Como é duro investir US$ 2,5 bilhões

08/09/2008
Quando a empresa sueco-finlandesa Stora Enso - líder mundial no setor de papel e produtos florestais - decidiu construir, há dois anos, um gigantesco complexo industrial no sudoeste do Rio Grande do Sul acreditou que seria recebida de braços abertos pelas autoridades brasileiras. Afinal, trata-se da região mais pobre do Estado e que depende basicamente da atividade pecuária. Além disso, qualquer investimento desse porte sempre é bem-vindo. Enganou-se. Por iniciativa do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), órgão do governo responsável pela liberação de terras, o projeto de mais de US$ 2,5 bilhões e geração de 30 mil empregos diretos e indiretos está emperrado. O impasse não é ambiental, como geralmente ocorre com empresas desse segmento. O Incra, baseado em uma lei do Conselho de Defesa Nacional, de 1971, alega que não pode entregar faixas de fronteira para o capital estrangeiro. Por outro lado, a multinacional contra-ataca e se diz amparada na Constituição Federal, que desde 1988 proíbe a distinção entre capitais nacional e estrangeiro na distribuição de terras. O assunto foi parar nos tribunais e ainda não passou pela primeira instância.

Essa queda-de-braço deverá exigir muito esforço de ambas as partes. Isso porque metade do território gaúcho fica em área de fronteira, e a Stora Enso já possui 46 mil hectares de áreas plantadas no Estado. `Não temos como redirecionar os investimentos nessa altura do jogo`, argumenta o vice-presidente da Stora Enso para a América Latina, Otavio Pontes. Além disso, o Incra, que evita comentar a decisão, mantém uma postura inflexível e defende a cessão daquela área para assentamento de famílias sem-terra. Se perder na Justiça, o Incra afirma que irá recorrer para impedir o plantio de árvores em terras que hoje são pastos. Essa polêmica já sobrou até para o governo do Rio Grande do Sul, que tenta mediar o conflito. Por enquanto, sem sucesso. Diante do impasse, com todas as licenças ambientais liberadas, no mês passado a Stora Enso entrou com recurso na Advocacia- Geral da União para tentar desatar o nó. `É difícil saber quando o assunto terá uma definição. Estamos cumprindo todas as exigências da legislação brasileira e aguardando um desfecho, em breve`, diz Pontes.

ALÉM DO PROJETO GAÚCHO, A STORA ENSO PLANEJA EXPANSÃO DE R$ 1,2 BILHÃO EM SUA FÁBRICA DE EUNÁPOLIS, NA BAHIA

Apesar da novela com o Incra, a Stora Enso está determinada a investir no País. Enquanto o embate jurídico não se define no projeto gaúcho, a companhia estuda para o próximo ano a ampliação da fábrica de Eunápolis, na Bahia, vizinha a Porto Seguro. Com investimento de US$ 1,2 bilhão, a unidade foi inaugurada em 2005 e funciona em conjunto com as gigantes Veracel e Aracruz. A capacidade produtiva da planta saltará do atual um milhão de toneladas por ano para até 2,5 milhões de toneladas/ano até 2011. `O Brasil reúne todas as condições necessárias para a produção de celulose: terra excelente para plantio, bom regime de chuvas e infra-estrutura logística, para escoar a produção, adequada em algumas regiões, como a Bahia e o Rio Grande do Sul. Por essa combinação de fatores, apostamos muito no País`, completa Pontes. O País é peça-chave no plano de expansão da companhia no mundo. Segundo o vice-presidente da companhia, a celulose brasileira é muito competitiva no mercado internacional em razão dos baixos custos de produção. `Na América Latina, temos negócios também na Argentina, no Uruguai, Chile e México. No entanto, pelo potencial do País, é no Brasil que temos concentrado nossas apostas`, conclui Pontes.

Repórter: HUGO CILO

Fonte: Isto é Dinheiro num. 0571

6/9/2008.