12/09/2008
Apenas a ponta do iceberg. É assim que alguns especialistas definem a atual situação do mercado nacional de gás natural, que se tornou altamente dependente do combustível importado da Bolívia, país que, por conflitos políticos, chegou ontem a cortar 50% do seu fornecimento total ao Brasil, de 31 milhões de metros cúbicos. Apesar de a Petrobras ter garantido que a ausência do gás boliviano não afetou o consumidor e o governo ter estimado que a oferta voltará à normalidade em `dois ou três dias`, o clima no País é de intranqüilidade. O próprio ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, conclamou ontem a todos a torcerem para que o suprimento não volte a faltar. Reparações em parte do gasoduto boliviano garantiram a volta da entrega da maior parte do gás ao Brasil — o déficit atual baixou para 10% (3 milhões de metros cúbicos), o mesmo percentual de quarta-feira. `Mas se forem cortados novamente 15 milhões de metros cúbicos, teremos de adotar o plano de contingência`, disse Lobão.
Segundo analistas, não há gás no Brasil para alimentar os setores de consumo (usinas termelétricas, indústria, veicular e residencial). Além disso, consumidores amargam um forte aumento de preço. No semestre, o gasto com o gás boliviano cresceu quase 85%, para US$ 1,380 bilhão, puxado sobretudo pela valorização de 38,5% no preço do combustível. `Enquanto formos dependentes da importação, principalmente de países instáveis como a Bolívia, o preço do gás continuará a bel-prazer dos exportadores`, afirma o engenheiro civil e consultor Humberto Viana Guimarães.
Quadro compromete o abastecimento
- O protesto de opositores ao governo da Bolívia, que resultou nesta semana no corte de parte do fornecimento de gás natural ao Brasil e no acionamento de um plano de contingência por parte da Petrobras, é apenas a ponta do iceberg do problema vivido pelo mercado brasileiro em relação ao combustível fóssil, segundo analistas e representantes de empresas ouvidos pela Gazeta Mercantil. Além do atual quadro de desabastecimento no País - não há gás suficiente para alimentar todos os setores de consumo (usinas termelétricas, indústria, veicular e residencial) -, os consumidores vêm amargando um forte aumento de preço, tanto do produto boliviano quanto do insumo retirado do solo nacional. No primeiro semestre do ano, os gastos com o gás importado da Bolívia cresceram quase 85%, para US$ 1,380 bilhão, em relação aos US$ 748 milhões de mesmo período de 2007, segundo dados da Agência Nacional do Petróleo (ANP). Esse aumento, repassado de maneira integral às distribuidoras nacionais, é explicado pela valorização de 38,5% no preço do combustível no mesmo período, cujo valor médio subiu de US$ 4,62 por milhão de BTU (Unidade Térmica Britânica) no primeiro semestre do ano passado para US$ 6,40 por milhão de BTU nos primeiros seis meses deste ano. Em volume, as importações do gás boliviano no período aumentaram 23%, segundo a ANP.
`Enquanto formos dependentes da importação, principalmente de países instáveis como a Bolívia, o preço do gás continuará a ‘bel prazer` dos exportadores`, afirma o engenheiro civil e consultor Humberto Viana Guimarães, para quem o governo errou ao tornar o Brasil altamente dependente do produto boliviano, em vez de investir em infra-estrutura interna para escoar o insumo explorada no próprio País. `Demos prioridade para o Gasbol (o gasoduto de 3,150 mil quilômetros que transporta o gás boliviano aos estados brasileiros) e deixamos de investir nos nossos próprios dutos e ramais`, afirma.
Segundo o consultor, por falta de infra-estrutura, a Petrobras e outras empresas do setor deixam de aproveitar 15 milhões de metros cúbicos de gás por dia, ou seja, quase a metade da quantidade importada diariamente da Bolívia, de 31 milhões de metros cúbicos. Explica-se: na atividade de extração do petróleo, dependendo do perfil do poço explorado, o gás natural vem associado ao óleo. Assim, como as companhias petrolíferas não têm condições de colocar no mercado todo o combustível retirado - por falta de infra-estrutura -, a única saída é reinjetar no solo parte do volume do gás extraído ou queimá-lo. `É um grande contra-senso que de um lado gastemos US$ 1,380 bilhão em importações somente no período de seis meses e de outro queimemos e reinjetemos um grande volume de gás`, diz.
