Candidatos espalham ceticismo

19/06/2008
As declarações dos candidatos à Presidência dos Estados Unidos, Barack Obama e John McCain, sobre as relações com o Brasil e a possível abertura do mercado americano ao etanol produzido aqui surpreenderam deputados e senadores. Diante das afirmações feitas pelos candidatos, a esperança dos congressistas brasileiros de um diálogo mais aberto e flexível foi substituída pela expectativa de uma interlocução superficial.

Obama e McCain falaram com exclusividade ao Jornal do Brasil e não prometeram nenhuma grande mudança para a política externa voltada para o Brasil. O senador democrata Barack Obama lembrou o modelo adotado pelo governo brasileiro, que implantou sua política do álcool há mais de 20 anos, com grandes subsídios governamentais, para sustentá-los nos EUA, caso eleito. O democrata foi ainda mais incisivo ao dizer que só acabará com sobretaxa ao produto brasileiro depois que a produção americana estiver bem estabelecida.

Do lado republicano, John McCain quer acabar com os impostos sobre as importações de etanol e defende diminuição de subsídios agrícolas, para que a competição diminua o preço dos alimentos. Governistas e oposicionistas vêem nos dois discursos voltados para a audiência latino-americana apenas uma ferramenta eleitoral.

Protecionismo

O presidente da Comissão de Agricultura da Câmara, Onyx Lorenzoni (DEM-RS), lembra que os agricultores norte-americanos são bem organizados e contam com forte apoio de seus congressistas e, portanto, dificilmente permitiriam qualquer redução da sobretaxa do etanol e dos subsídios agrícolas.

Lorenzoni argumenta ainda que a revisão da sobretaxa do etanol será um movimento natural a longo prazo.

- Nós temos que enfrentar esta questão com competitividade e criatividade - disse. - O mundo vai precisar do biodisel. E nós temos as melhores condições para oferecer até porque a origem do nosso combustível, ao contrário do deles, não estabelece competição alguma com a produção alimentar nem com a escassez de grãos que deve ser a principal preocupação nos EUA.

Para a vice-presidente da Comissão de Relações Exteriores da Câmara, deputada Perpétua Almeida (PCdoB-AC), a postura conservadora de Obama a respeito da manutenção da sobretaxa chama atenção.

- Será que os discursos não estão invertidos? - indagou. - Obama até então se mostrava um democrata menos protecionista, defendendo políticas sociais voltadas às classes de baixa renda, então deveria estar mais preocupado com a flexibilização dos subsídios agrícolas até para permitir que produtores de outros países possam ganhar espaço nos EUA e motivar a redução dos preços dos alimentos.

Jogo político

Uma possível troca de discurso, diz Lorenzoni, faz parte do jogo político.

- Acredito que o Obama foi mais sincero - afirmou. - Se olharmos a história norte-americana temos a certeza de que são quase nulas as chances de reverter à atual política agrícola deles. McCain resolveu falar aos brasileiros como presidente dos EUA e não como candidato. Foi um discurso político em busca de apoio externo.

Repórter: Márcio Falcão

Fonte: Jornal do Brasil

19/6/2008.