Alberto Tamer - A crise está chegando

07/02/2008
Os primeiros sinais da desaceleração da economia mundial provocados pela crise financeira já estão chegando ao Brasil. As exportações começam a crescer menos em razão da menor demanda externa Por enquanto, a situação só não é bem mais grave porque os preços das commodities agrícolas e minerais continuam em alta; sozinhas,elas respondem por 90% do superávit comercial. Mas, se a economia mundial se retrair ainda mais, recuando, por exemplo, para 4,5% ou menos, como já se prevê, seguramente os preços tenderão a cair em decorrência da menor demanda.

DESEQUILÍBRIO PERIGOSOS Isso até não seria tão grave se as importações não estivessem nas alturas; em janeiro, 45,6% mais que em 2007. Afinal, mesmo crescendo em ritmo menor, as exportações ainda mantêm um nível razoável para os padrões nacionais, mas irrisório em termos de mercado internacional, só 1,1% das exportações mundiais.

O diretor da Fiesp Roberto Giannetti da Fonseca não é nem um pouco otimista, mas quem poderia sê-lo? Ele vê um quadro sombrio para o comércio exterior, com superávits encolhendo, quando deveriam aumentar para que possamos enfrentar a crise externa.

CONSUMIMOS MAIS...DELES

Para Giannetti - um técnico altamente respeitado, que foi convidado para o governo para a área comercial, mas saiu logo, correndo, desanimado diante da impossibilidade de fazer qualquer coisa na máquina burocrática estatal - a única saída é aumentar a demanda interna. Acho que ele deve ter se esquecido de que essa demanda interna, mesmo a atual, está sendo atendida por produção externa, pelas importações, que sobem como foguete. Isso agrada ao governo, pois, com preços importados menores, a pressão sobre a inflação é também menor, mas não estimula a indústria nacional, cada vez mais sufocada pelo câmbio quando pretende concorrer no mercado mundial.

Ou seja, podemos consumir mais, porém de produtos externos, que chegam a preços irrisórios,quase burlescos para a maior parte dos produtos, as vezes a menos de R$ 1.

CRIAMOS EMPREGOS...LÁ

Outro fator grave é que cada vez nos tornamos mais exportadores de matérias-primas, cuja produção gera pouco emprego, e menos industrializados. O caso da China é assustador: exportamos 60% de matérias-primas e importamos 95% de produtos industrializados. Isto é, estamos criando empregos...lá.

Esse é um desafio que o governo se recusa a enfrentar; ao contrário, agrava-o sobrecarregando as exportações com mais imposto. Na verdade, a política de comércio exterior brasileira (que, de fato, não existe) é uma espécie de samba-do-crioulo-doido, que fala o que não entende e espera que todos entendam o que também não entendem...

DAVA, NÃO DÁ MAIS

Até agora dava para suportar, pois nossas exportações cresciam para um mercado que há seis anos crescia mais. Hoje, não. E isso é especialmente ruim para o Brasil, pois, mesmo exportando mais, exportávamos pouco, numa irrisória participação de 1,1% no mercado mundial. Ficamos louvando aumentos em porcentagens que, somando muitos porcentuais no presente, em comparação com pouco do passado. É a história do um mais um é igual a um aumento de 100%.

É esse o cenário que vemos aí, para o qual todos estão atentos, menos o governo. Ranzinzice do colunista? Antes fosse, mas não é. Os ministros da Fazenda e do Desenvolvimento deveriam saber e já deveriam estar agindo há muito tempo, pois há três efeitos negativos da crise financeira atual sobre o comércio exterior brasileiro:

1- Reduz a demanda dos países desenvolvidos que mais importam produtos industrializados, de maior valor agregado:

2- Radicaliza o protecionismo; para que importar mais se podemos produzir aqui e, assim, enfrentar a nossa recessão?

3- Com o encolhimento do mercado mundial, aumenta a competição externa; os países que dispõem de melhores condições de câmbio, juro, infra-estrutura e mão-de-obra nos roubam mercado externo e invadem o nosso.

A grande verdade é que, levando em conta essas desvantagens e a insensibilidade do governo, podemos afirmar, com toda tranqüilidade, que, infelizmente, `o Brasil tem uma política antiexportadora.` Pune o empresário que exporta e beneficia os estrangeiros dos quais importamos o que antes produzíamos aqui. É essa a nossa `Política Comercial.` Com pê maiúsculo.

Mas não faz mal. Está tudo bem, e ai de quem disser o contrario! É `derrotista` que só prevê o pior. É...Pois é...

Fonte: Jornal O Estado de S. Paulo

Comentário: Alberto Tamer

Em 7/02/2008