28/04/2008
O Sodré e as ladeiras vizinhas, que correspondem à chamada `adjacências do Largo Dois de Julho`, vão mudar. Em cinco anos, as casas mal conservadas ou abandonadas irão compor um centro de lazer e comércio especialmente concebido para baianos e turistas freqüentarem. A base para esse prognóstico calculado por empresários é a ação silenciosa, que eles mesmos vêm tendo, de comprar imóveis.
Até agora, os investidores que se propõem a provocar uma revitalização imediata e radical adquiriram mais de 45 casarões, casas e ruínas de séculos atrás e dizem que vão restaurá-los. Outros 20 estão na mesa de negociação.
Ao todo, eles já desembolsaram cerca de R$ 8 milhões para adquirir imóveis que, em sua maioria, vinham sofrendo acelerado processo de deterioração. Outros grupos de compradores aguardam que o processo se defina para também atuar.
A poligonal traçada pelos próprios investidores delimita um grupo de ruas e becos entre a Praça Castro Alves e a Ladeira dos Aflitos, entre a Avenida Contorno e a Carlos Gomes. Envolve, também, edificações na primeira rua da cidade, a Conceição, que antes dos aterros da Cidade Baixa ficava na beira do mar.
Também não estão descartadas as unidades que aparecerem em condições de serem vendidas, em baixo dos arcos da ladeira de mesmo nome, onde antigos ferreiros como Zé Adário, o Zé Diabo, desenvolvem ofícios praticamente em extinção.
O foco da reocupação desse trecho do Centro Antigo de Salvador é o cotovelo da Rua Areal de Cima, onde o hotel de luxo Txai, com 40 apartamentos, começará a ser construído em setembro para ser inaugurado em dois anos. Somente ele significará um investimento em torno de R$ 20 milhões.
Do mesmo grupo que se instalou em Itacaré, município costeiro do sul da Bahia, e que se tornou destino de celebridades, o Txai Salvador terá como diferencial a exploração da vista e da brisa da Baía de Todos os Santos em uma adaptação especialmente direcionada para turistas com alto poder de compra. Em Itacaré, a diária pode chegar a R$ 1.760.
`Eu acho que Salvador tem porte para ter um hotel de charme como esse. E a gente gosta exatamente disso. Temos um público que gosta muito de área tombada, em função da arquitetura e da cultura. Dá mais trabalho, demora para aprovar o projeto (no Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional-Iphan), mas você ganha condições de ter uma coisa bem diferenciada`, justifica um dos proprietários paulistas, Nelson Morais, ex-corretor da bolsa de valores.
Até agora, a movimentação de compra dos imóveis na mão de proprietários como a Arquidiocese de Salvador (que vendeu as casinhas vizinhas ao Museu de Arte Sacra, com moradores dentro), a Santa Casa da Misericórdia e particulares chegou a um valor que dificilmente poderia ser alcançado pelas cifras das desapropriações que o governo estadual vem fazendo para instalar o seu programa Rememorar.
As próprias casas centrais do Txai teriam sido alvo deste projeto tocado pela Companhia de Desenvolvimento Urbano (Conder) caso não tivessem sido poupadas em função da promessa do antigo proprietário Manfred Peters, de que empreenderia nelas.
Ele procurava parceiros para investir e acabou vendendo as unidades ao Txai.
No outro lado do balcão há negociantes de São Paulo, Rio de Janeiro, estrangeiros e interessados locais, motivados pelo empreendedorismo de Armando Correa Ribeiro, que tem feito um trabalho de convencimento entre esses círculos. Com base no sucesso que alcançou com o restaurante Trapiche Adelaide, instalado no armazém pertencente a sua família desde 1860, e em outras iniciativas, os investidores apostam na possibilidade de lucro a partir do Sodré.
Moradores são a alma do negócio
Quem anda pelas ladeiras estreitas que se cruzam encontram nos passeios os moradores dos sobrados e de edifícios como o Calábria, o Nossa Senhora de Lurdes e o Edifício Noêmia, todos meio art dèco. Carlos Sales não mora por ali, mas vive de baixo para cima o tempo todo, porque é responsável pela segurança dos prédios comprados pelos empresários empenhados na dinamização da área. Sales faz a ronda entre os Aflitos e a Preguiça a pé e já é figura conhecida.
Nadir Passos Mendes, 71 anos, há 32 morando na mesma casa da Rua Areal de Cima, não é de muita conversa. Sempre ocupada, ela faz marmitas em vez das contemporâneas `quentinhas`.
