20/10/2010
Nos últimos oito anos, o consumo de energia elétrica no Brasil cresceu 32% passando de 293 mil GWh em 2002 para cerca de 390 mil GWh em 2009. O ciclo de alta das commodities, o crescimento da economia e da renda dos brasileiros, que estão comprando mais eletrodomésticos, e o programa Luz para Todos, que incorporou 10 milhões de pessoas à rede básica, fizeram residências, indústrias e comércio consumirem mais energia. A expansão não irá parar por aí: com a continuidade do crescimento, a realização da Copa do Mundo de 2014 e da Olimpíada de 2016 e a expansão de China e Índia, dois grandes consumidores de produtos básicos, o mercado de energia elétrica deverá continuar sua trajetória de alta.
Com um crescimento anual de 5,1% da economia brasileira na década, previsões da Empresa de Pesquisas Energéticas (EPE), órgão estatal de planejamento do setor, apontam que o consumo de energia elétrica deve aumentar 5% ao ano entre 2010 e 2019, com destaque para o segmento comercial, cujo consumo deve crescer 6,2% ao ano. Na indústria, o aumento será de 5,1% e, nas residências, de 4,6%. Mesmo assim, o brasileiro ainda consome pouca energia frente a outros países: o consumo per capita está em 2.300 KWh por ano, um quinto do registrado nas economias desenvolvidas.
Para atender à alta de demanda, o desafio é grande. Serão necessários R$ 175 bilhões em projetos de geração para acrescentar 6.300 MW de capacidade nova por ano ao sistema nacional até 2019. Em paralelo, deverão ser investidos R$ 39 bilhões na construção de 37 mil quilômetros de linhas de transmissão para escoar a energia produzida. `A prioridade é que a expansão do sistema seja feita com hidrelétricas e fontes renováveis, como usinas eólicas e de biomassa`, diz o presidente da EPE, Mauricio Tolmasquim. `Com as obras contratadas nos últimos anos, temos um excedente de 5.800 MW médios até 2014`, afirma.
Com uma capacidade instalada de cerca de 105 mil MW, o setor elétrico deverá crescer ao longo da década cerca de 60% e chegar a 2019 com 167 mil MW, sendo que boa parte desse acréscimo virá de projetos hidrelétricos. Apenas as usinas hidrelétricas de Belo Monte, Santo Antônio e Jirau, juntas, serão responsáveis por cerca de 10% da capacidade do sistema interligado em 2019. Ao se incluir os empreendimentos dos rios Teles Pires, Tapajós e Jamanxim, que poderão ser licitados nos próximos anos, a participação das grandes usinas da região Norte fica em torno de 15% do total do setor elétrico nacional.
O desafio de construção dos grandes empreendimentos e de conciliar crescimento com preservação ambiental se alia a outro: o financiamento. `É fundamental que haja financiamento de longo prazo no Brasil para os projetos de infraestrutura, para complementar o apoio dado pelo BNDES`, diz o presidente da Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base (Abdib), Paulo Godoy. O setor, ao lado do governo e bancos, tem buscado formas para criar de títulos de longo prazo ligados a projetos de infraestrutura para criar um mercado secundário que possibilite a maior alavancagem.
Do lado do governo, poderia ser criada uma vantagem tributária para o investidor de longo prazo que aplicasse nesses títulos. Do lado dos bancos, poderiam ser criados fundos que reunissem títulos de projetos de infraestrutura destinados a investidores interessados em aplicar dinheiro no segmento. O interessado aplicaria seus recursos em um fundo com papéis de projetos específicos de energia elétrica ou de outros segmentos. `Tirando a China, o Brasil deve ser o país a receber mais investimentos no setor de energia nesta década. O financiamento também precisa acompanhar essa realidade`, diz Godoy.
Além das hidrelétricas, o planejamento do governo tem dado atenção especial a outras fontes limpas. No fim de agosto, foi realizado um leilão com foco em fontes alternativas que resultou na contratação de 70 centrais eólicas, 12 termelétricas movidas à biomassa e sete pequenas centrais hidrelétricas (PCHs), que irão acrescentar cerca de 2.900 MW médios de potência instalada e receber investimentos de cerca de R$ 10 bilhões.
