03/07/2007
Ao completar seis meses da administração Jaques Wagner, a Tribuna da Bahia ouviu do próprio governador a avaliação deste período. Para isso, designou o editor de Política, Janio Lopo, que entrevistou Wagner por mais de uma hora. O governa¬dor, que tenta implantar uma nova cultura política na Bahia, falou sobre tudo: educa¬ção, programas sociais, planos para o futuro, política, segurança pública, infra-es¬trutura e saúde. O governador, que em suas declarações à Tribuna da Bahia voltou a condenar a greve dos professores, anunciou que o Estado será contemplado com R$ 1,3 bilhão do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), do governo fede¬ral. Os recursos serão investidos em saneamento e habitação. A ferrovia Bahia-Oeste é outra meta de sua administração. O dinheiro virá do Plano Plurianual (PPA) elaborado pelo Palácio do Planalto para ser executado entre 2007 a 2011. Wagner disse ainda que o Estado trabalha para ampliar sua capacidade de endividamento junto ao Tesouro Nacional para contrair novos empréstimos e possibilitar a ampliação dos investimentos. Ele reconheceu que ainda há muito o que fazer para elevar a qualidade de vida dos baianos.
Tribuna da Bahia - O senhor não gosta muito de fazer estas ava¬liações de governo diante de tão pouco tempo de administração. Mas qual sua avaliação desses seis pri¬meiros meses?
Jaques Wagner - O tempo da política é diferente do tempo da eco¬nomia, mas eu acho natural, a im¬prensa querer fazer este balanço. Faz 100 dias, depois seis meses, eu acho que o tempo razoável de avaliação é de um ano, principal¬mente para um governo que chega substituindo um governo de 16, 20, 30 anos, numa máquina qúe funcio¬nava no mesmo estilo. De qualquer forma, a minha avaliação é positiva, porque mesmo com o governo chegando com muitos restos a pagar e controlar essa area financeira do governo, portanto, estamos conse¬guindo administrar essa questão mantendo os pagamentos, pelo menos os nossos em dia, e tentan¬do honrar pagamentos antigos. Eu considero que o movimento em relação a Cesta do Povo foi até ago¬ra vitorioso, porque tínhamos rece¬bido a Cesta do Povo que, na minha opinião, creio que eles estavam preparando para fechá-la e conse¬guimos recuperá-la e estamos postando nesta recuperação.
TB - E nos outros setores tidos como prioritários?
JW - Na área da Saúde, por exemplo, há um sentimento claro de mudanças e compreensão em rela¬ção à saúde. Aquele ato de abril, em que nós assinamos no Centro de Convenções a transferência de fun¬do a fundo do dinheiro do SUS que era uma coisa que acontecia nor¬malmente no Brasil há 12, 13 anos, e aqui não. Por conta de uma con¬cepção atrasada que era manter o dinheiro trancado na mão para po¬der dar a direção, nós mudamos. Retomamos hospital de Irecê, o Ana Nery e eu diria que está em curso uma visão diferenciada, visando totalmente o fortalecimento de do SUS.
TB - Apesar desses avanços, há algumas dificuldades no governo, como por exemplo, esta gre¬ve dos professores que já persiste há quase dois meses. Seria este o maior desafio em sua administra¬ção?
JW - Primeiro, para mim, a edu¬cação é uma prioridade. Quero crer que também para os professores, até porque sabemos que a educa¬ção pública baiana é tida, por dados efetivos, como a pior, além do maior contingente de analfabetos. Então, esse desafio não é somente do governo, é também dos educado¬res, dos prefeitos e da sociedade civil como um todo. Então; materiali¬zando isso nós lançamos um pro¬grama que é o Todos pela Educa¬ção, com a adesão de mais de 300 municípios, além de alguns seg¬mentos empresariais dispostos a contribuir nesta luta contra o analfa¬betismo.
TB - Qual o quadro da educação no Estado?
JW - Agora, vou repetir, eu pe¬guei a pior educação pública do País, isso não pode construir da noite pelo dia, isto foi destruído ao longo dos anos, de desestímulo ao professorado, a qualificação, de manipulação de dados de uma série ae programas, mas estou apostando tudo na educação. Sin¬ceramente, não diria que é o mai¬or problema, considero que é uma coisa surreal. Porque estamos com o maior reajuste do País, fize¬mos pela primeira vez na história da Bahia, uma negociação pública com mesa aberta de negociação coleti¬va. Dez sindicatos assinaram, a Assembléia Legislativa aprovou e quero deixar claro que a greve dos professores começou no dia 8 de maio, no mesmo dia em que está¬vamos lançando o programa ,Todos pela Alfabetização, ou seja, com uma conotação claramente de con¬fronto gratuito, porque eles sabem do meu compromisso com a educação.. Eu trouxe o ministro da Educação, que ficou impressionado com a mobilização em torno da educação e, estranhamente, os educadores que deveriam estar se abraçando esta causa para sair desta marca pior educação do País entraram em greve naquele dia. Eu trouxe uma pessoa, eles gostando ou não, para a pasta que é consultor da ONU em educação, que era do Con¬selho Federal de Educação, foi oito anos secretário de Educação em Itabuna e, curiosamente, no dia em que o ministro estava aqui eles lan¬çam essa greve de advertência que foi se estendendo. A minha sensa¬ção é que as pessoas não soube¬ram mais como sair. E bom dizer que a última assembléia da última quarta-feira, a direção da APLB de¬fendeu o fim e, como se diz na gíria do movimento, atropelado.
TB - O senhor estaria sendo víti¬ma do fogo amigo?
JW - Não. Eu acho que o nosso povo que veio da oposição leva um certo tempo para se habituar a ser governo, o que é normal. Quem atua no PT ou mesmo no PCdoB, nós fomos educados a ser oposicão e, de repente você vira governo, muda muita coisa. Você vira vitrine ao invés de ser estilingue, então as pessoas, no primeiro momento, e assustam, mas eu não tenho o que eclamar. A bancada tem sustentado a posição do governo. Eu não diria fogo amigo porque todos os partidos deram declaração, acho que só o PCdoB ainda não, mas todos os partidos se declararam contra a greve. Eu próprio defendo que o movimento sindical tem sua autonomia.
TB - Mas houve o episódio pro¬tagonizado pelo deputado Javier Alfaya (PCdoB), elevando de 4,5% para 17,28 os salários dos professo¬res.