Conta que antes morava na Soledade (único bairro tombado estadualmente). `Gosto de lugares antigos`, admite.
Nascida em Boipeba, Dona Nadir mostra com orgulho, em uma rápida turnê, que a casa tem seis quartos de dormir, três salas, corredor imenso e quintal, e que não a vende de jeito nenhum. Se realmente fosse passar o imóvel adiante, não seria por menos de R$ 200 mil, assegura. `Ganhei de meu marido quando fizemos 25 anos de casados`, agradece.
A perspectiva é a de que o bairro onde mulheres ainda `fazem feira`, descem e sobem ladeiras a pé, carregam sacolas, e compram cravo e jenipapo fresco na esquina, ganhe uma nova roupagem mas sem perder a naturalidade de um cotidiano à moda antiga que não se entrega às comodidades e conveniências do estilo shopping center.
No Sodré, ainda se vai ao bar `tomar uma` e `jogar conversa fora`. O menino da casa ainda é mandado à `venda`. E qualquer pessoa tem que superar os obstáculos dos balaios e tabuleiros de umbu, manga e araçá para poder andar da Rua do Cabeça à Democratas.
Orlando Santos, à frente do Bar do Gilson, na mesma rua do futuro Txai, explica que todo mundo se conhece. E tem certeza que os turistas que se hospedarem `no cinco estrelas` virão experimentar a bebida que ele oferece. `Acho que vai valorizar.
Do jeito que estava, entregue aos mendigos e ao tráfico, é que não dava`, disse ele, que é pai de cinco filhos, 42 anos, em uma mesa de plástico, com a televisão alta.
O freguês do bar, Ricardo Costa, 36 anos, ex-músico, desempregado e entrando no ramo de vinhos importados, explica que nem vai tentar vender para os novos vizinhos: `porque essa galera é uma rede de hotéis e já deve ter fornecedores certos`.
Valdemar Muller, conhecido como Bébo, 77 anos, que viveu no Gabriel há uns 60 anos, conta que o lugar era muito bom de morar. Que tinha muitas mangueiras, que nadava na Preguiça e que muitos craques do Bahia aprenderam a jogar bola na areia dessa praia ( M. W.) .
Isso é a favor da cidade
O secretário estadual de Turismo Domingos Leonelli disse achar excelente o interesse de empresários no Sodré. `Ainda bem que está acontecendo isso`, afirmou, lembrando se trata de uma área histórica e que, por isso, precisa ser preservada.
O secretário de Turismo declarou que acha bom que a iniciativa seja independente das ações do Estado porque acredita que a cidade precisa ser objeto de iniciativas positivas. `Os empresários precisam ser a favor da cidade, para recuperação de sua história e preservação da sua cultura. Eu acho que isso é muito bom. E se o Estado não precisar se meter, melhor ainda. Isso, inclusive, poderia ser menos raro`, analisou. Provocativo, Domingos Leonelli disse que essa proposta de investir no Sodré `não é como liberar gabarito de orla, sem restrições, para construir de qualquer forma`. `Acho que se pode pensar no lucro ligado à cultura e à história. Tomara que seja essa a intenção do empresariado que está adquirindo esses imóveis, e que eles compreendam que é necessário preservar. Porque nem sempre o lugar precisa ser tombado para ser patrimônio`, refletiu o secretár io. AUTORIZAÇÃO DO IPHAN- O projeto do Txai levou dois anos tramitando até ser aprovado pelo Iphan. O prédio na ruína nº 06 da Rua Fagundes Varela, que deverá ser uma galeria de arte, esperou o mesmo período. Com base em exemplos como esses, a preocupação é se o Iphan poderá agilizar a avaliação dos projetos de restauração para os imóveis comprados. De acordo com o decreto-lei nº 25/37, obras em prédios tombados ou no entorno deles só podem ser feitas com autorização do Iphan para impedir que haja adulterações ao patrimônio. A área em questão faz parte da poligonal de tombamento nacional e o seu entorno é parte da área de proteção rigorosa. Nela, já foram detectadas várias demolições sem que os órgãos de proteção tivessem sido consultados, ou seja demolições irregulares. Há dois anos, sete casas na encosta entre a Rua Fagundes Varela e a Visconde de Mauá foram destruídas sem que a Superintendência de Controle e Ordenamento do Uso do Solo (Sucom), nem o Iphan, tivessem tomado providências efetivas. A assessoria do Iphan informou que para a aprovação de um projeto, alguns procedimentos precisam ser cumpridos e que o órgão está ciente de que a demanda de avaliação de projetos é grande e crescente em Salvador e que vem tomando iniciativas para ampliar o atendimento. Fonte: Jornal A Tarde
r Repórter: MARY WEINSTEIN
mweinstein@grupoatarde.com.br
Em 28/04/2008.
