente da casa da Yalorixá para insultar ela, o terreiro e o candomblé. “A minha religião não é só minha, é do Brasil e do mundo. Religião é amor, respeito e união, cada um segue aquilo que faz bem e a gente tem que respeitar”, arrematou.

 

Representatividade – A presidente do Conselho Municipal do Direito das Mulheres, Juci Cardoso também esteve no Centro de Cultura de Alagoinhas na noite de terça-feira e enfatizou a importância da representatividade de uma mulher alagoinhense negra assinar a direção do espetáculo de maior sucesso na última temporada em Salvador. “Alagoinhas é uma cidade machista e racista, e termos uma mulher negra, artista, intelectual que é referência para todas nós mostra que as mulheres e homens negros estão ocupando lugares antes inimagináveis”, afirmou Cardoso. Ela também ressaltou o trabalho da atual gestão do Centro de Cultura de Alagoinhas: “há uma escuta sensível e as nossas pautas são apoiadas”.                                                                         

                                                                                                                                                                        

Espaços Culturais da SecultBA - A Secretaria de Cultura do Estado da Bahia mantém 17 espaços culturais geridos pela Diretoria de Espaços Culturais (DEC), e localizados em diversos Territórios de Identidade. Destes, cinco encontram-se em Salvador - Cine Teatro Solar Boa Vista, Espaço Xisto Bahia, Casa da Música de Itapuã, Centro de Cultura de Plataforma e Espaço Cultural Alagados - e 12 nos municípios de Alagoinhas, Feira de Santana, Guanambi, Itabuna, Jequié, Juazeiro, Lauro de Freitas, Mutuípe, Porto Seguro, Santo Amaro, Valença e Vitória da Conquista. Para mais informações, acesse: www.cultura.ba.gov.br