
A quarta edição da Mostra Lugar de Mulher é no Cinema acontece em formato online, entre os dias 22 e 28 de março, através do www.mostramulhernocinema.com.br. Em 2021, a Mostra faz uma homenagem à cineasta brasileira Adélia Sampaio. Celebrando a vida e a obra da artista, no mês das mulheres, o evento exibe, em sua abertura, o filme Amor Maldito, produção brasileira pioneira em trazer temática lésbica para as telas. Este projeto tem apoio financeiro do Estado da Bahia, através da Secretaria de Cultura e da Fundação Cultural do Estado da Bahia (Programa Aldir Blanc Bahia) via Lei Aldir Blanc, direcionada pela Secretaria Especial da Cultura do Ministério do Turismo, Governo Federal.
Adélia Sampaio tem 75 anos, é mineira de Belo Horizonte e é reconhecida como a primeira cineasta negra a dirigir um longa-metragem no Brasil, em 1984. Há uma importância singular em sua produção para o cinema nacional, principalmente por sua luta como mulher negra para realizar as suas obras e resistir à censura que existia no País em plena Ditadura Militar. Sampaio começou sua carreira nos anos 1970, levada por sua irmã para a Difilm, empresa brasileira distribuidora de filmes.
A sua primeira obra audiovisual é o curta-metragem Denúncia Vazia, de 1979. Já em Amor Maldito, ela inova ao trazer uma perspectiva feminina sobre uma relação homossexual entre duas mulheres, construindo uma narrativa que não é erotizante e nem animalesca, algo apontado por críticos e teóricos do audiovisual como uma marca em outros filmes. Para que houvesse a circulação do longa, Adélia aceitou a proposta do dono do Cine Paulista para transvestí-lo com uma divulgação na porta como filme pornô, já que nenhum dono de cinema queria exibi-lo à época. Apesar de seu pioneirismo, a filmografia de Adélia nunca chegou à mídia física ou ao streaming e ficou completamente apagada da história do cinema brasileiro.
Em 2013, a obra de Adélia Sampaio foi mencionada na tese Cinema na Panela de Barro: Mulheres Negras e suas narrativas de amor, afeto e identidade, defendida pela pesquisadora de cinema negro Edileuza Penha de Souza, pelo Departamento de Educação da Universidade Federal de Brasília. Como cineasta e mulher, Adélia ousou ser tratando em seus filmes de temáticas como amor, violência e problemas sociais e desenvolvendo uma narrativa fílmica como espaço de pertencimento e repleto de referências da história. A invisibilidade de sua produção está diretamente atrelada ao racismo e o machismo cinematográfico.
Atualmente, Adélia Sampaio tenta viabilizar seus novos projetos, o longa-metragem A Barca das Visitantes e os curtas Meu Nome é Carretel e Amor em Estado Terminal. Todos eles estão parados ou caminhando lentamente por falta de verba. Em entrevista para a equipe da Mostra, Adélia aborda um pouco sobre seus processos criativos e a forma como enxerga a arte realizada no Brasil.