22/08/2008
O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) negocia com o Tesouro um reforço de R$ 15 bilhões para atender a demanda por financiamento neste ano, além dos R$ 12,5 bilhões que recebeu a título de empréstimo do próprio Tesouro no primeiro semestre. A diretoria do banco também discute com um grupo de ministros como resolver os problemas de funding para os próximos anos, dada a expectativa de procura crescente por financiamentos.
A solução visível, hoje, é lançar mão de parte dos recursos do Fundo Soberano do Brasil (FSB), cujo projeto de criação tramita no Congresso, indicou o ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, ao Valor. Ele lembrou que isso esteve na origem da discussão do FSB, mas a crise externa e o receio de uma aceleração inflacionária foram mudando o formato do fundo.
`A orientação do presidente Lula é de abastecermos de financiamentos a indústria, financiar seus projetos de expansão. Só para os projetos privados de infra-estrutura do PAC o BNDES está emprestando este ano quase R$ 40 bilhões. O debate que temos no governo é como suprir o funding do banco`, diz Bernardo.
Apesar de o dinheiro do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT), a principal fonte de recursos do banco, estar crescendo bastante, ele não seria suficiente para cobrir o buraco entre a oferta e a demanda por financiamentos, que hoje beira R$ 40 bilhões.
Só de apropriação de dividendos devidos ao Tesouro o BNDES obteve mais de R$ 10 bilhões entre 2006 e 2007. O Ministério do Planejamento, no entanto, encomendou às empresas estatais, este ano, R$ 5 bilhões a mais em pagamento de dividendos sobre o realizado em 2007, para cumprir a meta de superávit primário deste ano. Diante disso, o ministro não sabe se o governo poderá novamente dispensar o BNDES do pagamento de dividendos.
Técnicos do Tesouro montam uma engenharia financeira para transferir do FGTS para o BNDES algo como R$ 10 bilhões a R$ 15 bilhões em papéis conhecidos como títulos CVS, que são emitidos pelo Tesouro para quitar dívidas dos subsídios concedidos pelo antigo Sistema Financeiro da Habitação à medida que vão vencendo os prazos dos financiamentos. Fundo Soberano pode reforçar o BNDES
O BNDES recebeu do presidente Lula a missão de abastecer com financiamentos os projetos privados de expansão industrial, os projetos privados de infra-estrutura no âmbito do Plano de Aceleração do Crescimento (PAC), e os empreendimentos das empresas brasileiras no mercado externo. Mas falta resolver um grande problema: o banco ter `funding` para atender a toda essa demanda. O ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, que faz parte do grupo de ministros que discute soluções para completar o orçamento do banco este ano e, também, criar alternativas para o futuro, disse que a diretoria do BNDES está negociando mais uns R$ 15 bilhões com o Tesouro Nacional para completar seu orçamento este ano. Isso, além dos R$ 12,5 bilhões que o banco já obteve no início do ano em empréstimos junto ao Tesouro, em condições ainda desconhecidas.
Para os próximos anos, a alternativa mais visível é usar parte dos recursos do Fundo Soberano do Brasil (FSB), cujo projeto de criação tramita no Congresso, para prover o BNDES.
O FSB, quando aprovado, já terá R$ 14,5 bilhões do superávit adicional de 0,5% do Produto Interno Bruto deste ano, terá outro tanto em 2009, também fruto do superávit adicional de 0,5% do PIB à meta de 3,8% do PIB que o governo se comprometerá a fazer, e ainda deverá receber recursos provenientes das receitas com a exploração do petróleo na camada pré-sal.
Após anos de baixo crescimento econômico no país e orçamento contido do BNDES, a demanda por financiamentos do banco, nos últimos três anos, cresceu acima da capacidade de suprimento da sua principal fonte de recursos, o Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT), capitalizado com o PIS/Pasep. A expectativa do banco é de que a procura por financiamentos ainda continue crescendo bastante nos próximos dois anos.