JW - O único episódio que po¬deria ser chamado de fogo amigo foi a história da emenda de Javier (deputado estadual Javier Alfaya, ligado a APLB), entendo porque ele fez isso do ponto vista político, não sou nenhuma ditador para ficar jul¬gando ou condenando alguém, mas evidentemente não concordo. Ele é da base de sustentação do governo, toda uma base também tem ligação com os professores, mas com mui¬ta franqueza, nós poderíamos che¬gar esse ano, aliás, seria normal diante da situação encontrada no governo e dissesse; primeiro ano, depois de 16 anos, nós nos identifi¬camos com este governo, trabalha¬mos por ele, vamos dar uma trégua, as no ano que vem sentamos na mesa. Poderíamos ter dado zero (de reajuste) como o presidente Lula fez no primeiro ano e ter, simplemente inugurado a masa de negociação das carreiras. Poderíamos dizer: eu não tenho dinheiro para dar um reajuste, vamos organizar as carreiras, mas fizemos mais do que isto. Nós demos a infração de 1,2% e um reajuste que vai até 17%, atendendo uma reivindicação deles, que eu concor¬dava, que era o fato de não ter aqui nenhum servidor com vencimento básico abaixo do mínimo e foi isso que os irritou.
TB - Onde está o xis da ques¬tão?
JW - A bandeira que eles estão reclamando é o fato de eu ter subi¬do o piso e o internível fióou espre¬mido, o que também não é verdade, porque é dividido entre R$ 1 mil, R$ 1.050, R$ 1.350 e R$ 1.650, então o fato de quem tem o nível universitá¬no, se passa de R$ 1 mil para R$ 1.350, são 30%, o que é bastante razoável. Então hoje é um desafio, porque para mim é ruim, pois eu preferia ter uma relação de diálogo, acho que houve uma incompreen¬são em um primeiro momento, da direção da APLB, depois passou para um segmento, eu acho que no meio deste imprevisto, seguramen¬te, algumas pessoas do grupo an¬terior que saíram das suas diretori¬as, portanto, agora, estão colocan¬do pilha. Mas eu acho que vai che¬gar um momento que eles vão ter que voltar para a aula.
TB - Já começou na verdade, não é mesmo?
JW - Sim, mas a última sema¬na foi pior ainda, porque o Ministé¬rio Público fez um movimento de compor a mesa de negociação, o que quero registrar sempre, o lado de que o governo nunca saiu da mesa de negociação. Todas as mesas setoriais estão acontecen¬do. Nós assinamos diante do Mi¬nistério Público um acordo, mesmo assim eles mantiveram a greve, então está virando um negócio irra¬cional, na minha opinião. E eu dis¬se a eles: vocês querem recompor o internível como? Vocês querem que eu tire o aumento dos salários mais baixos, porque é inimaginável que vocês queiram um aumento de 17% para todos, isso não existe e seria arrebentar as finanças do Es¬tado completamente.
TB - Poderá haver demissões, caso os professores insistam em manter a greve?
JW - Nós não temos o menor interesse, nem está na minha ca¬beça em punição ou demissão de ninguém. Não sou uma pessoa de retaliação ou de rancor. Eu acho a greve injusta, inadequada, ninguém acha razoável em quatro meses cobrar o que nunca havia sido feito. Num levantamento que temos em 18 estados, o salário dos professo¬res baianos está em quinto lugar. Eu fiz uma convocação aos profes¬sores e esse debate político. Muitas vezes eu gostaria de tirar o terno de governador e ir debater lá na Assembléia. Na terra de Anísio, Ruy Barbosa, Castro Alves, eu acho uma vergonha, como governa¬dor, estar administrando um Estado com estes dados. Na minha opinião não tem nenhum senso político quem é professor, depois de 16 anos de um governo que enterrou a Bahia com o maior número de analfabetos, com a pior educa¬ção do País e com a menor renda per capita de universidade federal, já que a UFRB e a Univasf só estão aqui por conta de quando éramos oposição. O que me alegraria é que a APCB tivesse pedido uma reunião comigo e dissesse que estava com o governo e iria tirar o Estado nesse buraco que se encontra a educação. Aí eu dou 4,5% a 17%, tiro o buraco de ter aqui um piso abaixo do salá¬rio mínimo e ainda os professores estão há quase 60 dias em greve, sinto muito em dizer, mas não tem nenhuma lógica, nem de reivindica-cão salarial e piorou se falar de pro¬jeto político, porque eu não estou aqui para governar e ir embora, estou aqui para plantar um projeto po¬lítico diferente neste Estado que tinha 40 anos de ditadura.
TB - Diante disso tudo na educa¬ção, esse teria sido então o maior problema no governo?
JW - Não diria o maior proble¬. ma, mas esse sem dúvida nenhu¬ma, foi o maior transtorno do gover¬no. Entre todas as outras coisas, como o Reda em que a seleção demorou mais do que gostaríamos. Para tirar a Coopamed a resistência foi maior do que imaginávamos, mas conseguirmos superar todos esses empecilhos, a sociedade foi entendendo, a Coopamed foi uma decisão judicial. Mas também te¬mos outras áreas que estão bem, como a atração de novos investi¬mentos. Na área de infra-estrutura estamos trabalhando com uma ce¬leridade bastante razoável, se vier os R$ 200 milhões do empréstimo do Banco Mundial poderemos inves¬tir nas estradas do Estado, em que recebemos uma malha rodoviária com 90% acabada. Na saúde, por exemplo, deveremos lançar a licitação do Hospital da Criança de Feira de Santana.
TB - E a Segurança Pública no Estado?
JW A Segurança Pública, no campo de transtorno, sem dúvida nenhuma, é o maior desafio de todo o Brasil. Nós nos municiamos de uma equipe que consideramos boa, que vem de uma escola bem avalia¬da que é da Polícia Federal, esta¬mos chamando mais pessoas con-cursadas na área da Polícia Militar. Estamos fortalecendo nossa área de inteligência na área do combate ao crime organizado, mas ao mes¬mo tempo falta ainda muita coisa. Como equipar melhor a Polícia Mili¬tar, como carros, faltam coletes à prova de bala, então é uma coisa Que estamos buscando na parceria com o governo federal, além de au¬mentar nosso orçamento. É uma área que eu acho extremamente delicada, não tem saída fácil, é um desafio forte. Fizemos uma reunião e assinamos com o ministro da Justiça uma parceria com os secre¬tários de Segurança do Nordeste e o secretário da Força Nacional de Segurança Pública, Luiz Fernando, para que compartilhemos as infor¬mações e ações no combate ao. crime organizado para ter uma si¬nergia. A mensagem que eu dei é muito clara que é o processo de despartirização das Polícias Militar e Civil, não é fácil, isso vai demorar um tempo, nem todo mundo com¬preende.
TB - Como assim?
JW - Estamos tentando aplicar aqui o que vi que deu certo na Polí¬cia Federal, ou seja, dar um grau de profissionalização e autonomia a esses segmentos para que sintam estimulados a trabalhar cada vez mais. As polícias Militar e Civil aqui tinham dono e tinham carteira parti¬dária e esse é o problema. Esta¬mos desfazendo uma cultura para fazer uma polícia republicana e esse processo é não é simples, porque têm pessoas internas que poderão resistir. E ainda existem pessoas que gostariam que fizés¬semos o contrário, ou seja, a polícia era dele, agora a polícia é nossa. E eu não acredito nem vou fazer isto.
