AÉREAS PERDEM R$ 5 BI COM TRANSPORTE DE PASSAGEIROS

30/11/2010
As companhias aéreas brasileiras perderam R$ 5,3 bilhões nos últimos quatro anos - período em que a demanda doméstica cresceu 58,8% e a internacional recuou 17,2% -, levando-se em conta somente receitas e despesas com a sua atividade principal: o transporte aéreo de passageiros.

O prejuízo bilionário, que não inclui outros serviços como embarque de cargas e operações financeiras, foi apurado no Anuário do Transporte Aéreo de 2009, da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac). Especialistas e executivos do setor afirmam que a conta não fecha por uma conjugação de fatores: crise econômica, dois acidentes aéreos de grandes proporções e guerra de preços nas passagens.

Nos anos 2000, o setor aéreo só ganhou dinheiro com o transporte de passageiros entre 2003 e 2005. O consultor aeronáutico Paulo Bittencourt Sampaio lembra que nessa época o acordo de compartilhamento de voos entre a TAM e a Varig puxou para cima os preços das tarifas. E o impacto desse reajuste, conta ele, perdurou até meados de 2005, pois a parceria foi desfeita em meados de 2004.

A partir de 2006, até 2009, o setor aéreo acumulou prejuízo de R$ 5,3 bilhões em seus voos, sem considerar receitas extras.

`Em 2001 e 2002 o resultado negativo foi influenciado pelo impacto dos atentados terroristas de 11 de setembro. Em meados de 2003, houve recuperação também porque o antigo Departamento de Aviação Civil [órgão que antecedeu a Anac] fez um congelamento de oferta. Com isso, as tarifas também subiram`, afirma Sampaio.

Em 2006, quando começou a série de quatro anos consecutivos de prejuízo ao setor, Sampaio destaca a crise da Varig. `Em 2007 e 2008, houve um crescimento acelerado de TAM e Gol. As empresas de médio e pequeno portes também cresceram, pois entraram na competição com tarifas baixas`, diz.

O diretor de mercado de capitais da Gol, Rodrigo de Macedo Alves, diz que o período de 2006 a 2009 foi de transformações. `Desde 2006, tivemos os acidentes da Gol e da TAM e o caos aéreo, com a greve de controladores de tráfego aéreo. Nesse período também compramos a Varig e os nossos planos de manter voos de longa duração não deram certo`. Tanto Alves, da Gol quanto Beting, da Azul, dizem que a conta do setor aéreo tem chances de ser superavitária com a busca por mais receita de outros serviços como venda de lanches a bordo e assentos mais confortáveis. Na Gol, serviços extras respondem por 11% do faturamento, mas a ideia é chegar a 15% em 2011.

O anuário da Anac revelou pela primeira vez os resultados da Azul, que iniciou suas atividades em 15 de dezembro de 2008 e já é a terceira maior em fluxo de passageiros. Apesar da receita bruta de R$ 392,5 milhões, ela teve margem de lucro negativa de 38%, evidenciando as dificuldades de se ganhar dinheiro no setor. `De maneira geral, estamos muito satisfeitos com os resultados`, diz o diretor de marketing da Azul. O levantamento da Anac mostra que a regional Trip já tem a quarta maior receita, de R$ 449,6 milhões em 2009. Perde apenas para TAM, Gol e Webjet.

`É muito provável que sejamos hoje a terceira maior empresa em termos de receita`, diz o diretor de marketing e vendas da Trip, Evaristo Mascarenhas. Segundo ele, o resultado de 2009 foi obtido com a estratégia de ampliar o número de cidades que não eram atendidas. Em 2009, a companhia atendia 75 cidades e quer ampliar esse total para 84 em 2010. O gerente de relações com o investidor da TAM, Jorge Helito, defende que sejam incluídos no anuário da Anac receitas e gastos de outros serviços.

Autor(es): Alberto Komatsu | De São Paulo

Valor Econômico - 30/11/2010.