Segundo dados do Banco Central, o saldo das operações de crédito do banco passou de R$ 138,9 bilhões em 2006 para R$ 159,9 bilhões em 2007, e neste ano, até junho, R$ 174,32 bilhões. Nos 12 meses até junho, o crescimento do estoque foi de 25%. Já os desembolsos somaram R$ 32,3 bilhões nos cinco primeiros meses deste ano, com crescimento de 69,7% sobre igual período de 2007.
Em 2006 e 2007 o governo dispensou o BNDES de pagar dividendos ao Tesouro Nacional, o que representou mais de R$ 10 bilhões de dinheiro disponível para a instituição atender a demanda por financiamentos, pelos quais as empresas pagam a TJLP de 6,25% mais `spread` (bem abaixo, portanto, dos 13% ao ano da Selic e das taxas de mercado). `Aquela foi uma medida transitória`, comentou o ministro. Banco precisa de mais R$ 15 bi este ano
Para este ano, ao elevar o superávit primário em 0,5% do Produto Interno Bruto (PIB), o Planejamento encomendou às empresas estatais R$ 5 bilhões a mais em pagamento de dividendos sobre o que foi recolhido no ano passado. Diante dessa incumbência, o ministro não sabe se o governo poderá novamente dispensar o BNDES do pagamento de dividendos. Mas disse que a área econômica está estudando formas de resolver o problema de 2008 e procurando soluções mais definitivas para os próximos anos.
Para resolver os problemas de caixa do banco este ano, técnicos do Tesouro montam uma engenharia financeira para transferir do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) para o BNDES algo como R$ 10 bilhões a R$ 15 bilhões em títulos conhecidos com CVS, que são emitidos pelo Tesouro para quitar dívidas dos subsídios concedidos pelo antigo Sistema Financeiro da Habitação, na medida que vão vencendo os prazos dos financiamentos do SFH. Já para um horizonte mais largo, a alternativa mais à mão, hoje, seria usar uma parte dos recursos do Fundo Soberano, aponta Paulo Bernardo. Ele lembra que, originalmente, o FSB começou a ser discutido exatamente como um mecanismo para dar maior fôlego ao BNDES. A crise externa e o temor da aceleração da inflação foram alterando o formato do fundo, dando-lhe um caráter de política fiscal anticíclica. Mas nada impede o governo, segundo o ministro, de destinar uma parcela dos recursos do fundo para o BNDES, assim como faz com o Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT), que transfere 40% de sua receita para o banco.
`Na última reunião que tivemos, o Lupi (ministro do Trabalho, Carlos Lupi) informou que os recursos do FAT estão aumentando muito`, indicou. Mas isso não será suficiente para cobrir o buraco entre a oferta e a demanda por financiamentos do banco, que hoje beira R$ 40 bilhões.
`A orientação do presidente Lula é de abastecermos de financiamentos a indústria, financiar seus projetos de expansão. Só para os projetos privados do PAC o BNDES está emprestando este ano quase R$ 40 bilhões. O debate que temos no governo é como suprir o `funding` do banco`, sintetiza o ministro.
Antes de se pensar no projeto do Fundo Soberano, o presidente da República havia colocado para a área econômica do governo o desafio de encontrar recursos para financiar as empresas brasileiras no exterior, `seja para exportação de serviços, para construir pontes, estradas, ferrovias, metrôs, ou para financiar a compra de parte da mineradora canadense Inco pela Vale. A idéia inicial do FS partiu disso e, na sua origem, ele seria operacionalizado pelo BNDES`, relata.
`Estamos fazendo esse debate, dando uma solução para este ano e pensando alternativas para o futuro, cuidando dos impactos nos gastos primários da União`, disse.
Numa gestão ortodoxa, o governo diria que, se acabou o dinheiro barato do BNDES, acabaram também os financiamentos a juros módicos para as empresas privadas. No governo Lula, não é assim. Neste, o papel do BNDES é ser `o banco de desenvolvimento`, arremata o ministro. Em nome da transparência da política fiscal, seria importante o governo deixar claro, porém, qual é o tamanho do subsídio embutido nas operações do BNDES, que respondem por mais da metade do crédito direcionado no país. Este soma, atualmente, R$ 303,89 bilhões.
