Petrobras diz à Bolívia que não abre mão de gás

15/02/2008
O presidente da Petrobras, José Sérgio Gabrielli, disse que a estatal não vai abrir mão dos 30 milhões de metros cúbicos de gás que importa por dia da Bolívia. Na véspera, o vice da Bolívia, García Linera, dissera ao presidente Lula que não tinha como entregar o produto.

Um dia depois de comunicar ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva que não teria condições de fornecer todo o gás de que o Brasil necessita, o vice-presidente da Bolívia, Álvaro García Linera, ouviu do presidente da Petrobras, José Sérgio Gabrielli, que a empresa não vai abrir mão dos 30 milhões de metros cúbicos m/dia previstos no Acordo de Fornecimento de Gás. A reunião na sede da estatal, no Rio, durou pouco mais de três horas e, ao final, a Petrobras divulgou sua decisão.

Em comunicado, a empresa anunciou que está `impossibilitada de reduzir a demanda do volume máximo de 30 milhões de metros cúbicos/dia de gás natural previsto no contrato de compra firmado com a estatal boliviana (YPFB), mais o volume de gás necessário à operação do sistema`.

Além de García Linera, estiveram no encontro os ministros de Hidrocarbonetos, Carlos Villegas, e o da Fazenda, Luiz Arce. Eles foram recebidos por Gabrielli e a diretora de Gás e Energia, Maria das Graças Foster, entre outros executivos.

Ex-diretor da ANP: Bolívia poderia beneficiar Argentina

A comitiva boliviana desembarcou no Brasil na última quarta-feira e no mesmo dia comunicou ao presidente Lula que a Bolívia só teria condições de garantir a oferta equivalente ao consumo histórico médio do Brasil, de 27 milhões a 29 milhões de m diários. Volumes adicionais, segundo García Linera, só seriam possíveis no fim do ano, quando haverá disponibilidade extra entre 2 milhões e 3 milhões de m diários.

Nesse mesmo encontro, García Linera informou ao presidente Lula que, na hipótese de uma oferta extra, esta teria que ser repartida entre brasileiros e argentinos. A situação é crítica, já que, em caso de inverno rigoroso, tanto aqui quanto na Argentina, aumenta o consumo de gás. No ano passado, esse consumo no Brasil ficou entre 30 milhões e 31 milhões de m por dia.

A insinuação de García Linera de que o volume extra teria de ser repartido entre os dois países vizinhos - o assunto será debatido num encontro no próximo dia 23 - levou executivos do setor de energia a questionar se a Bolívia não estaria aproveitando o fato de estar no limite da sua produção para faturar mais com a Argentina.

- Não descarto a hipótese de os bolivianos, neste momento de escassez do produto, estarem privilegiando a venda de gás para a Argentina, já que eles pagam mais pelo produto - afirmou David Zylbersztajn, da DZ Negócios com Energia e ex-diretor-geral da Agência Nacional do Petróleo (ANP).

Os problemas com a Bolívia começaram em 2006, quando o governo de Evo Morales nacionalizou, no dia 1º de maio, as reservas de petróleo e gás, obrigando a Petrobras a se retirar das áreas de distribuição e refino. A empresa hoje está presente no país vizinho apenas na produção de gás.

No mesmo comunicado em que exige o cumprimento do contrato, a Petrobras anunciou que foram discutidas as condições para investimentos no país e `os recursos previstos para os campos de San Alberto e San Antonio, onde a companhia já atua, e atividades exploratórias no campo de Ingre, já iniciadas`.

Bolivianos pedem apoio financeiro do BNDES

Antes de seguir para a reunião na Petrobras, García Linera e sua comitiva estiveram, pela manhã, no Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico Social (BNDES), onde foram recebidos pelo presidente da instituição, Luciano Coutinho. A presidente da Agência Boliviana de Carreteras (ABC), Patricia Ballivian, apresentou o projeto de construção de uma rodovia ligando La Paz a Pando e Beni, num total de 847 quilômetros de estrada.

A participação do banco seria através do BNDES-Exim, uma linha de financiamento às exportações de bens e serviços, através da qual o banco financia empresas brasileiras interessadas em atuar fora do país. A estrada, também conhecida como Hacia El Norte, inclui dois trechos: 337 quilômetros, de Porvenir a El Chorro, e os outros 510 quilômetros, de Rurrenavaque a Ribaralta. O investimento necessário chega a US$430 milhões.

Repórter: Liana Melo

Fonte: O Globo

Em 15/02/2008