Segundo o diretor do Centro Brasileiro de Infra-Estrutura (CBIE), Adriano Pires, o avanço do preço do combustível boliviano no primeiro semestre acompanhou a disparada do petróleo no período. `O contrato com a Bolívia estabelece reajustes trimestrais em função de uma cesta de óleos no mercado internacional. Como o petróleo subiu muito no período - para acima de US$ 120 o barril -, o gás acompanhou esse movimento`, diz.
. No mercado interno, o gás vendido pela Petrobras aos distribuidores também tem subido consideravelmente de preço, embora não seja possível apontar um valor único para o combustível nacional, pois sua cotação depende de muitas variáveis, tais como região distribuidora, se o consumidor é temporário ou cativo, além do volume comprado e o segmento de atuação no mercado.
No entanto, em junho último, com base em seu reajuste anual, a Companhia de Gás de São Paulo (Comgás), maior distribuidora de gás encanado do Brasil, passou a cobrar 17,6% mais dos cerca de 700 mil consumidores residenciais situados na área de concessão da distribuidora. Para a indústria e o segmento de gás natural veicular (GNV), o reajuste no estado de São Paulo foi de 28% (média entre vários setores) e 40,82%, respectivamente.
A Comgás garantiu, ontem à tarde, por meio de comunicado à imprensa, que a sua distribuição não foi afetada pelo corte boliviano. `Até o presente momento não houve qualquer redução no suprimento e, portanto, o fornecimento a nossos clientes continua normal`, afirma a empresa. A companhia, porém, diz que já existe `um plano de contingência para ser colocado em prática caso seja necessário. `Em qualquer cenário está garantido o abastecimento de gás ao setor residencial e aos serviços essenciais, como hospitais`, diz o comunicado.
Segundo Daniela Santos, advogada do escritório L.O.Baptista Advogados, o impacto imediato da redução do suprimento do gás boliviano reflete na realocação do suprimento para os consumidores considerados prioritários. `No Brasil, no curto prazo, o racionamento de gás deverá resultar no desabastecimento temporário (até a reparação do gasoduto) de algumas indústrias de São Paulo e no sul do País, que utilizam o combustível`, afirma.
Para Pires, o diretor do CBIE, entretanto, o mercado de São Paulo - maior consumidor nacional de gás - passa por uma fase de oferta e demanda bastante ajustada, o que coloca o estado `na ante-sala de racionamento`. `A secretária de Energia de São Paulo (Dilma Pena) tem em mãos um estudo que aponta que a oferta em São Paulo não consegue acompanha nem mesmo o crescimento vegetativo do mercado`, afirma Pires, referindo-se ao crescimento econômico do País.
Falta de transparência
Para o superintendente da Associação Técnica Brasileira das Indústrias Automáticas de Vidro (Abividro), Lucien Belmonte, setor que consome diariamente cerca de 1,5 milhão de metros cúbicos de gás, `não há uma regra clara em relação ao cálculo do preço gás. `Dizem que o preço do gás tem a ver com o do petróleo, mas vimos o barril bater os US$ 140, para depois seguir uma trajetória de baixa até cair para perto de US$ 100. No entanto, até agora, a cotação do gás não acompanhou esse movimento de baixa`, afirma Belmonte. `É preciso ter uma diretriz, acrescenta o superintendente da Abividro, para salientar que o `Brasil é o país que tem o gás mais caro do mundo`. `Isso prejudica a competitividade brasileira. Nunca tivemos regras claras neste setor e, há muito tempo, sentimos escassez do insumo`.
Segundo o diretor do CBIE, diante da atual incapacidade da Petrobras em elevar rapidamente a sua produção interna de gás e do problema com os bolivianos, a estatal petrolífera não tem encontrado outra saída senão promover a redução de consumo por meio da elevação artificial de preço. `Essa é a maneira que a Petrobras encontrou para desestimular o consumo de gás no País, ou seja, é uma espécie de racionamento econômico, estratégia utilizada pela estatal para evitar o racionamento físico`, afirma Pires.
