A TRIP ganha altitude

08/09/2008
EM 1995, O EMPRESÁRIO José Mario Caprioli, então com 25 anos, surpreendeu o patriarca da família com a seguinte proposta: `Pai, vamos abrir uma empresa aérea regional`. Entre incrédulo e assustado, Antonio Augusto Caprioli disse um rotundo não. Afinal, o clã possuía uma longa tradição no segmento de transporte rodoviário e não fazia sentido entrar em uma área desconhecida, intensiva de capital e na qual muitos fracassaram. Zé Mario, como ele é mais conhecido, não desanimou. Montou um minucioso plano de negócios para defender seu ponto de vista. O trabalho ficou tão bem feito que a família topou levar a empreitada adiante. Na quinta- feira 4, ele anunciou o acordo com a gigante americana SkyWest Inc. A maior potência da aviação regional do planeta, com faturamento de US$ 3,37 bilhões, vai pagar US$ 30 milhões por 20% do capital da Trip. O montante será repassado em três anos. Com isso, os americanos terão direito a um assento no conselho de administração da empresa. Mais que uma injeção de capital, a SkyWest dará à Trip o acesso a uma moderna tecnologia de gestão do setor. Sem contar a possibilidade de negociar, em melhores condições, os contratos de seguro e de manutenção de suas aeronaves. `Foi um casamento perfeito`, diz José Mario Caprioli. Entre namoro e noivado foram 16 meses.

Com o respaldo da SkyWest, a primeira aérea estrangeira a se tornar acionista de uma empresa do setor no Brasil, Zé Mario poderá ampliar ainda mais os horizontes de sua pequena Trip. Uma das alternativas é explorar rotas no Mercosul, mas sempre longe dos grandes centros. `Hoje, um fazendeiro de Dourados (MS), com negócios no Paraguai, precisa vir para São Paulo para chegar em Assunção`, exemplifica Zé Mario. A Trip começou a ser idealizada em 1990, durante uma temporada de estudos nos EUA. Formado em administração, Zé Mario pretendia seguir carreira no mercado financeiro. Fez até um curso sobre o tema na Columbia University, em Nova York. Mudou de idéia quando se debruçou sobre o fenômeno de expansão da aviação regional nos Estados Unidos e na Europa. `Vislumbrei que a substituição do trem e do ônibus pelo avião, para viagens de média e longa distância, também poderia ser possível no Brasil.` Voltou ao País decidido a montar a Trip. Afável no trato pessoal e adepto do estilo de gestão participativa, Zé Mario é um gestor que valoriza o funcionário que `veste a camisa`. Marca, aliás, comum do Grupo Caprioli, em cujas empresas não é difícil encontrar profissionais que atuam há mais de 40 anos. Para compensar a falta de conhecimento em áreas técnicas, Zé Mario foi atrás do que existia de melhor no mercado. `Boa parte dos meus executivos são graduados pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica`, conta.

Outro grande ativo de Zé Mario é a capacidade de fazer alianças estratégicas. Em 2006, ele vendeu metade do controle ao Grupo Águia Branca, especializado em logística e que fatura R$ 2,2 bilhões. Com isso, ganhou fôlego para avançar sobre a rival Total Linhas Aéreas, adquirida em novembro do ano passado. A Trip também se aliou à TAM, para a qual transporta passageiros em conexões no interior dos Estados do Centro- Oeste. Segundo Renan Chieppe, do grupo Águia Branca, a expectativa é de que a Trip feche 2008 com ganho operacional de R$ 50 milhões, seu primeiro resultado positivo. `A Trip reúne todas as credenciais para ser um personagem importante desse setor. Tem capital para investir e um foco definido de atuação`, avalia Paulo Sampaio, especialista em aviação. `Exatamente o contrário dos empresários que se aventuraram nessa área e quebraram a cara`, completa.

Repórter: ROSENILDO GOMES FERREIRA

Fonte: Revista Isto é Dinheiro, num. 0571

6/9/2008.