Claudia Safatle é diretora de redação adjunta e escreve às sextas-feiras.
Repórter: Claudia Safatle
Fonte: Valor Econômico
22/8/2008.
A solução visível, hoje, é lançar mão de parte dos recursos do Fundo Soberano do Brasil (FSB), cujo projeto de criação tramita no Congresso, indicou o ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, ao Valor. Ele lembrou que isso esteve na origem da discussão do FSB, mas a crise externa e o receio de uma aceleração inflacionária foram mudando o formato do fundo.
`A orientação do presidente Lula é de abastecermos de financiamentos a indústria, financiar seus projetos de expansão. Só para os projetos privados de infra-estrutura do PAC o BNDES está emprestando este ano quase R$ 40 bilhões. O debate que temos no governo é como suprir o funding do banco`, diz Bernardo.
Apesar de o dinheiro do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT), a principal fonte de recursos do banco, estar crescendo bastante, ele não seria suficiente para cobrir o buraco entre a oferta e a demanda por financiamentos, que hoje beira R$ 40 bilhões.
Só de apropriação de dividendos devidos ao Tesouro o BNDES obteve mais de R$ 10 bilhões entre 2006 e 2007. O Ministério do Planejamento, no entanto, encomendou às empresas estatais, este ano, R$ 5 bilhões a mais em pagamento de dividendos sobre o realizado em 2007, para cumprir a meta de superávit primário deste ano. Diante disso, o ministro não sabe se o governo poderá novamente dispensar o BNDES do pagamento de dividendos.
Técnicos do Tesouro montam uma engenharia financeira para transferir do FGTS para o BNDES algo como R$ 10 bilhões a R$ 15 bilhões em papéis conhecidos como títulos CVS, que são emitidos pelo Tesouro para quitar dívidas dos subsídios concedidos pelo antigo Sistema Financeiro da Habitação à medida que vão vencendo os prazos dos financiamentos. Fundo Soberano pode reforçar o BNDES
O BNDES recebeu do presidente Lula a missão de abastecer com financiamentos os projetos privados de expansão industrial, os projetos privados de infra-estrutura no âmbito do Plano de Aceleração do Crescimento (PAC), e os empreendimentos das empresas brasileiras no mercado externo. Mas falta resolver um grande problema: o banco ter `funding` para atender a toda essa demanda. O ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, que faz parte do grupo de ministros que discute soluções para completar o orçamento do banco este ano e, também, criar alternativas para o futuro, disse que a diretoria do BNDES está negociando mais uns R$ 15 bilhões com o Tesouro Nacional para completar seu orçamento este ano. Isso, além dos R$ 12,5 bilhões que o banco já obteve no início do ano em empréstimos junto ao Tesouro, em condições ainda desconhecidas.
Para os próximos anos, a alternativa mais visível é usar parte dos recursos do Fundo Soberano do Brasil (FSB), cujo projeto de criação tramita no Congresso, para prover o BNDES.
O FSB, quando aprovado, já terá R$ 14,5 bilhões do superávit adicional de 0,5% do Produto Interno Bruto deste ano, terá outro tanto em 2009, também fruto do superávit adicional de 0,5% do PIB à meta de 3,8% do PIB que o governo se comprometerá a fazer, e ainda deverá receber recursos provenientes das receitas com a exploração do petróleo na camada pré-sal.
Após anos de baixo crescimento econômico no país e orçamento contido do BNDES, a demanda por financiamentos do banco, nos últimos três anos, cresceu acima da capacidade de suprimento da sua principal fonte de recursos, o Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT), capitalizado com o PIS/Pasep. A expectativa do banco é de que a procura por financiamentos ainda continue crescendo bastante nos próximos dois anos.
Segundo dados do Banco Central, o saldo das operações de crédito do banco passou de R$ 138,9 bilhões em 2006 para R$ 159,9 bilhões em 2007, e neste ano, até junho, R$ 174,32 bilhões. Nos 12 meses até junho, o crescimento do estoque foi de 25%. Já os desembolsos somaram R$ 32,3 bilhões nos cinco primeiros meses deste ano, com crescimento de 69,7% sobre igual período de 2007.
