Vozes do Campo: Pessoas LGBTQIAP+ e a luta por direitos e visibilidade

17/05/2023

Neste 17 de Maio, Dia Internacional de Combate À LGBTFOBIA, a SDR conta as vivências de Samille Ferreira e Arthur Felipe, LGBTs que nasceram no campo e precisam, além de enfrentar os estereótipos de serem pessoas da zona rural, lutar contra as violências LGBTfóbicas no país que mais mata LGBTQIAP+ no mundo.

Samille Ferreira, moradora da comunidade de Desterrodo Alto Alegre, foi estudante da Escola Família Agrícola (EFA) do município de Monte Santo, território do Sisal. Primeira mulher transexual a ocupar um espaço na EFA, mesmo diante dos desafios impostos pelo local em que nasceu e cresceu, ela explica: “não foi fácil, foi complicado, mas eu consegui. O meu TCC foi sobre a inclusão de mulheres transexuais no mercado de trabalho, porque é difícil ser uma pessoa trans no ambiente rural. Quando você é um gay que se esconde, que não se assume para a sociedade, fica muito mais fácil viver nesse ambiente. Quando você é uma mulher trans, que passa pelo processo de transição de gênero, fica mais complicado conseguir trabalho. É aí que acontece o êxodo rural: muitas saem de suas comunidades para os centros urbanos”.

‘Não existe população LGBTQIAP+ na zona rural’, esse era o discurso comum, na tentativa de reforçar o campo como espaço conservador, onde não cabe LGBTs ou onde essas pessoas não devam expressar suas sexualidades e identidades. Tentando contrapor e quebrar estes antigos paradigmas, hoje a SDR já conta com ações, dentro de seus projetos e programas, que pautam a inclusão e respeito de LGBTs, mulheres e de povos e comunidades tradicionais.

Arthur Felipe é assentado da Reforma Agraria, técnico agrícola e graduando em Tecnologias de Alimentos pela Universidade Federal do Recôncavo Baiano (UFRB), e reforça alguns dos desafios também enfrentados por Samille. “A minha relação é positiva, mas insegura. Dentro da minha comunidade sou o único LGBT declarado. No campo algumas pessoas, principalmente as mais velhas, ainda carregam essa carga machista, então o que eu falar pode gerar propagações positivas ou negativas. Hoje sou universitário e sempre trago esse conhecimento para a comunidade nas atividades de retorno, desde a época da EFA”.

A invisibilidade ocorre quando as pessoas LGBTs são ignoradas ou não reconhecidas em sua identidade sexual ou de gênero. Isso pode acontecer em diferentes contextos, como na família, no trabalho, nas instituições de ensino e na comunidade em geral. Nos centros urbanos, muitos deles têm possibilidades de se expressar mais livremente em espaços culturais, de formação, de acolhimento ou ainda de atendimento às suas demandas.

REDE DE APOIO

A promoção da visibilidade LGBT no campo deve ser um esforço contínuo e inclusivo, envolvendo a participação ativa do poder público e da sociedade civil. O respeito, a empatia e o diálogo aberto são fundamentais para a criação de comunidades rurais mais acolhedoras e inclusivas. Pessoas LGBTQIAP+ que fazem parte desses espaços podem gerar riquezas e contribuir com o fortalecimento de suas comunidades. “Acreditem sempre no processo, é lento, mas com determinação e foco nós chegamos lá”, conclui Samille Ferreira, que rompeu com realidades marcadas por violências e impedimentos, principalmente relacionados à educação.

Para Felipe, a criação de redes de apoio e organizações locais pode ser uma maneira eficaz de combater a invisibilidade e a LGBTfobia, fornecendo suporte emocional, orientação e inclusão em políticas já existentes com cotas para LGBTs. “É preciso se organizar por conselhos, coletivos, fazendo uma análise territorial para identificar suas pautas específicas e demandas das comunidades”.

O Governo da Bahia conta com uma Coordenação Estadual LGBT e um Centro de Promoção e Defesa dos Diretos da População LGBT (CPDD/LGBT), sediado na cidade de Salvador (Rua do Tijolo, nº 8, Centro), e também realiza atendimento remoto pelo Whatsapp (71) 99931.0329 ou pelo e-mail atendimento.lgbt@sjdh.ba.gov.br.

Galeria: