O capitalismo salvou o biodiesel

18/06/2008
Quem olha o mapa das usinas de biodiesel que já funcionam no Brasil tem dois motivos para ficar perplexo: primeiro, trata-se de uma atividade que simplesmente não existia dois anos atrás e agora exibe 38 unidades industriais que trabalham a plenos pulmões, com outras 47 em diversos estágios de construção; em segundo lugar, o programa lançado por iniciativa do governo federal para levar trabalho e renda para famílias carentes está muito rarefeito no Nordeste, alvo prioritário da iniciativa liderada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. No lugar da mamona ou do pinhão-manso, 70% do biocombustível misturado obrigatoriamente ao diesel na proporção de 2% é processado a partir da soja (o que é conhecido como B2). A parte social do projeto ficou no sonho. A realidade da eficácia capitalista tomou conta desse mercado altamente subsidiado, que funciona debaixo da partitura composta e regida pela Petrobras - que investe agora para se tornar o principal fornecedor, numa tentativa de resgatar o propósito inicial do programa.

O mercado recente é promissor, incentivado pela legislação: a mistura do biodiesel vendida nos postos do país conterá 3% de energia renovável a partir de julho (o que é conhecido como B3), quando a demanda mensal subirá para cerca de 115 milhões de litros. E até 2010 a mistura chegará a 5%, limite atual dos motores que rodam a diesel.

Nos três últimos anos houve uma corrida em busca de licenças da Agência Nacional do Petróleo, Gás e Biocombustíveis (ANP) para produzir biodiesel com incentivos fiscais e financiamento. Os benefícios podem chegar a 100%, se o projeto estiver instalado no Semi-Árido do Nordeste e utilizar 50% de agricultura familiar em sua cadeia produtiva. Quem segue o enredo à risca é premiado pela ANP com o chamado Selo Social, que concede privilégios também nas participações dos leilões oficiais, com cotas separadas.

Debaixo dessa inundação de benefícios custeados pela sociedade, e com o suporte do financiamento a 9% de juro anual s oferecido pelo BNDES, pipocam no país os futuros `barões` do biodiesel, que são geralmente empresas grandes, com escala para facilitar a redução nos custos de produção. É meia dúzia de nomes, entre os quais Nelson Côrtes, fundador da Brasil Ecodiesel, por ora líder no setor, e Juan Diego Férres, fundador e presidente da Granol, segunda maior. São investidores que até agora cumprem os prazos de contratos obtidos nos leilões periódicos da ANP, têm planos de expansão mais ousados que a média do mercado e se dizem tranqüilos ante a chegada iminente da Petrobras, que conclui três unidades produtoras nos próximos 60 dias.

`A ‘planta premium` da Petrobras será no Nordeste, com capacidade inicial de produção de 300 milhões de litros por ano e vocação para exportar. Será, portanto, perto de um porto`, afirma Graça Foster, que foi presidente da BR Distribuidora e acaba de assumir essa área nova na estatal. Enquanto essa megausina está em gestação, a Petrobras prepara a festa de inauguração das unidades que ergue em Candeias, na Bahia, Montes Claros, em Minas Gerais, e Quixadá, no Ceará, com capacidade total de produção de 171 milhões de litros por ano e tecnologia comprada no exterior. Nesses projetos, a agricultura familiar deverá ter até 50% de participação no plantio das oleaginosas, entre soja, girassol e dendê. Há 53 mil agricultores cadastrados no programa. No qüinqüênio 2008-2012, a Petrobras reserva investimentos de US$ 1,5 bilhão em energias renováveis, com ênfase no biocombustível. A meta é oferecer 938 milhões de litros em 2012 e 1,2 bilhão em 2015. Hoje, a Brasil Ecodiesel, líder inconteste, pode fazer apenas 350 milhões de litros por ano.

A escala de produção é cada vez mais decisiva num mercado que normalmente opera com margens apertadas. No leilão mais recente, da semana passada, a Petrobras - que compra praticamente 95% da produção nacional de biodiesel - pagou R$ 3,30 por litro, ao arrematar 33 milhões de litros. Dois meses atrás, esse mesmo produto foi comprado por R$ 2,69. O preço médio do diesel nas bombas está em R$ 1,87 o litro. Isso significa um subsídio estatal de mais de R$ 1,50. Só não afeta o balanço da Petrobras porque o total ainda é irrisório.

O modelo familiar é tido como promissor por especialistas. O mais entusiasmado é o responsável pelo programa no Ministério de Minas e Energia, José Lima de Andrade Neto. `É tão bem-sucedido que antecipamos o B3 (3% de mistura de biodiesel ao diesel da bomba) para julho.` O secretário exibe seus dados para sustentar sua euforia. Hoje, o Brasil já possui capacidade instalada para produzir 2,7 bilhões de litros por ano, o que deve abastecer com folga a projeção de consumo interno para 2008, de 1,2 bilhão de litros. O volume e o andamento acelerado desse mercado fizeram com que o governo, com a ANP, antecipasse a elevação da mistura do biodiesel para estimular o mercado interno - que já aposta na antecipação também das proporções B4 para 2009 (a data original era 2013) e B5 no início de 2010. Caso esse calendário se realize, o presidente da União Brasileira do Biodiesel (Ubrabio), Juan Diego Férres, na vida empresarial líder da Granol, calcula que a produção deverá bater os 2 bilhões de litros já em 2009.

