Ana Elizabeth Siqueira, socialmente conhecida como Beth Siqueira, é engenheira agrônoma, especialista em associativismo pela Universidade Federal Rural do Pernambuco (UFRPE), mestra e doutoranda em Estudos Interdisciplinar em Mulheres, Gênero e Feminismo. Casada, mãe de três filhos, chegou na Bahia atravessando a ponte que liga Petrolina e Juazeiro para trabalhar no projeto Gente de Valor, da Companhia de Desenvolvimento e Ação Regional (CAR), empresa vinculada à Secretaria de Desenvolvimento Rural do Governo da Bahia (SDR), e hoje faz parte da equipe de gestãodo projeto Pró-Semiárido, co-financiado pelo Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola (FIDA), como assessora de gênero, atuando também em questões étnicas e raciais. Sua trajetória sempre foi ligada à agroecologia e às mulheres rurais:
“Fui convidada no primeiro momento para construir esse olhar sobre essas políticas que eram desenvolvidas pela CAR, que de alguma forma as mulheres agricultoras teriam ou não acesso. Nesse período era importante dizer que o Fida já tinha essas exigências de gênero para execução das parcerias, que elas tivessem ações, políticas e estratégias que envolvessem mais fortemente as agricultoras, uma escuta qualificada para as mulheres”.
Muitas destas mulheres agricultoras não têm a oportunidade de estudar, de serem ouvidas, às vezem nunca pararam para pensar o que é efetivamente o Estado e suas responsabilidades. Por meio do Pró-Semiárido, o Governo da Bahia deu um grande passo: mostrou que com recursos específicos é possível trabalhar diretamente com as mulheres rurais. Para isso, Elizabeth acredita que a primeira ação é ter a consciência e entender que por meio de cotas de participação essas mulheres são visibilizadas no âmbito rural. “Numa ação como o Pró-Semiárido tentamos acolher essas mulheres por meio de algumas estratégias que permitam que elas possam participar de formações, dos processos de produção, de associações, sindicatos e intercâmbios para trocas de experiências”, explica a assessora de gênero.
Para garantir a participação efetiva das mulheres, o projeto busca incluir toda a família, sejam crianças, jovens, maridos e esposas, por meio da criação de espaços como a ‘Ciranda das Crianças’, formação de jovens e encontros mistos entre homens e mulheres adultos. “Nos encontros dos homens tentamos olhar essa masculinidade pesada, dura e opressora, que faz o homem se sentir uma figura que não é real, então trabalhamos temáticas que levam eles a pensar, por exemplo, ‘homens choram?’. Essas questões fazem levantar o olhar do homem sobre as mulheres como suas companheiras de luta, não como um serviçal, mas alguém que possa compartilhar, dividir, somar e desenvolver juntos”.
Quando Elizabeth está no campo, não é uma engenheira agrônoma que chegou a ser doutora, é uma mulher que se identifica com essas mulheres, que acredita na terra e no potencial delas, que acredita que o saber é uma construção coletiva transformadora de realidades. O aprendizado mudou a vida de Beth e pode mudar a realidade de muitas outras mulheres.
“Esse projeto mexe em memórias e lembranças. Eu vim desse lugar, não foi da Bahia, mas da mata norte pernambucana, de cultivos forte de cana de açúcar. Eu sei que minha mãe precisou sonhar bastante e me fazer andar 4km para chegar numa beira de estrada para pegar um ônibus e ir estudar, e sei que o único caminho é o aprendizado. Eu tenho um compromisso social e político porque eu falo para um lugar que já estive”.
Debater, sensibilizar e atravessar pontes
Na seca do Sertão do São Francisco, em meio à vegetação rasteira, de pouca folhagem e característica da Caatinga, nasce um grupo de mulheres empoderadas, batalhadoras e que usam o Buriti como fonte de renda e vetor de desenvolvimento econômico. Elas fazem parte da Associação Comunitária do Brejo Dois Irmãos, presidida pela agricultora familiar Eliane Ribeiro.
Eliane é uma mulher rural, de 30 anos de idade, natural da comunidade Brejo Dois Irmãos, município de Pilão Arcado, casada e grávida de sete meses do seu primogênito. Desde a infância mora no campo e como ela mesmo conta, sempre esteve “na lida com o Buriti”, trabalhando com a extração e comercialização da planta, mas também da cana de açúcar, do feijão, milho e mandioca. É a segunda mais velha de cinco irmãos, todos arraigados no meio rural e até hoje trabalhadores do campo, principalmente com o Buriti, planta tradicional na região.
As histórias de Beth e Eliane ultrapassam as barreiras entre cidade grande e campo e se conectam através do Pró-Semiárido. Uma como agente executora, que faz a política pública chegar na ponta, e a outra como beneficiária de um projeto que dá condições econômicas e sociais de desenvolvimento.
“A SDR, através do Pró-Semiárido, mudou não só a minha vida, mas também das pessoas que vivem em nossa comunidade, nosso território. Antes elas faziam Buriti, mas não tinham gosto, prazer, não sabiam da importância que era o extrativismo do Buriti, o cultivo da cana em sua propriedade. Hoje, depois da chegada do Pró-Semiárido, foi construída uma pequena agroindústria em nossa comunidade, na qual a gente consegue fazer o Buriti moderno sem esquecer a tradicionalidade das nossas raízes e cada vez valorizando elas”, relata a agricultora.
Um marco da ação do Governo da Bahia foi a construção da Agroindústria de Beneficiamento de Buriti na região, com investimento no valor de R$ 438 mil e impacto direto na vida de famílias de cinco comunidades de Pilão Arcado. A unidade surge para apoiar a demanda local e possibilitar melhorias de condições de produção das trabalhadoras e dos trabalhadores, garantindo tecnologias e estruturas para que eles tenham possibilidade de acesso à mercado. Entusiasmada, Eliane conta que o Brejo Dois Irmãos “teve uma grande melhoria com a facilidade das máquinas. A agroindústria trouxe uma facilidade, uma alegria, uma novidade para nós. Com essa máquina que veio a gente se desenvolve mais”.
A transversalidade das ações executadas pelo Governo vai além do econômico e também perpassada pelo social, através do empoderamento, aumento da autoestima e consciência das mulheres das comunidades, como conta a presidenta: “desenvolveram um papel muito importante voltado para o extrativismo do Buriti e também da valorização da mulher, da cultura local. Hoje a comunidade tem uma autoestima bem maior e em relação à mulher foi trabalhada muito a questão de gênero. Nós como mulheres hoje temos a nossa identidade bem constituída e a comunidade já não vive mais como antes, acreditando em alguns valores que os homens passavam para a gente. Foi desenvolvida essa noção em nossa cabeça: a valorização de nós como mulheres, nós como brejeiras, nós como pessoas tradicionais da roça, mas que temos nosso grande valor”.
Essa reportagem faz parte de uma série de matérias especiais que sairão ao longo deste mês de março como reconhecimento da Secretaria de Desenvolvimento Rural (SDR) às mulheres que contribuem com as políticas de fortalecimento da agricultura familiar, transformando vidas e realidades de famílias baianas.
Fotos: Lucas Gonçalves/SDR e Fábio Arruda/CAR