Para Pires, o Brasil está longe de resolver o problema de abastecimento de gás. `A crise vai perdurar pelos próximos cinco anos, até que a Petrobras coloque em prática o projeto de investimentos na malha de gasodutos`, diz.
Repórteres: Denis Cardoso e Roberta Scrivano
Fonte: Gazeta Mercantil
12/9/2008.
Segundo analistas, não há gás no Brasil para alimentar os setores de consumo (usinas termelétricas, indústria, veicular e residencial). Além disso, consumidores amargam um forte aumento de preço. No semestre, o gasto com o gás boliviano cresceu quase 85%, para US$ 1,380 bilhão, puxado sobretudo pela valorização de 38,5% no preço do combustível. `Enquanto formos dependentes da importação, principalmente de países instáveis como a Bolívia, o preço do gás continuará a bel-prazer dos exportadores`, afirma o engenheiro civil e consultor Humberto Viana Guimarães.
Quadro compromete o abastecimento
- O protesto de opositores ao governo da Bolívia, que resultou nesta semana no corte de parte do fornecimento de gás natural ao Brasil e no acionamento de um plano de contingência por parte da Petrobras, é apenas a ponta do iceberg do problema vivido pelo mercado brasileiro em relação ao combustível fóssil, segundo analistas e representantes de empresas ouvidos pela Gazeta Mercantil. Além do atual quadro de desabastecimento no País - não há gás suficiente para alimentar todos os setores de consumo (usinas termelétricas, indústria, veicular e residencial) -, os consumidores vêm amargando um forte aumento de preço, tanto do produto boliviano quanto do insumo retirado do solo nacional. No primeiro semestre do ano, os gastos com o gás importado da Bolívia cresceram quase 85%, para US$ 1,380 bilhão, em relação aos US$ 748 milhões de mesmo período de 2007, segundo dados da Agência Nacional do Petróleo (ANP). Esse aumento, repassado de maneira integral às distribuidoras nacionais, é explicado pela valorização de 38,5% no preço do combustível no mesmo período, cujo valor médio subiu de US$ 4,62 por milhão de BTU (Unidade Térmica Britânica) no primeiro semestre do ano passado para US$ 6,40 por milhão de BTU nos primeiros seis meses deste ano. Em volume, as importações do gás boliviano no período aumentaram 23%, segundo a ANP.
`Enquanto formos dependentes da importação, principalmente de países instáveis como a Bolívia, o preço do gás continuará a ‘bel prazer` dos exportadores`, afirma o engenheiro civil e consultor Humberto Viana Guimarães, para quem o governo errou ao tornar o Brasil altamente dependente do produto boliviano, em vez de investir em infra-estrutura interna para escoar o insumo explorada no próprio País. `Demos prioridade para o Gasbol (o gasoduto de 3,150 mil quilômetros que transporta o gás boliviano aos estados brasileiros) e deixamos de investir nos nossos próprios dutos e ramais`, afirma.
Segundo o consultor, por falta de infra-estrutura, a Petrobras e outras empresas do setor deixam de aproveitar 15 milhões de metros cúbicos de gás por dia, ou seja, quase a metade da quantidade importada diariamente da Bolívia, de 31 milhões de metros cúbicos. Explica-se: na atividade de extração do petróleo, dependendo do perfil do poço explorado, o gás natural vem associado ao óleo. Assim, como as companhias petrolíferas não têm condições de colocar no mercado todo o combustível retirado - por falta de infra-estrutura -, a única saída é reinjetar no solo parte do volume do gás extraído ou queimá-lo. `É um grande contra-senso que de um lado gastemos US$ 1,380 bilhão em importações somente no período de seis meses e de outro queimemos e reinjetemos um grande volume de gás`, diz.
Segundo o diretor do Centro Brasileiro de Infra-Estrutura (CBIE), Adriano Pires, o avanço do preço do combustível boliviano no primeiro semestre acompanhou a disparada do petróleo no período. `O contrato com a Bolívia estabelece reajustes trimestrais em função de uma cesta de óleos no mercado internacional. Como o petróleo subiu muito no período - para acima de US$ 120 o barril -, o gás acompanhou esse movimento`, diz.