O destaque do leilão foi a grande participação das centrais eólicas, cujo preço médio negociado ficou em R$ 130,86 o MWh, cotação inferior aos dos projetos de biomassa e de PCHs. Para Godoy, foi criado um novo paradigma: `Primeiro, em função de a fonte eólica ter se constituído na mais barata entre as negociadas. Segundo, pelo preço competitivo da grande quantidade de energia contratada proveniente de fontes alternativas`.
Outra fonte que deverá ter destaque na matriz elétrica é a cogeração a partir da biomassa da cana-de-açúcar, que, em 2001, ano do racionamento, respondia por 120 MW instalados, mas hoje representa cerca de 2,5 mil MW instalados. Em 2009, a bioeletricidade gerada nos canaviais foi a fonte que mais ingressou no mercado: foram acrescentados 1.112 MW de energia de usinas de açúcar e álcool na matriz nacional.
A inserção da bioeletricidade no sistema interligado está despertando o interesse de empresas como a ETH, que, entre 2008 e 2010, já vendeu, somente em leilões, mais de 24,5 mil GWh que serão entregues durante 15 anos por suas nove unidades. A meta é atingir 2.700 GWh até 2012 nas suas unidades: São Paulo, Mato Grosso do Sul, Goiás e Araguaia. `Os contratos de fornecimento de energia elétrica da ETH ultrapassam R$ 4,1 bilhões. O valor contempla os acordos de 15 anos de duração no período de 2010 a 2025, conquistados pela empresa nos leilões de energia de reserva realizados em 2008 e 2010`, diz José Carlos Grubisich, presidente da companhia.
Se o cenário de abastecimento não causa muita preocupação, um temor aflige grandes consumidores de energia: o preço do insumo. `A energia chega a representar 20% dos nossos custos, e os preços, que estão elevados, podem ficar ainda mais caros, o que pode prejudicar investimentos em ampliações de capacidade produtiva ou em construção de novas fábricas`, diz o superintendente da Associação Brasileira da Indústria do Vidro (Abividro), Lucien Belmonte, que frisa que, em algumas regiões do país, o gás comercializado no Brasil chega a custar o dobro do que em outros países.
Além das fontes hídricas e alternativas, o gás natural poderá reforçar presença na matriz energética, não apenas consolidando sua participação nas termelétricas, mas também como fonte de energia para grandes consumidores como indústrias de vidros e cerâmicas. As descobertas das jazidas de pré-sal poderão contribuir nesse sentido. Testes preliminares apontam que a proporção de gás e óleo nas jazidas do pré-sal é de 35 metros cúbicos por barril, mais rica do que na Bacia de Campos, um indicador de que as reservas são promissoras para a expansão do segmento. Estimativas apontam que a exploração do pré-sal poderia agregar mais de 60 milhões de metros cúbicos por dia de gás natural, o que dobraria a oferta atual.
Segundo o governo, a oferta nacional de gás natural deverá sair de cerca de 50 milhões de metros cúbicos por dia, em 2010, para 116 milhões de metros cúbicos diários, em 2019, mais 67%. Se somados os 30 milhões de metros cúbicos diários importados da Bolívia e os 21 milhões de metros cúbicos diários de gás natural liquefeito (GNL), o país alcançará uma oferta potencial de 167 milhões de metros cúbicos por dia do insumo em 2019. O Brasil passaria a contar, em dez anos, com um excedente de gás de cerca de 15 milhões de metros cúbicos por dias - supondo as térmicas funcionando a plena carga.
Além do pré-sal, há promissores indícios vindos do Nordeste. Recentemente, a OGX, companhia de petróleo e gás do grupo EBX, do empresário Eike Batista, informou que foram identificados indícios de gás em poços localizados na bacia terrestre do Parnaíba, no Maranhão. Considerando estudos e análises, a OGX estima que os volumes potenciais podem corresponder a uma capacidade produtiva de aproximadamente 15 milhoes de metros cúbicos diários de gás natural. A empresa estima um investimento entre R$ 600 milhões e R$ 700 milhões para o projeto.
