Show de horrores na bolsa

10/09/2008
Durou apenas um dia a euforia que dominou a maior parte dos mercados financeiros mundiais, depois que o governo dos Estados Unidos anunciou um socorro de até US$ 200 bilhões para resgatar a Fannie Mae e a Freddie Mac, as duas maiores empresas imobiliárias daquele país. Ontem, uma terça-feira de `show de horrores`, como bem definiu a economista Alessandra Ribeiro, da Consultoria Tendências, todas as bolsas de valores do planeta derreteram. E a Bolsa de São Paulo (Bovespa), que, na véspera, já havia destoado do restante dos mercados, ao operar em baixa, afundou de vez.

O Ibovespa, principal índice de lucratividade do pregão paulista, fechou nos 48.435 pontos, retornando aos níveis de 13 de abril de 2007. O tombo de 4,5%, a segunda maior baixa do ano em um único dia, foi sustentado pela fuga dos investidores estrangeiros, o que, por tabela, levou o dólar a subir 2,1%, para R$ 1,772, o patamar mais elevado desde janeiro último. No acumulado do ano, a Bovespa já caiu 24,1%. Isso significa dizer que o valor de mercado de todas as empresas listadas na bolsa paulista encolheu cerca de R$ 650 bilhões. `É o preço do pânico que se instalou no mercado e da aversão ao risco`, disse o economista-chefe do Banco ABC Brasil, Luís Otávio de Souza Leal.

Mais uma vez, a crise financeira dos Estados Unidos, que começou em agosto do ano passado com o estouro da bolha imobiliária, foi o grande estopim do terremoto que deixou prejuízos por todos os lados. Os investidores aventaram a possibilidade de quebra do Lehman Brothers, o quarto maior banco de investimentos dos EUA. Com isso, as ações do Lehman desabaram 44,95%, resultado que empurrou os papéis de todas as empresas financeiras listadas na Bolsa de Nova York para o buraco. O índice Dow Jones, o principal do mercado americano, recuou 2,43%. O Standard and Poor`s 500, que acompanha as 500 maiores companhias, cedeu 3,41%. Na Nasdaq, a bolsa eletrônica, a queda atingiu 2,64%. Crise continuará

A prévia do `show de horrores` ao qual a economista Alessandra Ribeiro se referiu começou na Ásia, com o tombo de 1,77% na Bolsa Tóquio, e ganhou força na Europa. Em Londres, onde o governo admitiu a possibilidade de seguir o exemplo de socorro da Fannie Mae e da Freddie Mac para salvar o mercado imobiliário inglês, a bolsa cedeu 0,56%. Em Frankfurt, a perda ficou em 0,48%. Além de estarem com os sistemas financeiros abalados, por terem se envolvido com os títulos de altíssimo risco (subprimes) do mercado imobiliário americano, o Japão e a Europa estão sofrendo com a alta da inflação e caminham rapidamente para a recessão.

`É por isso que os prejuízos têm sido tão grandes na Bovespa e o dólar vem ganhando força frente ao real e a todas as outras moedas`, afirmou o analista Mário Paiva, da Corretora Liquidez. Ele explicou que, se realmente os países mais ricos do mundo, aí incluídos os Estados Unidos, forem engolidos pela recessão, haverá menor consumo por commodities, como petróleo, soja e minérios. Como os investidores não querem esperar para ver, venderam seus contratos e os preços dessas mercadorias desabaram. E, junto com eles, as ações de empresas produtoras. Os papéis da Petrobras computaram queda de 6,31%, os da Vale recuaram 4,33%, os da Companhia Siderúrgica Nacional (CNN) caíram 8,29% e os da Usiminas, 8,67%.

As ações da Petrobras e das demais petrolíferas foram prejudicadas ainda pela decisão da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) de manter seu atual nível de produção, apesar da baixa no preço do barril. Essa postura, segundo Shokri Ghanem, diretor da Agência de Petróleo da Líbia, foi tomada em reunião em Viena. Juntos, os países da Opep produzem 32,77 milhões de barris de petróleo por dia. Na Bolsa de Londres, o barril foi negociado a menos de US$ 100: exatos US$ 98,52, com desvalorização de 2,89%. Em Nova York, a cotação ficou em US$ 102,02, menos 4,06% que na véspera.

Na avaliação de Mário Paiva, não há nenhuma perspectiva de os mercados se recuperarem tão cedo. `Há muita coisa ruim para ser descoberta. É possível que o rombo da bolha imobiliária americana passe de US$ 1 trilhão`, destacou. Segundo o ex-ministro da Fazenda Rubens Ricupero, o que dá tranqüilidade é que o Brasil passará por essa turbulência com reservas cambiais superiores a US$ 200 bilhões e com o consumo interno fortalecido.

A escalada monetária

O mercado financeiro aposta que o dólar deve bater hoje a marca do R$ 1,80, podendo atingir R$ 2 na próxima semana. Essa valorização não assusta o ministro da Fazenda, Guido Mantega. O impacto da apreciação sobre a inflação, segundo ele, será neutralizado pela forte queda dos preços das commodities (produtos com cotação internacional). Para o ministro, uma coisa é certa: `Chegamos no limite da valorização do real`.

Um dia antes da divulgação da nova taxa de juros pelo Comitê de Política Monetária (Copom), Mantega ressaltou que `podemos dormir tranqüilos do ponto de vista da inflação (…), dormir com um olho aberto. Tivemos um IGP-DI com deflação`, lembrou. Ele explicou que a baixa dos preços das commodities compensa o impacto da elevação do dólar sobre os preços. Para o ex-ministro da Fazenda, Luis Carlos Bresser-Pereira, no entanto, uma taxa de câmbio acima de R$ 2,30 pode trazer impactos negativos para a inflação.

Mantega não quis fazer projeções. Frisou que o dólar é flutuante. `Pode continuar subindo, mas não tenho certeza. Ele responde a uma situação de mercado`. O ministro destacou, no entanto, que é preciso ficar atento às contas externas do país. `Com o câmbio que nós tínhamos, muito valorizado, havia um prejuízo às contas externas porque importamos mais que exportamos. Agora essa auto-correção, que não tem nada haver com o governo, é espontânea. É feita pelas determinantes de mercado e poderemos ter um desempenho melhor`, contou.

Combate

Durante o seminário Desenvolvimento Econômico: Crescimento com Distribuição de Renda, os antecessores de Mantega ressaltaram a importância do controle de preços para a sociedade brasileira. O ministro da Fazenda do governo do Collor Marcílio Marques Moreira destacou, em depoimento gravado, que as medidas de combate à inflação são tão perniciosas quanto a inflação. `A inflação não é só destruidora. Ela corrói os salários, as rendas públicas, os investimentos, o consumo, como também as medidas para combatê-las. Muitas são tão perniciosas quanto a própria inflação`, afirmou. A também ex-ministra do período Collor Zélia Cardoso de Mello disse que o governo está correto no combate à alta de preços. `Estamos tendo crescimento, pequeno mas consistente, temos emprego e aumento real da renda. Fora isso é especulação de economista`, frisou.

Repórter: Vicente Nunes e Edna Simão

Fonte: Correio Braziliense

10/9/2008.