TB - O senhor estava falando dessa parceria do governo estadual. com o governo federal. Vem alguma novidade aí nesta sinergia? JW - Na próxima sexta-feira es¬tarei fechando o pacote do PAC. Para a Bahia deve vir em torno de R$ 1,3 bilhão para saneamento e habita¬ção. Estou discutindo e deve entrar no PPA federal (Plano Plurianual de 2007-2011) a Ferrovia Bahia Oeste que terá um investimento muito grande do governo federal. Estamos trabalhando para ampliar a nossa capacidade de endividamento no Tesouro Nacional para contrair no¬vos empréstimos para investirmos, principalmente, na área de infra-estrutura. Tem muito dessas parcerias que não são vistas publicamente como anúncio, por exemplo, quan¬do lançamos o Topa, o governo da Estado entra com R$ 70 milhões e o governo federal, R$ 250 milhões. Quando Solla (Jorge Solla) está fazendo uma série de avanços na saúde como a fábrica que estamos reconstruindo em Conquista, é um marco para a Bahia, mas é de recur¬so federal. Estamos já na ordem de 33 mil de ligações do programa fe¬deral Luz para Todos. A parceria com o presidente Lula e com a equipe de ministros Walfrido, Dilma e Dulce é muito boa, primeiro porque também fui ministro e depois pela simbologia da vitória daqui, mas vamos buscar mais investimentos.
Política - Entrevista /Jaques Wagner
Estado mantém parceria com ministros baianos.
TB - O fato de ter um mi¬nistro baiano comandando uma importante pasta como o Ministério das Integrações Nacionais também ajuda a angariar novos investimentos para o Estado?
JW - Sim, eu acho que o fato de ter conseguido um ministro baiano (Geddel Viei¬ra Lima), além de Waldir (ex-governador Waldir Pires, atu¬al ministro da Defesa) por¬que ele está na área, digamos assim, que não tem investimento direto, e Gil (Gil¬berto Gil, ministro da Cultura) que ajuda na área de cultura, mas evidentemente, o Minis¬tério da Integração Nacional com o projeto da interligação das bacias, com todo o volu¬me que está se investindo na revitalização (do Rio São Francisco), acredito que po¬deremos fazer uma grande parceria. Nós nos posiciona¬mos bem a nível federal, o presidente tem consciência da contribuição que a Bahia deu (para sua eleição) e essa articulação com o PMDB. É a primeira vez, em 25 anos, que o presidente consegue ter uma relação com o PMDB tão completa e todo mundo tem consciência que o PMDB daqui contribuiu para isto. É óbvio que o pre¬sidente tem que governar para os 27 estados, mas a nossa relação com o governo federal é muito boa.
TB - Acabou de ser firma¬do, por exemplo, um convê¬nio com o Ministério da Integração de R$ 13 milhões para a construção de seis novas pontes. JW -A vantagem de se ter um baiano num Ministério que tem poten¬cial investidor é esse. Então, por exemplo, estamos via Codevasf ree¬quipando as 20 residências do Derba para fazer a manu¬tenção das estradas. Vamos negociar com a Petrobras um contrato de longo prazo no sentido de três, quatro anos, para fornecimento de asfalto e insumos para fazer o traba¬lho. Nós temos 136 mil quilô¬metros de estradas estadu¬ais, sendo 20 mil asfaltadas. Portanto, na minha opinião, a área mais importante, fora os sociais, é sem dúvida nenhu¬ma a infra-estrutura.
TB - E a parceira com a prefeitura de Salvador, algu¬ma novidade?
JW - Houve uma decisão do prefeito João Henrique de mudar de partido, do ponto de vista da relação comigo, ele foi para um partido que tenho uma relação mais in¬tensa, mais próxima, apesar de também ter relação com os dois partidos. Mas o PDT, .apesar de ser claro que o partido está na minha base de sustentação, ainda não tenho uma relação declarada por parte da direção do PDT.
TB - Mas o senhor ficou zangado pelo fato de o pre¬feito não ter ido para o PT?
JW - Não fiquei zangado, porque foi uma decisão inter¬na do PT que no momento entendeu que seria melhor ele ir para o PMDB. Eu, feliz- mente, fui o primeiro presi¬dente do partido, mas por não ser um partido de ordem uni¬da, as vezes dá trabalho, mas acho também que esta é a riqueza do PT. Eu emiti minha opinião, para mim era melhor, já que ele queria sair do PDT, ir para o PT. Mas a direção municipal foi administrando de uma forma que ele acabou indo para o PMDB, mas eu continuo defendendo a mes¬ma tese. João Henrique ga¬nhou as eleições em 2004 e nós nos unimos somente no segundo turno. A primeira vez que as oposições se uniram nesta última década, por deci¬são política, foi agora na mi¬nha eleição em 2006, porque já começamos as eleições unidos e acabamos obtendo o resultado. Eu acho que é muito pouco tempo para nós nos dispersarmos já numa eleição, que acontecerá no próximo ano. Portanto, vou fazer esse esforço na maior parte das grandes cidades, porque nos pequenos municí¬pios eu sei que é difícil por¬que parte da nossa base de sustentação se divide no inte¬rior. Mas cidades como Con¬quista, Itabuna, Salvador, Fei¬ra, vou fazer esse esforço. Estamos num processo de construção de um novo agru¬pamento politico, a vitória foi uma surpresa, ninguém acre¬ditava, ela se torna realidade. Há uma divisão, dispersão das chamadas forças que eram governistas antes, en¬tão eu não vejo porque agora nós também nos dispersar. Eu defendo essa tese. Agora a minha relação com o prefei¬to João Henrique, ele era um aliado do presidente Lula, como também meu aliado, e como ele se mudou para um partido que está na minha base, não vai interferir em nada na minha relação como governador. E a relação do PT com os outros partidos, aí já é uma negociação que cabe a eles.
TB - Nesse caso que o senhor defende que os parti¬dos de sustentação de sua base devem permanecer aliados, então o senhor acha que o PT não deveria ter can¬didatura própria e sim apoiar a reeleição do prefeito João Henrique?
JW - A conseqüência disso é essa. Eu acho que a naturalidade é de quem está no cargo, já que tem o processo de reeleição, possa reivindicar, requisitar ser o candidato e isso eu já disse várias vezes. Eu tenho um jeito de fazer política que é esse, não adi¬anta fazer joguinho. Se ele está mantendo todo mundo unido, o natural é João Henri¬que, mas isso não é imposi¬tivo. Alguém pode dizer que discorda com o encaminha¬mento que está sendo dado, eu acho que ele não é um bom candidato e vou lançar candidato. Como tem dois turnos aqui é possível, mas não é minha posição, eu de¬fendo a unidade do governo no primeiro turno da eleição.
TB - Quais são os resulta¬dos das suas viagens ao ex¬terior?