Até agora, os investidores que se propõem a provocar uma revitalização imediata e radical adquiriram mais de 45 casarões, casas e ruínas de séculos atrás e dizem que vão restaurá-los. Outros 20 estão na mesa de negociação.
Ao todo, eles já desembolsaram cerca de R$ 8 milhões para adquirir imóveis que, em sua maioria, vinham sofrendo acelerado processo de deterioração. Outros grupos de compradores aguardam que o processo se defina para também atuar.
A poligonal traçada pelos próprios investidores delimita um grupo de ruas e becos entre a Praça Castro Alves e a Ladeira dos Aflitos, entre a Avenida Contorno e a Carlos Gomes. Envolve, também, edificações na primeira rua da cidade, a Conceição, que antes dos aterros da Cidade Baixa ficava na beira do mar.
Também não estão descartadas as unidades que aparecerem em condições de serem vendidas, em baixo dos arcos da ladeira de mesmo nome, onde antigos ferreiros como Zé Adário, o Zé Diabo, desenvolvem ofícios praticamente em extinção.
O foco da reocupação desse trecho do Centro Antigo de Salvador é o cotovelo da Rua Areal de Cima, onde o hotel de luxo Txai, com 40 apartamentos, começará a ser construído em setembro para ser inaugurado em dois anos. Somente ele significará um investimento em torno de R$ 20 milhões.
Do mesmo grupo que se instalou em Itacaré, município costeiro do sul da Bahia, e que se tornou destino de celebridades, o Txai Salvador terá como diferencial a exploração da vista e da brisa da Baía de Todos os Santos em uma adaptação especialmente direcionada para turistas com alto poder de compra. Em Itacaré, a diária pode chegar a R$ 1.760.
`Eu acho que Salvador tem porte para ter um hotel de charme como esse. E a gente gosta exatamente disso. Temos um público que gosta muito de área tombada, em função da arquitetura e da cultura. Dá mais trabalho, demora para aprovar o projeto (no Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional-Iphan), mas você ganha condições de ter uma coisa bem diferenciada`, justifica um dos proprietários paulistas, Nelson Morais, ex-corretor da bolsa de valores.
Até agora, a movimentação de compra dos imóveis na mão de proprietários como a Arquidiocese de Salvador (que vendeu as casinhas vizinhas ao Museu de Arte Sacra, com moradores dentro), a Santa Casa da Misericórdia e particulares chegou a um valor que dificilmente poderia ser alcançado pelas cifras das desapropriações que o governo estadual vem fazendo para instalar o seu programa Rememorar.
As próprias casas centrais do Txai teriam sido alvo deste projeto tocado pela Companhia de Desenvolvimento Urbano (Conder) caso não tivessem sido poupadas em função da promessa do antigo proprietário Manfred Peters, de que empreenderia nelas.
Ele procurava parceiros para investir e acabou vendendo as unidades ao Txai.
No outro lado do balcão há negociantes de São Paulo, Rio de Janeiro, estrangeiros e interessados locais, motivados pelo empreendedorismo de Armando Correa Ribeiro, que tem feito um trabalho de convencimento entre esses círculos. Com base no sucesso que alcançou com o restaurante Trapiche Adelaide, instalado no armazém pertencente a sua família desde 1860, e em outras iniciativas, os investidores apostam na possibilidade de lucro a partir do Sodré.
Moradores são a alma do negócio
Quem anda pelas ladeiras estreitas que se cruzam encontram nos passeios os moradores dos sobrados e de edifícios como o Calábria, o Nossa Senhora de Lurdes e o Edifício Noêmia, todos meio art dèco. Carlos Sales não mora por ali, mas vive de baixo para cima o tempo todo, porque é responsável pela segurança dos prédios comprados pelos empresários empenhados na dinamização da área. Sales faz a ronda entre os Aflitos e a Preguiça a pé e já é figura conhecida.
Nadir Passos Mendes, 71 anos, há 32 morando na mesma casa da Rua Areal de Cima, não é de muita conversa. Sempre ocupada, ela faz marmitas em vez das contemporâneas `quentinhas`.
Conta que antes morava na Soledade (único bairro tombado estadualmente). `Gosto de lugares antigos`, admite.