Em 2006 e 2007 o governo dispensou o BNDES de pagar dividendos ao Tesouro Nacional, o que representou mais de R$ 10 bilhões de dinheiro disponível para a instituição atender a demanda por financiamentos, pelos quais as empresas pagam a TJLP de 6,25% mais `spread` (bem abaixo, portanto, dos 13% ao ano da Selic e das taxas de mercado). `Aquela foi uma medida transitória`, comentou o ministro. Banco precisa de mais R$ 15 bi este ano
Para este ano, ao elevar o superávit primário em 0,5% do Produto Interno Bruto (PIB), o Planejamento encomendou às empresas estatais R$ 5 bilhões a mais em pagamento de dividendos sobre o que foi recolhido no ano passado. Diante dessa incumbência, o ministro não sabe se o governo poderá novamente dispensar o BNDES do pagamento de dividendos. Mas disse que a área econômica está estudando formas de resolver o problema de 2008 e procurando soluções mais definitivas para os próximos anos.
Para resolver os problemas de caixa do banco este ano, técnicos do Tesouro montam uma engenharia financeira para transferir do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) para o BNDES algo como R$ 10 bilhões a R$ 15 bilhões em títulos conhecidos com CVS, que são emitidos pelo Tesouro para quitar dívidas dos subsídios concedidos pelo antigo Sistema Financeiro da Habitação, na medida que vão vencendo os prazos dos financiamentos do SFH. Já para um horizonte mais largo, a alternativa mais à mão, hoje, seria usar uma parte dos recursos do Fundo Soberano, aponta Paulo Bernardo. Ele lembra que, originalmente, o FSB começou a ser discutido exatamente como um mecanismo para dar maior fôlego ao BNDES. A crise externa e o temor da aceleração da inflação foram alterando o formato do fundo, dando-lhe um caráter de política fiscal anticíclica. Mas nada impede o governo, segundo o ministro, de destinar uma parcela dos recursos do fundo para o BNDES, assim como faz com o Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT), que transfere 40% de sua receita para o banco.
`Na última reunião que tivemos, o Lupi (ministro do Trabalho, Carlos Lupi) informou que os recursos do FAT estão aumentando muito`, indicou. Mas isso não será suficiente para cobrir o buraco entre a oferta e a demanda por financiamentos do banco, que hoje beira R$ 40 bilhões.
`A orientação do presidente Lula é de abastecermos de financiamentos a indústria, financiar seus projetos de expansão. Só para os projetos privados do PAC o BNDES está emprestando este ano quase R$ 40 bilhões. O debate que temos no governo é como suprir o `funding` do banco`, sintetiza o ministro.
Antes de se pensar no projeto do Fundo Soberano, o presidente da República havia colocado para a área econômica do governo o desafio de encontrar recursos para financiar as empresas brasileiras no exterior, `seja para exportação de serviços, para construir pontes, estradas, ferrovias, metrôs, ou para financiar a compra de parte da mineradora canadense Inco pela Vale. A idéia inicial do FS partiu disso e, na sua origem, ele seria operacionalizado pelo BNDES`, relata.
`Estamos fazendo esse debate, dando uma solução para este ano e pensando alternativas para o futuro, cuidando dos impactos nos gastos primários da União`, disse.
Numa gestão ortodoxa, o governo diria que, se acabou o dinheiro barato do BNDES, acabaram também os financiamentos a juros módicos para as empresas privadas. No governo Lula, não é assim. Neste, o papel do BNDES é ser `o banco de desenvolvimento`, arremata o ministro. Em nome da transparência da política fiscal, seria importante o governo deixar claro, porém, qual é o tamanho do subsídio embutido nas operações do BNDES, que respondem por mais da metade do crédito direcionado no país. Este soma, atualmente, R$ 303,89 bilhões.
Claudia Safatle é diretora de redação adjunta e escreve às sextas-feiras.
Repórter: Claudia Safatle
Fonte: Valor Econômico
22/8/2008.