`Para dar certo nesse mercado, a logística de distribuição do produto até a bomba tem de funcionar bem`, diz o fundador da Brasil Ecodiesel, Nelson Côrtes. A empresa foi a primeira do setor que fez IPO (oferta inicial de ações) na Bolsa de São Paulo. Levantou na operação, no ano passado, R$ 350 milhões. Esse recurso bancou seis unidades de fabricação, com capacidade para 600 milhões de litros por ano. A empresa articula 65 mil parceiros-fornecedores em todo o país.

Mais antiga que todas as outras, a Granol começou em 1966 e tem ainda hoje algumas das marcas de óleo de cozinha mais populares nas prateleiras de supermercados. Como exporta 70% de sua produção de farelo de soja e 10% da de óleo de cozinha, Juan Diego Férres é o único empresário do ramo que já possui terminais marítimo e fluvial, que poderão servir no futuro para a comercialização externa do biodiesel. Por ora, contudo, os olhos de Diego estão fixados na demanda interna. `O preço está ficando cada vez mais interessante`, diz.

Há algumas nuvens nesse quadro. A inadimplência já sobe a 30% daquilo que os empresários do setor tomaram emprestado. `Esse porcentual é muito alto. Talvez alguns não agüentem e tenham de sair dessa atividade`, afirma o presidente da Ubrabio. Também há mais usinas prontas e inoperantes que usinas produzindo. De um total de 885 milhões de litros de biodiesel comprometidos nos leilões da ANP, em 2005 e 2006, para produção e consumo em 2007, somente 402 milhões de litros foram entregues. A produção melhora e os preços se corrigem, como se viu. Mas o passo do programa está muito longe do acerto almejado por Lula. `A razão de tamanho descompasso está na significativa elevação do preço das matérias-primas, principalmente do óleo de soja`, diz o pesquisador da Embrapa Amélio Dall`Agnol. Para viver com saúde, a usina de biodiesel depende da garantia de fornecimento da matéria-prima com preços competitivos e previamente acertados. Algumas venderam nos leilões sem contratos firmes e não tiveram condições de entregar o produto. Outras cumpriram o compromisso assumido, mas operam no vermelho.

O Brasil tem terra apta e disponível, clima ótimo e bastante subsídio - ou seja, muito potencial. Mas, em 2006, foi apenas o 14o produtor de biodiesel. Pode ter alcançado o quarto lugar no ano passado (os números mundiais definitivos ainda não foram divulgados), mas só vai disputar a liderança, hoje com a Alemanha, a partir de 2009.

Na frente tecnológica, as nuvens parecem menos carregadas. As três principais indústrias de caminhões e ônibus estão vários passos adiante do mercado no desenvolvimento de seus motores para uso do biodiesel. Enquanto se fala em 4% a 5% de biodiesel nos tanques, já se testam motores com 20%; e até o B100 - biodiesel puro no motor - já não é uma utopia.

`A partir deste mês os nossos veículos já podem rodar com B5 sem nenhum problema nem alterações e com garantia de fábrica. Os testes com B20 também estão se mostrando bastante promissores`, afirma Roberto Cortes, presidente da Volkswagen Caminhões no Brasil. O executivo diz que essa vocação veio da Alemanha, sede da Volks mundial, onde o biodiesel está no DNA da empresa. O B100 já é testado pela Volkswagen e por uma concorrente direta no Brasil, a Mercedes-Benz. `O B5 já está aprovado`, afirma Gilberto Leal, responsável pelo desenvolvimento de motores da Mercedes. `Para o B20, já temos 1,5 milhão de quilômetros rodados, sem nenhum problema no motor. Vamos encerrar com 2 milhões.`

Daqui a duas semanas, será a vez de São Paulo e Paraná receberem ônibus e caminhões Mercedes rodando com biodiesel puro. Outra concorrente, a Scania, não realizou testes para o B2 e B3. Só começa a se preocupar com a mistura a partir do B5. Segundo a empresa, as misturas até 3% não representam perigo algum ao motor. A Scania tem 500 caminhões rodando na Europa só com 100% de biodiesel, mas há diferenças entre os motores utilizados lá e aqui, devido às especificações técnicas de cada país europeu e do Brasil.

Se as demais peças desse quebra-cabeça marchassem com planejamento e constância, os problemas já estariam para trás num programa que hesita em confessar que sua matéria-prima de estimação, a mamona, representa irrisório 0,03% da oferta de biodiesel. Esse tiro deu errado. Mas a pujança agrícola, mais uma vez, pode salvar o pescoço de quem pôs a idéia na rua sem noção de como entregar o prometido - no caso, o entusiasmado presidente Lula.

Repórter: Roseli Loturco

Fonte: Revista Époc, nº. 0526

17/6/2008