JW - Muitos, mas eu gostaria de explicar melhor estas viagens. A atração de investimentos se dá por su¬cessivas idas e vindas; é um processo, então às vezes acho que há uma incompre¬ensão, as pessoas sempre fazem isso. Quando viajo, elas perguntam: o que o senhor trouxe? Às vezes até o que você traz não necessari¬amente, podemos precisar muito. Se eu vou atrair uma empresa de grande porte, se eu ficar dizendo que estou trabalhando neste sentido, outros estados vão trabalhar também. Portanto, muitas coisas que fazemos, não vou falar que é sigiloso, mas não devemos divulgar até que se concretize o negócio. O cida¬dão vem aqui, vê o terreno, conversa com outros empre¬sários. Estamos tratando com uma siderúrgica para sua instalação aqui, estava tudo certo e a siderúrgica foi vendida. Quem a comprou, no primeiro momento, disse que não iria tratar de novos investimentos, agora que já tem um tempo, ela voltou a dizer que tem interesse em investir na Bahia. Eu digo com muita tranqüilidade que estamos bem posicionados e a presença do governador em outros países tem um papel impressionante.
Política - Entrevista /Jaquers Wagner: O segredo para atair novos investimentos
TB - O que o senhor foi fazer na Espanha?
JW - Por exemplo, fui agora na Espanha, fiz uma reunião com um executivo número um de um determinado banco e ele disse que estava concluindo uma agência em São Paulo, a próxima vou fazer em Salvador. A Ford, no começo do ano, disse que iria investir mais de RS 2 bïlhões no Ceará e na Bahia e na época eles não disseram mais nada e o presidente Lula justificou que eles não poderiam dizer por conta da concorrência e eles estiveram aqui na sexta-feira dando um passo a mais. No mundo dos negócios, da política, tem dessas coisas. Mas já trouxe¬mos vários investimentos na área turística, imobiliária, o secretário de Indústria e Comércio (Rafael Amoedo) tem feito um belo trabalho, a área de meio-ambiente vem tentando se superar, dentro da regra.
TB - E com relação ao governo passado, o senhor considera que recebeu uma herança maldita?
JW - Eu não gosto muito dessa palavra, mas conside¬ro que recebi uma herança ruim. Do ponto de vista das finanças, eu recebi praticamente um R$ 1 bilhão de restos a pagar. As pessoas falem como herança maldita como se fosse somente um quadro financeiro, eu diria que eles montaram uma máquina de arrecadação boa, eles tinham na área da Fazenda uma estrutura bem montada, nós talvez es¬tejamos entre os três primei¬ros estados a lançar a nota fiscal eletrônica. Então aquilo que interessava ao Estado, ou seja, arrecadar e fiscalizar bem até tinha uma máquina razoável. Agora naquilo que interessava à sociedade que era em gastar bem, aí since¬ramente não.
TB - Por quê?
JW - O problema aqui era porque tudo era carimbado. O governador Paulo Souto fica irritado quando eu falo essas coisas, mas é verdade. A Bün¬ge quis instalar um porto aqui e não conseguiu em seu go¬verno, porque havia um inte¬resse conflitante com outro grupo empresarial. O grupo G8 não é invenção de nin¬guém da antiga oposição, era verdadeira, de contratos alta¬mente lesivos. Foi invenção deles, o G8 operou nos 16 anos dele, então essa máqui¬na, em que você arrecadava bem, mas tinha um carimbo na área de publicidade, na área de contratação de mão-de-obra, na área de seguran¬ça, na área de compra, todo ,mundo sabe na Bahia. Várias áreas eram impenetráveis, eles arrecadavam bem, mas gastavam mal seguindo os interesses dos nichos de grupos amigos do antigo go¬verno. Estamos num proces¬so de desmonte dessa ope¬ração, buscando a reformula¬ção desses contratos e acho que vamos economizar muito.
TB - E na área social?
JW - Eu acho que a mi¬nha herança maldita é justa¬mente na área social que recebi. Nós pegamos a sexta pior saúde, a pior educação, o maior número de analfabetos, 90% de estradas intrafegá¬veis.
TB - E quanto à transpa¬rência, essa é uma antiga reivindicação não só dos de¬putados, como também da sociedade?
JW - Pois é, enquanto o antigo governo não dava a senha nem para os deputa¬dos fiscalizar, que é um direito constitucional, vamos abrir as contas na Internet. Todos te¬rão acesso ao que o governo está pagando, porque pagou. Pelo CNPJ da empresa, o cidadão poderá verificar a ve¬racidade de uma denúncia. Não estbu fazendo porque sou bonzinho e sim porque acredito .que só vamos ter o uso de dinheiro público corre¬to quando tivermos transpa¬rência.
TB - O senhor está gos¬tando de governar a Bahia?
JW - Sim, é uma experi¬ência diferente. Eu já tinha a experiência de governar por¬que ministro chamam, direta¬mente, de segundo escalão, porque é abaixo do presidente e eu fui da coordenação de governo. Agora, evidentemen¬te, aumenta e muito a respon¬sabilidade. Sendo o governa¬dor, eventualmente, você é o responsável pelas coisas boas, mas eventualmente. Eu estou gostando, evidentemente, que se trabalha muito, mi¬nha média é de 14 horas por dia, mesmo nos finais de se¬mana. Na verdade, o gostar é ver os resultados. Nesses seis primeiros meses há ain¬da muito o que melhorar, mas como eu tenho a compreen¬são de que as coisas são um processo, entendo que esta¬mos ganhando musculatura. é o primeiro ano da equipe, acho que a relação com a base de sustentação até ago¬ra é boa, agora esse preen¬chimento de cargo é uma tra¬balheira. Mas tenho dito as pessoas o seguinte: é uma de paradigma essa mudança do governo anterior para este. O governo anterior as pessoas tinham o sentimento de que havia um duplo governo no Estado, um governo de fato de direito e um paralelo, de fato. Agora não tem mais isto, mas pes¬soas sabem que tem um go¬verno que não tem um mons¬tro atrás que as pessoas te¬nham medo.
TB - E sua bancada na Assembléia Legislativa?
JW - É óbvio que os depu¬tados reclamam muito mais do que no passado, porque antes era proibido reclamar. Aí tem hora que você tem que dar uma chamada e dizer: meu caro, só funciona do ou¬tro jeito? É um pouco a dis¬cussão que eu diria como criação de filho, tem o autori¬tário que o filho não briga,. mas também quando arre¬benta a casa é para valer, o outro é na base do diálogo, as vezes dá mais trabalho, mas esta mudança de cultura não é brincadeira.
TB - Há a possibilidade de aumentar a sua base na AL?
JW - Existe essa possibi¬lidade. Estamos discutindo com o PR e o PP, eu acho até que tem uma possibilidade real de aumentar essa base, mas tem que ser discutida porque quanto mais se am¬plia, obviamente, aumenta as tensões do ponto de vista da ponta dos municípios. Esta¬mos hoje com 38 deputados, mas com mais algumas se¬manas poderemos fechar um acordo.
TB - E nesse caso da pos¬sibilidade da entrada desses dois partidos no governo, po¬derá haver uma rearrumação no secretariado ou, até mes¬mo, nas autarquias?