. No mercado interno, o gás vendido pela Petrobras aos distribuidores também tem subido consideravelmente de preço, embora não seja possível apontar um valor único para o combustível nacional, pois sua cotação depende de muitas variáveis, tais como região distribuidora, se o consumidor é temporário ou cativo, além do volume comprado e o segmento de atuação no mercado.
No entanto, em junho último, com base em seu reajuste anual, a Companhia de Gás de São Paulo (Comgás), maior distribuidora de gás encanado do Brasil, passou a cobrar 17,6% mais dos cerca de 700 mil consumidores residenciais situados na área de concessão da distribuidora. Para a indústria e o segmento de gás natural veicular (GNV), o reajuste no estado de São Paulo foi de 28% (média entre vários setores) e 40,82%, respectivamente.
A Comgás garantiu, ontem à tarde, por meio de comunicado à imprensa, que a sua distribuição não foi afetada pelo corte boliviano. `Até o presente momento não houve qualquer redução no suprimento e, portanto, o fornecimento a nossos clientes continua normal`, afirma a empresa. A companhia, porém, diz que já existe `um plano de contingência para ser colocado em prática caso seja necessário. `Em qualquer cenário está garantido o abastecimento de gás ao setor residencial e aos serviços essenciais, como hospitais`, diz o comunicado.
Segundo Daniela Santos, advogada do escritório L.O.Baptista Advogados, o impacto imediato da redução do suprimento do gás boliviano reflete na realocação do suprimento para os consumidores considerados prioritários. `No Brasil, no curto prazo, o racionamento de gás deverá resultar no desabastecimento temporário (até a reparação do gasoduto) de algumas indústrias de São Paulo e no sul do País, que utilizam o combustível`, afirma.
Para Pires, o diretor do CBIE, entretanto, o mercado de São Paulo - maior consumidor nacional de gás - passa por uma fase de oferta e demanda bastante ajustada, o que coloca o estado `na ante-sala de racionamento`. `A secretária de Energia de São Paulo (Dilma Pena) tem em mãos um estudo que aponta que a oferta em São Paulo não consegue acompanha nem mesmo o crescimento vegetativo do mercado`, afirma Pires, referindo-se ao crescimento econômico do País.
Falta de transparência
Para o superintendente da Associação Técnica Brasileira das Indústrias Automáticas de Vidro (Abividro), Lucien Belmonte, setor que consome diariamente cerca de 1,5 milhão de metros cúbicos de gás, `não há uma regra clara em relação ao cálculo do preço gás. `Dizem que o preço do gás tem a ver com o do petróleo, mas vimos o barril bater os US$ 140, para depois seguir uma trajetória de baixa até cair para perto de US$ 100. No entanto, até agora, a cotação do gás não acompanhou esse movimento de baixa`, afirma Belmonte. `É preciso ter uma diretriz, acrescenta o superintendente da Abividro, para salientar que o `Brasil é o país que tem o gás mais caro do mundo`. `Isso prejudica a competitividade brasileira. Nunca tivemos regras claras neste setor e, há muito tempo, sentimos escassez do insumo`.
Segundo o diretor do CBIE, diante da atual incapacidade da Petrobras em elevar rapidamente a sua produção interna de gás e do problema com os bolivianos, a estatal petrolífera não tem encontrado outra saída senão promover a redução de consumo por meio da elevação artificial de preço. `Essa é a maneira que a Petrobras encontrou para desestimular o consumo de gás no País, ou seja, é uma espécie de racionamento econômico, estratégia utilizada pela estatal para evitar o racionamento físico`, afirma Pires.
Para Pires, o Brasil está longe de resolver o problema de abastecimento de gás. `A crise vai perdurar pelos próximos cinco anos, até que a Petrobras coloque em prática o projeto de investimentos na malha de gasodutos`, diz.
Repórteres: Denis Cardoso e Roberta Scrivano
Fonte: Gazeta Mercantil
12/9/2008.