Asfalto vai ser usado como fonte de energia

17/08/2008
Andar descalço no asfalto em um dia de muito sol está longe de ser uma boa idéia, mas foi o ponto de partida dos cientistas do Instituto Politécnico Worcester, nos Estados Unidos. Não que eles tenham queimado os pés.

O que fizeram foi buscar uma maneira de usar o calor acumulado no chão como uma possível fonte alternativa de energia. Os pesquisadores estão desenvolvendo um coletor solar que poderá transformar estradas ou estacionamentos em centrais para geração de eletricidade.

O trabalho não apenas busca avaliar como o asfalto coleta a energia solar, mas quais são as formas mais eficientes de aplicação de pavimentos de modo a maximizar a capacidade de absorção do calor.

SIMPÓSIO - Os resultados do estudo, coordenado por Rajib Mallick, professor de engenharia civil e ambiental, serão apresentados, nesta segunda-feira (18), no Simpósio Anual para Pavimentos Asfálticos, na Suíça.

Mallick e colegas estudaram o potencial de geração de energia do asfalto por meio de modelos computacionais e fizeram diversos testes em campo e em laboratório. Os pesquisadores usaram sensores embutidos no pavimento ou em amostras para medir a penetração do calor e a transmissão para o aquecimento de água. A água, apontam, pode ser usada para o aquecimento de edifícios ou em processos industriais. Pode também ser usada em geradores termelétricos para produção de eletricidade.

O uso do asfalto como coletor solar tem uma série de vantagens. `Por exemplo, a cobertura permanece quente e pode continuar a gerar energia mesmo depois do pôr-do-sol, o que não ocorre com as placas fotovoltaicas. Além disso, contamos com uma quantidade enorme de estradas e estacionamentos, ou seja, não há necessidade de uso de novos terrenos?`, disse Mallick.

ILHAS DE CALOR - Outra vantagem apontada pelo pesquisador é que a extração de calor do asfalto reduziria o efeito de formação de ilhas de calor em áreas urbanas, diminuindo o consumo de eletricidade por meio de aparelhos de ar-condicionado.

Segundo o cientista, a instalação do sistema em estradas tende a ser mais complexa do que em estacionamentos, pela instabilidade no pavimento causada pelo contínuo movimento e peso dos veículos que trafegam nas rodovias. A idéia do estudo partiu de Michael Hullen, da empresa Novotech e um dos autores do estudo.

Segundo Mallick, embora o potencial aproveitamento do asfalto na retenção do calor já tenha sido mencionado em outros estudos, ele e sua equipe não encontraram um que detalhasse o funcionamento do sistema de forma prática.

CUSTO - O sistema teria um custo entre US$ 20 e US$ 50 por metro quadrado e teria capacidade de gerar até 800 kW/h por dia durante seis meses do ano no Estado de New England, onde os cálculos foram feitos. Regiões com maiores incidências de radiação solar, como Califórnia e Arizona, no caso dos Estados Unidos, poderiam gerar ainda mais energia, pelo mesmo custo. Mallick diz que pelo fato de ter muita radiação solar, o Brasil seria um dos grandes beneficiados do desenvolvimento comercial da tecnologia.

O cientista ressalva, porém, que `tudo foi feito numa base teórica` e que mais estudos precisarão ser feitos. O sistema poderia ser usado para aeroportos, shoppings, hotéis e prédios comerciais, entre outros grandes consumidores de energia que poderiam atender à sua demanda sem o uso de energia elétrica.

Além de gerar energia, o sistema pode também reduzir as altas temperaturas do asfalto, aliviando o fenômeno das ilhas de calor, que resulta da substituição de plantas por concreto e outros materiais que absorvem calor. Para tanto, Mallick e dois dos seus colegas no primeiro trabalho, elaboraram um outro estudo em que propõem usar o mesmo sistema de canos com líquidos para baixar a temperatura da superfície do asfalto e para gerar energia. O estudo sobre a captura de energia solar foi financiado com bolsa do Massachusetts Technology Development, mas os cientistas estão em busca de mais financiamento para dar continuidades aos estudos e aperfeiçoar o modelo.

TEMPERATURA - Não existe pesquisa sobre o assunto, mas cientistas acreditam que a fritura de um ovo no asfalto deva ocorrer à temperatura de 60º C. Em dias quentes de verão, o processo se dá ainda mais facilmente. Numa cidade como o Rio de Janeiro, por exemplo, dá para alcançar essa temperatura quando a temperatura ambiente está a cerca de 40º C. Esta temperatura, geralmente, fica ainda mais alta devido à capacidade do asfalto de concentrar calor.

Para que a fritura ocorra, é melhor que o ovo esteja no asfalto - ele é preto, não reflete nenhum espectro de luz solar e vai absorvendo o calor lentamente. Também a umidade do ar precisa estar baixa.

Fonte: Jornal A Tarde

17/08/08