JW - Não. Agora, segura¬mente, não terá e isso eu já disse a todos eles. O governo está montado, não vou por conta de um realinhamento político mexer precipitadamen¬te. É natural. Aí é que entra a história dos prazos, no primei¬ro ano você faz uma avaliação de como a máquina está funci¬onando, aí sim caberiam movi¬mentações administrativas e, eventualmente, incorporar no¬vos aliados. Mas agora não há hipótese em mexer numa má¬quina que está pegando o ritmo por conta de alianças.
Fonte: Jornal Tribuna da Bahia - Política
Em 2/07/2007.
Tribuna da Bahia - O senhor não gosta muito de fazer estas ava¬liações de governo diante de tão pouco tempo de administração. Mas qual sua avaliação desses seis pri¬meiros meses?
Jaques Wagner - O tempo da política é diferente do tempo da eco¬nomia, mas eu acho natural, a im¬prensa querer fazer este balanço. Faz 100 dias, depois seis meses, eu acho que o tempo razoável de avaliação é de um ano, principal¬mente para um governo que chega substituindo um governo de 16, 20, 30 anos, numa máquina qúe funcio¬nava no mesmo estilo. De qualquer forma, a minha avaliação é positiva, porque mesmo com o governo chegando com muitos restos a pagar e controlar essa area financeira do governo, portanto, estamos conse¬guindo administrar essa questão mantendo os pagamentos, pelo menos os nossos em dia, e tentan¬do honrar pagamentos antigos. Eu considero que o movimento em relação a Cesta do Povo foi até ago¬ra vitorioso, porque tínhamos rece¬bido a Cesta do Povo que, na minha opinião, creio que eles estavam preparando para fechá-la e conse¬guimos recuperá-la e estamos postando nesta recuperação.
TB - E nos outros setores tidos como prioritários?
JW - Na área da Saúde, por exemplo, há um sentimento claro de mudanças e compreensão em rela¬ção à saúde. Aquele ato de abril, em que nós assinamos no Centro de Convenções a transferência de fun¬do a fundo do dinheiro do SUS que era uma coisa que acontecia nor¬malmente no Brasil há 12, 13 anos, e aqui não. Por conta de uma con¬cepção atrasada que era manter o dinheiro trancado na mão para po¬der dar a direção, nós mudamos. Retomamos hospital de Irecê, o Ana Nery e eu diria que está em curso uma visão diferenciada, visando totalmente o fortalecimento de do SUS.
TB - Apesar desses avanços, há algumas dificuldades no governo, como por exemplo, esta gre¬ve dos professores que já persiste há quase dois meses. Seria este o maior desafio em sua administra¬ção?
JW - Primeiro, para mim, a edu¬cação é uma prioridade. Quero crer que também para os professores, até porque sabemos que a educa¬ção pública baiana é tida, por dados efetivos, como a pior, além do maior contingente de analfabetos. Então, esse desafio não é somente do governo, é também dos educado¬res, dos prefeitos e da sociedade civil como um todo. Então; materiali¬zando isso nós lançamos um pro¬grama que é o Todos pela Educa¬ção, com a adesão de mais de 300 municípios, além de alguns seg¬mentos empresariais dispostos a contribuir nesta luta contra o analfa¬betismo.
TB - Qual o quadro da educação no Estado?
JW - Agora, vou repetir, eu pe¬guei a pior educação pública do País, isso não pode construir da noite pelo dia, isto foi destruído ao longo dos anos, de desestímulo ao professorado, a qualificação, de manipulação de dados de uma série ae programas, mas estou apostando tudo na educação. Sin¬ceramente, não diria que é o mai¬or problema, considero que é uma coisa surreal. Porque estamos com o maior reajuste do País, fize¬mos pela primeira vez na história da Bahia, uma negociação pública com mesa aberta de negociação coleti¬va. Dez sindicatos assinaram, a Assembléia Legislativa aprovou e quero deixar claro que a greve dos professores começou no dia 8 de maio, no mesmo dia em que está¬vamos lançando o programa ,Todos pela Alfabetização, ou seja, com uma conotação claramente de con¬fronto gratuito, porque eles sabem do meu compromisso com a educação.. Eu trouxe o ministro da Educação, que ficou impressionado com a mobilização em torno da educação e, estranhamente, os educadores que deveriam estar se abraçando esta causa para sair desta marca pior educação do País entraram em greve naquele dia. Eu trouxe uma pessoa, eles gostando ou não, para a pasta que é consultor da ONU em educação, que era do Con¬selho Federal de Educação, foi oito anos secretário de Educação em Itabuna e, curiosamente, no dia em que o ministro estava aqui eles lan¬çam essa greve de advertência que foi se estendendo. A minha sensa¬ção é que as pessoas não soube¬ram mais como sair. E bom dizer que a última assembléia da última quarta-feira, a direção da APLB de¬fendeu o fim e, como se diz na gíria do movimento, atropelado.
TB - O senhor estaria sendo víti¬ma do fogo amigo?
JW - Não. Eu acho que o nosso povo que veio da oposição leva um certo tempo para se habituar a ser governo, o que é normal. Quem atua no PT ou mesmo no PCdoB, nós fomos educados a ser oposicão e, de repente você vira governo, muda muita coisa. Você vira vitrine ao invés de ser estilingue, então as pessoas, no primeiro momento, e assustam, mas eu não tenho o que eclamar. A bancada tem sustentado a posição do governo. Eu não diria fogo amigo porque todos os partidos deram declaração, acho que só o PCdoB ainda não, mas todos os partidos se declararam contra a greve. Eu próprio defendo que o movimento sindical tem sua autonomia.
TB - Mas houve o episódio pro¬tagonizado pelo deputado Javier Alfaya (PCdoB), elevando de 4,5% para 17,28 os salários dos professo¬res.
JW - O único episódio que po¬deria ser chamado de fogo amigo foi a história da emenda de Javier (deputado estadual Javier Alfaya, ligado a APLB), entendo porque ele fez isso do ponto vista político, não sou nenhuma ditador para ficar jul¬gando ou condenando alguém, mas evidentemente não concordo. Ele é da base de sustentação do governo, toda uma base também tem ligação com os professores, mas com mui¬ta franqueza, nós poderíamos che¬gar esse ano, aliás, seria normal diante da situação encontrada no governo e dissesse; primeiro ano, depois de 16 anos, nós nos identifi¬camos com este governo, trabalha¬mos por ele, vamos dar uma trégua, as no ano que vem sentamos na mesa. Poderíamos ter dado zero (de reajuste) como o presidente Lula fez no primeiro ano e ter, simplemente inugurado a masa de negociação das carreiras. Poderíamos dizer: eu não tenho dinheiro para dar um reajuste, vamos organizar as carreiras, mas fizemos mais do que isto. Nós demos a infração de 1,2% e um reajuste que vai até 17%, atendendo uma reivindicação deles, que eu concor¬dava, que era o fato de não ter aqui nenhum servidor com vencimento básico abaixo do mínimo e foi isso que os irritou.