Autor(es): Por Roberto Rockmann | Para o Valor, de São Paulo.
Valor Econômico - 20/10/2010.
Com um crescimento anual de 5,1% da economia brasileira na década, previsões da Empresa de Pesquisas Energéticas (EPE), órgão estatal de planejamento do setor, apontam que o consumo de energia elétrica deve aumentar 5% ao ano entre 2010 e 2019, com destaque para o segmento comercial, cujo consumo deve crescer 6,2% ao ano. Na indústria, o aumento será de 5,1% e, nas residências, de 4,6%. Mesmo assim, o brasileiro ainda consome pouca energia frente a outros países: o consumo per capita está em 2.300 KWh por ano, um quinto do registrado nas economias desenvolvidas.
Para atender à alta de demanda, o desafio é grande. Serão necessários R$ 175 bilhões em projetos de geração para acrescentar 6.300 MW de capacidade nova por ano ao sistema nacional até 2019. Em paralelo, deverão ser investidos R$ 39 bilhões na construção de 37 mil quilômetros de linhas de transmissão para escoar a energia produzida. `A prioridade é que a expansão do sistema seja feita com hidrelétricas e fontes renováveis, como usinas eólicas e de biomassa`, diz o presidente da EPE, Mauricio Tolmasquim. `Com as obras contratadas nos últimos anos, temos um excedente de 5.800 MW médios até 2014`, afirma.
Com uma capacidade instalada de cerca de 105 mil MW, o setor elétrico deverá crescer ao longo da década cerca de 60% e chegar a 2019 com 167 mil MW, sendo que boa parte desse acréscimo virá de projetos hidrelétricos. Apenas as usinas hidrelétricas de Belo Monte, Santo Antônio e Jirau, juntas, serão responsáveis por cerca de 10% da capacidade do sistema interligado em 2019. Ao se incluir os empreendimentos dos rios Teles Pires, Tapajós e Jamanxim, que poderão ser licitados nos próximos anos, a participação das grandes usinas da região Norte fica em torno de 15% do total do setor elétrico nacional.
O desafio de construção dos grandes empreendimentos e de conciliar crescimento com preservação ambiental se alia a outro: o financiamento. `É fundamental que haja financiamento de longo prazo no Brasil para os projetos de infraestrutura, para complementar o apoio dado pelo BNDES`, diz o presidente da Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base (Abdib), Paulo Godoy. O setor, ao lado do governo e bancos, tem buscado formas para criar de títulos de longo prazo ligados a projetos de infraestrutura para criar um mercado secundário que possibilite a maior alavancagem.
Do lado do governo, poderia ser criada uma vantagem tributária para o investidor de longo prazo que aplicasse nesses títulos. Do lado dos bancos, poderiam ser criados fundos que reunissem títulos de projetos de infraestrutura destinados a investidores interessados em aplicar dinheiro no segmento. O interessado aplicaria seus recursos em um fundo com papéis de projetos específicos de energia elétrica ou de outros segmentos. `Tirando a China, o Brasil deve ser o país a receber mais investimentos no setor de energia nesta década. O financiamento também precisa acompanhar essa realidade`, diz Godoy.
Além das hidrelétricas, o planejamento do governo tem dado atenção especial a outras fontes limpas. No fim de agosto, foi realizado um leilão com foco em fontes alternativas que resultou na contratação de 70 centrais eólicas, 12 termelétricas movidas à biomassa e sete pequenas centrais hidrelétricas (PCHs), que irão acrescentar cerca de 2.900 MW médios de potência instalada e receber investimentos de cerca de R$ 10 bilhões.
