Qualidade, a inimiga do álcool

23/05/2007
Sem normas de certificação e padrões universais de qualidade, os usineiros de São Paulo já tiveram carregamentos devolvidos pelo Japão por excesso de água na composição.

O nosso etanol carece de um padrão de qualidade para conquistar credibilidade - afirma o gerente de desenvolvimento estratégico do Centro de Tecnologia Canavieira (CTC), Jaime Singuerup. - Hoje, ainda não podemos assegurar aos compradores internacionais que o nosso álcool combustível tem qualidade, pois não há uma certificação aceita internacionalmente.

Singuerup esclarece que, a exemplo do petróleo, o etanol precisa ter a sua composição detalhada e passar por processos de análises químicas e estudos que lhe garantam homogeneidade e estabilidade.

Hoje, a dificuldade de negociação no mercado mundial é muito grande, pois os Estados Unidos exigem uma especificação diferente dos europeus que, por sua vez, é distinta da que é exigida pelo Japão - comenta. - Para garantir as vendas, os usineiros fazem um esforço tremendo de negociação com cada comprador, a fim de atender aos parâmetros por eles exigidos. O problema só será solucionado quando tivermos um material de referência para o etanol, e negociarmos com as instituições internacionais um padrão para produção que seja compatível com as normas dos Estados Unidos e da Europa.

Usineiros da região de Piracicaba revelaram ao JB que a dificuldade para atender às diferentes especificações do mercado internacional já gerou sérios prejuízos, como a devolução de milhares de hectolitros de etanol negociados com o Japão, devido ao teor de água acima das especificações daquele país.

Mesmo com o risco de o país não conseguir exportar boa parte da produção, não só as 269 usinas da região Centro-Sul do país continuam a operar a todo vapor, como o governo também investe R$ 12,1 bilhões na construção de outras 70 usinas, com prazo de conclusão para 2011.

Graças ao solo, ao clima e ao custo de mão-de-obra, o Brasil apresenta a melhor relação custo-benefício para produção de etanol: 14,48 euros para cada 100 litros, ante 24,48 gastos pelos EUA e 52,37 euros, pela Alemanha.

. Os analistas do setor não têm dúvidas de que a fixação de um padrão metrológico será fundamental para converter o etanol brasileiro em uma commodity internacional. Para ultrapassar as barreiras externas, porém, é preciso vencer o desafio interno de padronizar a produção.

Luciana Gondim

Jornal do Brasil 23/5/2007.