TB - Onde está o xis da ques¬tão?
JW - A bandeira que eles estão reclamando é o fato de eu ter subi¬do o piso e o internível fióou espre¬mido, o que também não é verdade, porque é dividido entre R$ 1 mil, R$ 1.050, R$ 1.350 e R$ 1.650, então o fato de quem tem o nível universitá¬no, se passa de R$ 1 mil para R$ 1.350, são 30%, o que é bastante razoável. Então hoje é um desafio, porque para mim é ruim, pois eu preferia ter uma relação de diálogo, acho que houve uma incompreen¬são em um primeiro momento, da direção da APLB, depois passou para um segmento, eu acho que no meio deste imprevisto, seguramen¬te, algumas pessoas do grupo an¬terior que saíram das suas diretori¬as, portanto, agora, estão colocan¬do pilha. Mas eu acho que vai che¬gar um momento que eles vão ter que voltar para a aula.
TB - Já começou na verdade, não é mesmo?
JW - Sim, mas a última sema¬na foi pior ainda, porque o Ministé¬rio Público fez um movimento de compor a mesa de negociação, o que quero registrar sempre, o lado de que o governo nunca saiu da mesa de negociação. Todas as mesas setoriais estão acontecen¬do. Nós assinamos diante do Mi¬nistério Público um acordo, mesmo assim eles mantiveram a greve, então está virando um negócio irra¬cional, na minha opinião. E eu dis¬se a eles: vocês querem recompor o internível como? Vocês querem que eu tire o aumento dos salários mais baixos, porque é inimaginável que vocês queiram um aumento de 17% para todos, isso não existe e seria arrebentar as finanças do Es¬tado completamente.
TB - Poderá haver demissões, caso os professores insistam em manter a greve?
JW - Nós não temos o menor interesse, nem está na minha ca¬beça em punição ou demissão de ninguém. Não sou uma pessoa de retaliação ou de rancor. Eu acho a greve injusta, inadequada, ninguém acha razoável em quatro meses cobrar o que nunca havia sido feito. Num levantamento que temos em 18 estados, o salário dos professo¬res baianos está em quinto lugar. Eu fiz uma convocação aos profes¬sores e esse debate político. Muitas vezes eu gostaria de tirar o terno de governador e ir debater lá na Assembléia. Na terra de Anísio, Ruy Barbosa, Castro Alves, eu acho uma vergonha, como governa¬dor, estar administrando um Estado com estes dados. Na minha opinião não tem nenhum senso político quem é professor, depois de 16 anos de um governo que enterrou a Bahia com o maior número de analfabetos, com a pior educa¬ção do País e com a menor renda per capita de universidade federal, já que a UFRB e a Univasf só estão aqui por conta de quando éramos oposição. O que me alegraria é que a APCB tivesse pedido uma reunião comigo e dissesse que estava com o governo e iria tirar o Estado nesse buraco que se encontra a educação. Aí eu dou 4,5% a 17%, tiro o buraco de ter aqui um piso abaixo do salá¬rio mínimo e ainda os professores estão há quase 60 dias em greve, sinto muito em dizer, mas não tem nenhuma lógica, nem de reivindica-cão salarial e piorou se falar de pro¬jeto político, porque eu não estou aqui para governar e ir embora, estou aqui para plantar um projeto po¬lítico diferente neste Estado que tinha 40 anos de ditadura.
TB - Diante disso tudo na educa¬ção, esse teria sido então o maior problema no governo?
JW - Não diria o maior proble¬. ma, mas esse sem dúvida nenhu¬ma, foi o maior transtorno do gover¬no. Entre todas as outras coisas, como o Reda em que a seleção demorou mais do que gostaríamos. Para tirar a Coopamed a resistência foi maior do que imaginávamos, mas conseguirmos superar todos esses empecilhos, a sociedade foi entendendo, a Coopamed foi uma decisão judicial. Mas também te¬mos outras áreas que estão bem, como a atração de novos investi¬mentos. Na área de infra-estrutura estamos trabalhando com uma ce¬leridade bastante razoável, se vier os R$ 200 milhões do empréstimo do Banco Mundial poderemos inves¬tir nas estradas do Estado, em que recebemos uma malha rodoviária com 90% acabada. Na saúde, por exemplo, deveremos lançar a licitação do Hospital da Criança de Feira de Santana.
TB - E a Segurança Pública no Estado?
JW A Segurança Pública, no campo de transtorno, sem dúvida nenhuma, é o maior desafio de todo o Brasil. Nós nos municiamos de uma equipe que consideramos boa, que vem de uma escola bem avalia¬da que é da Polícia Federal, esta¬mos chamando mais pessoas con-cursadas na área da Polícia Militar. Estamos fortalecendo nossa área de inteligência na área do combate ao crime organizado, mas ao mes¬mo tempo falta ainda muita coisa. Como equipar melhor a Polícia Mili¬tar, como carros, faltam coletes à prova de bala, então é uma coisa Que estamos buscando na parceria com o governo federal, além de au¬mentar nosso orçamento. É uma área que eu acho extremamente delicada, não tem saída fácil, é um desafio forte. Fizemos uma reunião e assinamos com o ministro da Justiça uma parceria com os secre¬tários de Segurança do Nordeste e o secretário da Força Nacional de Segurança Pública, Luiz Fernando, para que compartilhemos as infor¬mações e ações no combate ao. crime organizado para ter uma si¬nergia. A mensagem que eu dei é muito clara que é o processo de despartirização das Polícias Militar e Civil, não é fácil, isso vai demorar um tempo, nem todo mundo com¬preende.
TB - Como assim?
JW - Estamos tentando aplicar aqui o que vi que deu certo na Polí¬cia Federal, ou seja, dar um grau de profissionalização e autonomia a esses segmentos para que sintam estimulados a trabalhar cada vez mais. As polícias Militar e Civil aqui tinham dono e tinham carteira parti¬dária e esse é o problema. Esta¬mos desfazendo uma cultura para fazer uma polícia republicana e esse processo é não é simples, porque têm pessoas internas que poderão resistir. E ainda existem pessoas que gostariam que fizés¬semos o contrário, ou seja, a polícia era dele, agora a polícia é nossa. E eu não acredito nem vou fazer isto.
TB - O senhor estava falando dessa parceria do governo estadual. com o governo federal. Vem alguma novidade aí nesta sinergia? JW - Na próxima sexta-feira es¬tarei fechando o pacote do PAC. Para a Bahia deve vir em torno de R$ 1,3 bilhão para saneamento e habita¬ção. Estou discutindo e deve entrar no PPA federal (Plano Plurianual de 2007-2011) a Ferrovia Bahia Oeste que terá um investimento muito grande do governo federal. Estamos trabalhando para ampliar a nossa capacidade de endividamento no Tesouro Nacional para contrair no¬vos empréstimos para investirmos, principalmente, na área de infra-estrutura. Tem muito dessas parcerias que não são vistas publicamente como anúncio, por exemplo, quan¬do lançamos o Topa, o governo da Estado entra com R$ 70 milhões e o governo federal, R$ 250 milhões. Quando Solla (Jorge Solla) está fazendo uma série de avanços na saúde como a fábrica que estamos reconstruindo em Conquista, é um marco para a Bahia, mas é de recur¬so federal. Estamos já na ordem de 33 mil de ligações do programa fe¬deral Luz para Todos. A parceria com o presidente Lula e com a equipe de ministros Walfrido, Dilma e Dulce é muito boa, primeiro porque também fui ministro e depois pela simbologia da vitória daqui, mas vamos buscar mais investimentos.