Nascida em Boipeba, Dona Nadir mostra com orgulho, em uma rápida turnê, que a casa tem seis quartos de dormir, três salas, corredor imenso e quintal, e que não a vende de jeito nenhum. Se realmente fosse passar o imóvel adiante, não seria por menos de R$ 200 mil, assegura. `Ganhei de meu marido quando fizemos 25 anos de casados`, agradece.
A perspectiva é a de que o bairro onde mulheres ainda `fazem feira`, descem e sobem ladeiras a pé, carregam sacolas, e compram cravo e jenipapo fresco na esquina, ganhe uma nova roupagem mas sem perder a naturalidade de um cotidiano à moda antiga que não se entrega às comodidades e conveniências do estilo shopping center.
No Sodré, ainda se vai ao bar `tomar uma` e `jogar conversa fora`. O menino da casa ainda é mandado à `venda`. E qualquer pessoa tem que superar os obstáculos dos balaios e tabuleiros de umbu, manga e araçá para poder andar da Rua do Cabeça à Democratas.
Orlando Santos, à frente do Bar do Gilson, na mesma rua do futuro Txai, explica que todo mundo se conhece. E tem certeza que os turistas que se hospedarem `no cinco estrelas` virão experimentar a bebida que ele oferece. `Acho que vai valorizar.
Do jeito que estava, entregue aos mendigos e ao tráfico, é que não dava`, disse ele, que é pai de cinco filhos, 42 anos, em uma mesa de plástico, com a televisão alta.
O freguês do bar, Ricardo Costa, 36 anos, ex-músico, desempregado e entrando no ramo de vinhos importados, explica que nem vai tentar vender para os novos vizinhos: `porque essa galera é uma rede de hotéis e já deve ter fornecedores certos`.
Valdemar Muller, conhecido como Bébo, 77 anos, que viveu no Gabriel há uns 60 anos, conta que o lugar era muito bom de morar. Que tinha muitas mangueiras, que nadava na Preguiça e que muitos craques do Bahia aprenderam a jogar bola na areia dessa praia ( M. W.) .
Isso é a favor da cidade
O secretário estadual de Turismo Domingos Leonelli disse achar excelente o interesse de empresários no Sodré. `Ainda bem que está acontecendo isso`, afirmou, lembrando se trata de uma área histórica e que, por isso, precisa ser preservada.
O secretário de Turismo declarou que acha bom que a iniciativa seja independente das ações do Estado porque acredita que a cidade precisa ser objeto de iniciativas positivas. `Os empresários precisam ser a favor da cidade, para recuperação de sua história e preservação da sua cultura. Eu acho que isso é muito bom. E se o Estado não precisar se meter, melhor ainda. Isso, inclusive, poderia ser menos raro`, analisou. Provocativo, Domingos Leonelli disse que essa proposta de investir no Sodré `não é como liberar gabarito de orla, sem restrições, para construir de qualquer forma`. `Acho que se pode pensar no lucro ligado à cultura e à história. Tomara que seja essa a intenção do empresariado que está adquirindo esses imóveis, e que eles compreendam que é necessário preservar. Porque nem sempre o lugar precisa ser tombado para ser patrimônio`, refletiu o secretár io. AUTORIZAÇÃO DO IPHAN- O projeto do Txai levou dois anos tramitando até ser aprovado pelo Iphan. O prédio na ruína nº 06 da Rua Fagundes Varela, que deverá ser uma galeria de arte, esperou o mesmo período. Com base em exemplos como esses, a preocupação é se o Iphan poderá agilizar a avaliação dos projetos de restauração para os imóveis comprados. De acordo com o decreto-lei nº 25/37, obras em prédios tombados ou no entorno deles só podem ser feitas com autorização do Iphan para impedir que haja adulterações ao patrimônio. A área em questão faz parte da poligonal de tombamento nacional e o seu entorno é parte da área de proteção rigorosa. Nela, já foram detectadas várias demolições sem que os órgãos de proteção tivessem sido consultados, ou seja demolições irregulares. Há dois anos, sete casas na encosta entre a Rua Fagundes Varela e a Visconde de Mauá foram destruídas sem que a Superintendência de Controle e Ordenamento do Uso do Solo (Sucom), nem o Iphan, tivessem tomado providências efetivas. A assessoria do Iphan informou que para a aprovação de um projeto, alguns procedimentos precisam ser cumpridos e que o órgão está ciente de que a demanda de avaliação de projetos é grande e crescente em Salvador e que vem tomando iniciativas para ampliar o atendimento. Fonte: Jornal A Tarde
r Repórter: MARY WEINSTEIN
mweinstein@grupoatarde.com.br
Em 28/04/2008.