O destaque do leilão foi a grande participação das centrais eólicas, cujo preço médio negociado ficou em R$ 130,86 o MWh, cotação inferior aos dos projetos de biomassa e de PCHs. Para Godoy, foi criado um novo paradigma: `Primeiro, em função de a fonte eólica ter se constituído na mais barata entre as negociadas. Segundo, pelo preço competitivo da grande quantidade de energia contratada proveniente de fontes alternativas`.
Outra fonte que deverá ter destaque na matriz elétrica é a cogeração a partir da biomassa da cana-de-açúcar, que, em 2001, ano do racionamento, respondia por 120 MW instalados, mas hoje representa cerca de 2,5 mil MW instalados. Em 2009, a bioeletricidade gerada nos canaviais foi a fonte que mais ingressou no mercado: foram acrescentados 1.112 MW de energia de usinas de açúcar e álcool na matriz nacional.
A inserção da bioeletricidade no sistema interligado está despertando o interesse de empresas como a ETH, que, entre 2008 e 2010, já vendeu, somente em leilões, mais de 24,5 mil GWh que serão entregues durante 15 anos por suas nove unidades. A meta é atingir 2.700 GWh até 2012 nas suas unidades: São Paulo, Mato Grosso do Sul, Goiás e Araguaia. `Os contratos de fornecimento de energia elétrica da ETH ultrapassam R$ 4,1 bilhões. O valor contempla os acordos de 15 anos de duração no período de 2010 a 2025, conquistados pela empresa nos leilões de energia de reserva realizados em 2008 e 2010`, diz José Carlos Grubisich, presidente da companhia.
Se o cenário de abastecimento não causa muita preocupação, um temor aflige grandes consumidores de energia: o preço do insumo. `A energia chega a representar 20% dos nossos custos, e os preços, que estão elevados, podem ficar ainda mais caros, o que pode prejudicar investimentos em ampliações de capacidade produtiva ou em construção de novas fábricas`, diz o superintendente da Associação Brasileira da Indústria do Vidro (Abividro), Lucien Belmonte, que frisa que, em algumas regiões do país, o gás comercializado no Brasil chega a custar o dobro do que em outros países.
Além das fontes hídricas e alternativas, o gás natural poderá reforçar presença na matriz energética, não apenas consolidando sua participação nas termelétricas, mas também como fonte de energia para grandes consumidores como indústrias de vidros e cerâmicas. As descobertas das jazidas de pré-sal poderão contribuir nesse sentido. Testes preliminares apontam que a proporção de gás e óleo nas jazidas do pré-sal é de 35 metros cúbicos por barril, mais rica do que na Bacia de Campos, um indicador de que as reservas são promissoras para a expansão do segmento. Estimativas apontam que a exploração do pré-sal poderia agregar mais de 60 milhões de metros cúbicos por dia de gás natural, o que dobraria a oferta atual.
Segundo o governo, a oferta nacional de gás natural deverá sair de cerca de 50 milhões de metros cúbicos por dia, em 2010, para 116 milhões de metros cúbicos diários, em 2019, mais 67%. Se somados os 30 milhões de metros cúbicos diários importados da Bolívia e os 21 milhões de metros cúbicos diários de gás natural liquefeito (GNL), o país alcançará uma oferta potencial de 167 milhões de metros cúbicos por dia do insumo em 2019. O Brasil passaria a contar, em dez anos, com um excedente de gás de cerca de 15 milhões de metros cúbicos por dias - supondo as térmicas funcionando a plena carga.
Além do pré-sal, há promissores indícios vindos do Nordeste. Recentemente, a OGX, companhia de petróleo e gás do grupo EBX, do empresário Eike Batista, informou que foram identificados indícios de gás em poços localizados na bacia terrestre do Parnaíba, no Maranhão. Considerando estudos e análises, a OGX estima que os volumes potenciais podem corresponder a uma capacidade produtiva de aproximadamente 15 milhoes de metros cúbicos diários de gás natural. A empresa estima um investimento entre R$ 600 milhões e R$ 700 milhões para o projeto.
Autor(es): Por Roberto Rockmann | Para o Valor, de São Paulo.
Valor Econômico - 20/10/2010.