Política - Entrevista /Jaques Wagner
Estado mantém parceria com ministros baianos.
TB - O fato de ter um mi¬nistro baiano comandando uma importante pasta como o Ministério das Integrações Nacionais também ajuda a angariar novos investimentos para o Estado?
JW - Sim, eu acho que o fato de ter conseguido um ministro baiano (Geddel Viei¬ra Lima), além de Waldir (ex-governador Waldir Pires, atu¬al ministro da Defesa) por¬que ele está na área, digamos assim, que não tem investimento direto, e Gil (Gil¬berto Gil, ministro da Cultura) que ajuda na área de cultura, mas evidentemente, o Minis¬tério da Integração Nacional com o projeto da interligação das bacias, com todo o volu¬me que está se investindo na revitalização (do Rio São Francisco), acredito que po¬deremos fazer uma grande parceria. Nós nos posiciona¬mos bem a nível federal, o presidente tem consciência da contribuição que a Bahia deu (para sua eleição) e essa articulação com o PMDB. É a primeira vez, em 25 anos, que o presidente consegue ter uma relação com o PMDB tão completa e todo mundo tem consciência que o PMDB daqui contribuiu para isto. É óbvio que o pre¬sidente tem que governar para os 27 estados, mas a nossa relação com o governo federal é muito boa.
TB - Acabou de ser firma¬do, por exemplo, um convê¬nio com o Ministério da Integração de R$ 13 milhões para a construção de seis novas pontes. JW -A vantagem de se ter um baiano num Ministério que tem poten¬cial investidor é esse. Então, por exemplo, estamos via Codevasf ree¬quipando as 20 residências do Derba para fazer a manu¬tenção das estradas. Vamos negociar com a Petrobras um contrato de longo prazo no sentido de três, quatro anos, para fornecimento de asfalto e insumos para fazer o traba¬lho. Nós temos 136 mil quilô¬metros de estradas estadu¬ais, sendo 20 mil asfaltadas. Portanto, na minha opinião, a área mais importante, fora os sociais, é sem dúvida nenhu¬ma a infra-estrutura.
TB - E a parceira com a prefeitura de Salvador, algu¬ma novidade?
JW - Houve uma decisão do prefeito João Henrique de mudar de partido, do ponto de vista da relação comigo, ele foi para um partido que tenho uma relação mais in¬tensa, mais próxima, apesar de também ter relação com os dois partidos. Mas o PDT, .apesar de ser claro que o partido está na minha base de sustentação, ainda não tenho uma relação declarada por parte da direção do PDT.
TB - Mas o senhor ficou zangado pelo fato de o pre¬feito não ter ido para o PT?
JW - Não fiquei zangado, porque foi uma decisão inter¬na do PT que no momento entendeu que seria melhor ele ir para o PMDB. Eu, feliz- mente, fui o primeiro presi¬dente do partido, mas por não ser um partido de ordem uni¬da, as vezes dá trabalho, mas acho também que esta é a riqueza do PT. Eu emiti minha opinião, para mim era melhor, já que ele queria sair do PDT, ir para o PT. Mas a direção municipal foi administrando de uma forma que ele acabou indo para o PMDB, mas eu continuo defendendo a mes¬ma tese. João Henrique ga¬nhou as eleições em 2004 e nós nos unimos somente no segundo turno. A primeira vez que as oposições se uniram nesta última década, por deci¬são política, foi agora na mi¬nha eleição em 2006, porque já começamos as eleições unidos e acabamos obtendo o resultado. Eu acho que é muito pouco tempo para nós nos dispersarmos já numa eleição, que acontecerá no próximo ano. Portanto, vou fazer esse esforço na maior parte das grandes cidades, porque nos pequenos municí¬pios eu sei que é difícil por¬que parte da nossa base de sustentação se divide no inte¬rior. Mas cidades como Con¬quista, Itabuna, Salvador, Fei¬ra, vou fazer esse esforço. Estamos num processo de construção de um novo agru¬pamento politico, a vitória foi uma surpresa, ninguém acre¬ditava, ela se torna realidade. Há uma divisão, dispersão das chamadas forças que eram governistas antes, en¬tão eu não vejo porque agora nós também nos dispersar. Eu defendo essa tese. Agora a minha relação com o prefei¬to João Henrique, ele era um aliado do presidente Lula, como também meu aliado, e como ele se mudou para um partido que está na minha base, não vai interferir em nada na minha relação como governador. E a relação do PT com os outros partidos, aí já é uma negociação que cabe a eles.
TB - Nesse caso que o senhor defende que os parti¬dos de sustentação de sua base devem permanecer aliados, então o senhor acha que o PT não deveria ter can¬didatura própria e sim apoiar a reeleição do prefeito João Henrique?
JW - A conseqüência disso é essa. Eu acho que a naturalidade é de quem está no cargo, já que tem o processo de reeleição, possa reivindicar, requisitar ser o candidato e isso eu já disse várias vezes. Eu tenho um jeito de fazer política que é esse, não adi¬anta fazer joguinho. Se ele está mantendo todo mundo unido, o natural é João Henri¬que, mas isso não é imposi¬tivo. Alguém pode dizer que discorda com o encaminha¬mento que está sendo dado, eu acho que ele não é um bom candidato e vou lançar candidato. Como tem dois turnos aqui é possível, mas não é minha posição, eu de¬fendo a unidade do governo no primeiro turno da eleição.
TB - Quais são os resulta¬dos das suas viagens ao ex¬terior?
JW - Muitos, mas eu gostaria de explicar melhor estas viagens. A atração de investimentos se dá por su¬cessivas idas e vindas; é um processo, então às vezes acho que há uma incompre¬ensão, as pessoas sempre fazem isso. Quando viajo, elas perguntam: o que o senhor trouxe? Às vezes até o que você traz não necessari¬amente, podemos precisar muito. Se eu vou atrair uma empresa de grande porte, se eu ficar dizendo que estou trabalhando neste sentido, outros estados vão trabalhar também. Portanto, muitas coisas que fazemos, não vou falar que é sigiloso, mas não devemos divulgar até que se concretize o negócio. O cida¬dão vem aqui, vê o terreno, conversa com outros empre¬sários. Estamos tratando com uma siderúrgica para sua instalação aqui, estava tudo certo e a siderúrgica foi vendida. Quem a comprou, no primeiro momento, disse que não iria tratar de novos investimentos, agora que já tem um tempo, ela voltou a dizer que tem interesse em investir na Bahia. Eu digo com muita tranqüilidade que estamos bem posicionados e a presença do governador em outros países tem um papel impressionante.
