É tempo de colher Pequi
Nas estradas da região oeste da Bahia, é tempo de os moradores nativos montarem suas barraquinhas e vender pequi, que precisa, apenas, ser colhido. O fruto é um dos mais fortes produtos extrativistas em solos de cerrado, com tradição também em Goiás, Minas Gerais, Ceará, Piauí e demais estados com incidência
do bioma.
Fruto que desperta reações extremas ou se ama ou se odeia -, pelo cheiro e sabor fortes, o pequi (Caryocar brasiliense), nativo do cerrado brasileiro, tem diversas utilidades, além da alimentação. Entre elas, a produção de óleo para a fabricação de cosméticos e sabões. Também pouco divulgada é sua riqueza medicinal. Dentre os poderes atribuídos ao pequi está o de antioxidante, recomendado para combater os temíveis radicais livres, causadores de doenças.
"Este ano deu mais pequi que no ano passado. Chegou a R 3 a dúzia. Agora, estamos vendendo o saquinho com 20 unidades a
R 2", explica a produtora rural Ironete dos Santos Jesus, 39 anos, justificando a queda no preço. Moradora da comunidade Alto da Bela Vista, distante 20 km do centro de Barreiras, há dez anos ela vende pequi na margem da BR-242, sentido Brasília/Salvador, e revela faturar entre R 50 a R 60 por dia, em média, neste período.
Rendimento - Da mesma comunidade, Juarez Queiroz de Oliveira, 45 anos, vende o saco com 100 unidades a R 20 e afirma que tem um rendimento bom, sem, no entanto, falar em números. Sua clientela é de revendedores no varejo em Barreiras e viajantes, tanto com destino a Salvador quanto à Região Sudoeste. Ele explica que o fruto deve ser apanhado no chão, pois só aí está maduro. "Se arrancar do pé, fica amargo. Não presta para comer", ensina.
O pequi tem como característica peculiar o cheiro, que pode ser sentido a distância, denunciando a existência do fruto descascado ou em cozimento. E essa característica tão marcante causa repulsa por parte dos que não gostam da iguaria nativa. O que não é o caso da professora Maria Francisca, 46 anos.
"Eu amo o cheiro e o gosto do pequi. Aprecio desde que cheguei a Barreiras. Quando vou à feira aos sábados, sinto o cheiro de longe. Compro logo que aparece, mesmo sendo mais caro no início da temporada, pois ainda está escasso", confessa.
Feirante do Centro de Abastecimento de Barreiras, Marcelo Torres, 24 anos, conta, sem parar de descascar o fruto, que é imediata a reação das pessoas ao cheiro do fruto, depois de descascado, ou seja, após a retirada da proteção externa do caroço. "Nunca se deve morder o fruto, apenas raspar, pois protegendo o miolo (castanha) tem espinhos perigosos, que podem provocar graves ferimentos", aconselha.
Remédio - "Na região de cerrado é comum a utilização do óleo de pequi como expectorante, anti-reumático, cicatrizante (queimaduras de pele) e tônico", revela o raizeiro Manuel do Pichuri, 32 anos, um dos revendedores do Centro de Abastecimento de Barreiras de toda sorte de substâncias utilizadas tradicionalmente pelos moradores da região para a cura de doenças.
"Desde criança convivo com esse serviço, que aprendi com meu pai no tempo da feira livre perto do cais, no centro antigo da cidade", diz, para explicar seu conhecimento sobre o assunto. Ele destaca que não se limitou ao aprendizado oral passado de geração para geração nas famílias que há mais de 300 anos ocupam o interior do Brasil. O raizeiro costuma atualizar a leitura sobre o poder de determinados elementos da natureza para melhor orientar sua clientela.
Óleo - Sobre o óleo de pequi (forma mais primitiva da utilização do fruto como remédio), Manuel ressalta que tem grande aceitação, inclusive com compradores de outros estados. "Principalmente de São Paulo, onde revendem no varejo", diz e acrescenta que também existe mercado para exportação.
"Os modernos podem falar o que quiserem, mas não tem nada melhor do que mel com óleo de pequi para curar uma tosse braba", garante a aposentada Laura dos Santos, 81 anos. "Quando eu era criança, os médicos eram poucos, e os medicamentos estavam longe do alcance dos moradores do interior, obrigando a pessoa a procurar recursos na natureza", relembra.
Na maioria das propriedades que fabricam o óleo de pequi são utilizados métodos rudimentares, com o cozimento dos frutos em grandes tachos, o que encarece o produto final e ainda inviabiliza sua utilização, por exemplo, no biodiesel.
Entretanto, diversos estudos estão sendo feitos para melhorar o processo de industrialização e para o aproveitamento também em xampus, batons e cremes para a pele, considerando que os ácidos graxos presentes na sua composição são importantes para a manutenção da boa hidratação cutânea.