14/05/2008
Feitas as contas de cada Estado separadamente, Goiás surge como um dos únicos, entre os líderes na colheita de grãos, com capacidade superior à produção prevista. São 12,9 milhões de toneladas de capacidade para uma produção prevista de 12,5 milhões. Santa Catarina, com produção estimada de 6,7 milhões de toneladas na safra 2007/08, tem armazéns que somam capacidade de 3,9 milhões, ou apenas 58% da colheita esperada.
A leitura fracionada dos dados de cada Estado mostra nuances ainda mais preocupantes, segundo técnicos do setor. `Tem mais armazém em Cuiabá que na região de produção ao longo da BR-163`, diz Rosemeire dos Santos, assessora técnica de cereais, fibras e oleaginosas da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA).
Feita separadamente, a análise de cada Estado mostra que, tanto quanto um `problema bom`, ocasionado pelo aumento da produção de grãos, a falta de armazéns é também estrutural. `No governo militar, para garantir o abastecimento, houve incentivo para a construção de armazéns perto de grandes centros consumidores. É por isso que, mesmo que o país tenha capacidade inferior à produção, em algumas regiões existe ociosidade`, diz Rosemeire.
É o caso de São Paulo. O Estado deve colher 6,5 milhões de toneladas de grãos, e sua capacidade é de 11,7 milhões de toneladas. `Isso ocorreu também por causa da cana. Boa parte [dos armazéns] está próxima de áreas que já foram de grãos`, afirma Sílvio Porto, diretor de logística e gestão empresarial da Conab.
A capacidade de estocagem, que corresponde a 87% da produção da safra 2007/08, inclui os 120 armazéns da Conab. Porto avalia que, mesmo com a defasagem, o Brasil está `relativamente bem`, já que, com a sazonalidade das culturas, os armazéns não são ocupados simultaneamente. `Mas uma relação de 1,2 seria a ideal`, afirma. Para atingir essa relação, seriam necessárias ao menos 45 milhões de toneladas adicionais. A um custo médio de R$ 200 por tonelada, o investimento em novos armazéns alcançaria R$ 9 bilhões.
Mais danoso que o Brasil ter menos capacidade de estocagem do que o que produz é o fato de apenas uma pequena parcela dos armazéns estar nas mãos dos produtores. Em 2002, só 8% da capacidade correspondia aos armazéns localizados em fazendas. A fatia ampliou-se desde então, diz Porto, e atingiu 15%. `O produtor fica dependente das tradings`, afirma. Em países como Estados Unidos e Canadá, ao menos 90% da capacidade total de estocagem está localizada nas próprias fazendas.
O ano-safra encaminha-se para seu encerramento, mas isso não significa alívio nos armazéns. No Mato Grosso, por exemplo, a colheita do milho safrinha ainda não começou. Como, em virtude das chuvas, a colheita da soja atrasou - e como a área dedicada ao milho safrinha cresceu, acompanhada por um esperado aumento de produtividade da cultura -, a disputa por armazéns se acentua.
`A situação deve apertar nos próximos 30 dias, quando o milho safrinha entrar`, diz o produtor Nadir Sucolotti, de Sorriso. `A liquidez da soja é maior, mas ainda tem muita soja estocada. Isso vai ser mais prejuízo`. A armazenagem corresponde a 10% do preço final do milho. Com a capacidade limitada, o custo deve subir.
Em algumas regiões, dissemina-se o uso de um artefato conhecido como `silo bag`, mas sua adoção é limitada, entre outros motivos, porque não é possível fazer a secagem de grãos com o equipamento. Em situações extremas, como se faz a estocagem? `Em alguns locais, quando falta armazém, o pessoal faz um buraco no chão, forra com uma lona preta, joga o grão e reza pra não chover`, conta Rosemeire dos Santos, da CNA.
Repórter: Patrick Cruz
Fonte: Valor Econômico
14/5/2008.
A leitura fracionada dos dados de cada Estado mostra nuances ainda mais preocupantes, segundo técnicos do setor. `Tem mais armazém em Cuiabá que na região de produção ao longo da BR-163`, diz Rosemeire dos Santos, assessora técnica de cereais, fibras e oleaginosas da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA).
Feita separadamente, a análise de cada Estado mostra que, tanto quanto um `problema bom`, ocasionado pelo aumento da produção de grãos, a falta de armazéns é também estrutural. `No governo militar, para garantir o abastecimento, houve incentivo para a construção de armazéns perto de grandes centros consumidores. É por isso que, mesmo que o país tenha capacidade inferior à produção, em algumas regiões existe ociosidade`, diz Rosemeire.
É o caso de São Paulo. O Estado deve colher 6,5 milhões de toneladas de grãos, e sua capacidade é de 11,7 milhões de toneladas. `Isso ocorreu também por causa da cana. Boa parte [dos armazéns] está próxima de áreas que já foram de grãos`, afirma Sílvio Porto, diretor de logística e gestão empresarial da Conab.
A capacidade de estocagem, que corresponde a 87% da produção da safra 2007/08, inclui os 120 armazéns da Conab. Porto avalia que, mesmo com a defasagem, o Brasil está `relativamente bem`, já que, com a sazonalidade das culturas, os armazéns não são ocupados simultaneamente. `Mas uma relação de 1,2 seria a ideal`, afirma. Para atingir essa relação, seriam necessárias ao menos 45 milhões de toneladas adicionais. A um custo médio de R$ 200 por tonelada, o investimento em novos armazéns alcançaria R$ 9 bilhões.
Mais danoso que o Brasil ter menos capacidade de estocagem do que o que produz é o fato de apenas uma pequena parcela dos armazéns estar nas mãos dos produtores. Em 2002, só 8% da capacidade correspondia aos armazéns localizados em fazendas. A fatia ampliou-se desde então, diz Porto, e atingiu 15%. `O produtor fica dependente das tradings`, afirma. Em países como Estados Unidos e Canadá, ao menos 90% da capacidade total de estocagem está localizada nas próprias fazendas.
O ano-safra encaminha-se para seu encerramento, mas isso não significa alívio nos armazéns. No Mato Grosso, por exemplo, a colheita do milho safrinha ainda não começou. Como, em virtude das chuvas, a colheita da soja atrasou - e como a área dedicada ao milho safrinha cresceu, acompanhada por um esperado aumento de produtividade da cultura -, a disputa por armazéns se acentua.
`A situação deve apertar nos próximos 30 dias, quando o milho safrinha entrar`, diz o produtor Nadir Sucolotti, de Sorriso. `A liquidez da soja é maior, mas ainda tem muita soja estocada. Isso vai ser mais prejuízo`. A armazenagem corresponde a 10% do preço final do milho. Com a capacidade limitada, o custo deve subir.
Em algumas regiões, dissemina-se o uso de um artefato conhecido como `silo bag`, mas sua adoção é limitada, entre outros motivos, porque não é possível fazer a secagem de grãos com o equipamento. Em situações extremas, como se faz a estocagem? `Em alguns locais, quando falta armazém, o pessoal faz um buraco no chão, forra com uma lona preta, joga o grão e reza pra não chover`, conta Rosemeire dos Santos, da CNA.
Repórter: Patrick Cruz
Fonte: Valor Econômico
14/5/2008.