Política - Entrevista /Jaquers Wagner: O segredo para atair novos investimentos
TB - O que o senhor foi fazer na Espanha?
JW - Por exemplo, fui agora na Espanha, fiz uma reunião com um executivo número um de um determinado banco e ele disse que estava concluindo uma agência em São Paulo, a próxima vou fazer em Salvador. A Ford, no começo do ano, disse que iria investir mais de RS 2 bïlhões no Ceará e na Bahia e na época eles não disseram mais nada e o presidente Lula justificou que eles não poderiam dizer por conta da concorrência e eles estiveram aqui na sexta-feira dando um passo a mais. No mundo dos negócios, da política, tem dessas coisas. Mas já trouxe¬mos vários investimentos na área turística, imobiliária, o secretário de Indústria e Comércio (Rafael Amoedo) tem feito um belo trabalho, a área de meio-ambiente vem tentando se superar, dentro da regra.
TB - E com relação ao governo passado, o senhor considera que recebeu uma herança maldita?
JW - Eu não gosto muito dessa palavra, mas conside¬ro que recebi uma herança ruim. Do ponto de vista das finanças, eu recebi praticamente um R$ 1 bilhão de restos a pagar. As pessoas falem como herança maldita como se fosse somente um quadro financeiro, eu diria que eles montaram uma máquina de arrecadação boa, eles tinham na área da Fazenda uma estrutura bem montada, nós talvez es¬tejamos entre os três primei¬ros estados a lançar a nota fiscal eletrônica. Então aquilo que interessava ao Estado, ou seja, arrecadar e fiscalizar bem até tinha uma máquina razoável. Agora naquilo que interessava à sociedade que era em gastar bem, aí since¬ramente não.
TB - Por quê?
JW - O problema aqui era porque tudo era carimbado. O governador Paulo Souto fica irritado quando eu falo essas coisas, mas é verdade. A Bün¬ge quis instalar um porto aqui e não conseguiu em seu go¬verno, porque havia um inte¬resse conflitante com outro grupo empresarial. O grupo G8 não é invenção de nin¬guém da antiga oposição, era verdadeira, de contratos alta¬mente lesivos. Foi invenção deles, o G8 operou nos 16 anos dele, então essa máqui¬na, em que você arrecadava bem, mas tinha um carimbo na área de publicidade, na área de contratação de mão-de-obra, na área de seguran¬ça, na área de compra, todo ,mundo sabe na Bahia. Várias áreas eram impenetráveis, eles arrecadavam bem, mas gastavam mal seguindo os interesses dos nichos de grupos amigos do antigo go¬verno. Estamos num proces¬so de desmonte dessa ope¬ração, buscando a reformula¬ção desses contratos e acho que vamos economizar muito.
TB - E na área social?
JW - Eu acho que a mi¬nha herança maldita é justa¬mente na área social que recebi. Nós pegamos a sexta pior saúde, a pior educação, o maior número de analfabetos, 90% de estradas intrafegá¬veis.
TB - E quanto à transpa¬rência, essa é uma antiga reivindicação não só dos de¬putados, como também da sociedade?
JW - Pois é, enquanto o antigo governo não dava a senha nem para os deputa¬dos fiscalizar, que é um direito constitucional, vamos abrir as contas na Internet. Todos te¬rão acesso ao que o governo está pagando, porque pagou. Pelo CNPJ da empresa, o cidadão poderá verificar a ve¬racidade de uma denúncia. Não estbu fazendo porque sou bonzinho e sim porque acredito .que só vamos ter o uso de dinheiro público corre¬to quando tivermos transpa¬rência.
TB - O senhor está gos¬tando de governar a Bahia?
JW - Sim, é uma experi¬ência diferente. Eu já tinha a experiência de governar por¬que ministro chamam, direta¬mente, de segundo escalão, porque é abaixo do presidente e eu fui da coordenação de governo. Agora, evidentemen¬te, aumenta e muito a respon¬sabilidade. Sendo o governa¬dor, eventualmente, você é o responsável pelas coisas boas, mas eventualmente. Eu estou gostando, evidentemente, que se trabalha muito, mi¬nha média é de 14 horas por dia, mesmo nos finais de se¬mana. Na verdade, o gostar é ver os resultados. Nesses seis primeiros meses há ain¬da muito o que melhorar, mas como eu tenho a compreen¬são de que as coisas são um processo, entendo que esta¬mos ganhando musculatura. é o primeiro ano da equipe, acho que a relação com a base de sustentação até ago¬ra é boa, agora esse preen¬chimento de cargo é uma tra¬balheira. Mas tenho dito as pessoas o seguinte: é uma de paradigma essa mudança do governo anterior para este. O governo anterior as pessoas tinham o sentimento de que havia um duplo governo no Estado, um governo de fato de direito e um paralelo, de fato. Agora não tem mais isto, mas pes¬soas sabem que tem um go¬verno que não tem um mons¬tro atrás que as pessoas te¬nham medo.
TB - E sua bancada na Assembléia Legislativa?
JW - É óbvio que os depu¬tados reclamam muito mais do que no passado, porque antes era proibido reclamar. Aí tem hora que você tem que dar uma chamada e dizer: meu caro, só funciona do ou¬tro jeito? É um pouco a dis¬cussão que eu diria como criação de filho, tem o autori¬tário que o filho não briga,. mas também quando arre¬benta a casa é para valer, o outro é na base do diálogo, as vezes dá mais trabalho, mas esta mudança de cultura não é brincadeira.
TB - Há a possibilidade de aumentar a sua base na AL?
JW - Existe essa possibi¬lidade. Estamos discutindo com o PR e o PP, eu acho até que tem uma possibilidade real de aumentar essa base, mas tem que ser discutida porque quanto mais se am¬plia, obviamente, aumenta as tensões do ponto de vista da ponta dos municípios. Esta¬mos hoje com 38 deputados, mas com mais algumas se¬manas poderemos fechar um acordo.
TB - E nesse caso da pos¬sibilidade da entrada desses dois partidos no governo, po¬derá haver uma rearrumação no secretariado ou, até mes¬mo, nas autarquias?
JW - Não. Agora, segura¬mente, não terá e isso eu já disse a todos eles. O governo está montado, não vou por conta de um realinhamento político mexer precipitadamen¬te. É natural. Aí é que entra a história dos prazos, no primei¬ro ano você faz uma avaliação de como a máquina está funci¬onando, aí sim caberiam movi¬mentações administrativas e, eventualmente, incorporar no¬vos aliados. Mas agora não há hipótese em mexer numa má¬quina que está pegando o ritmo por conta de alianças.
Fonte: Jornal Tribuna da Bahia - Política
Em 2/07/2007.