18/07/2011
A vendedora Luana não sabe quantos cartões telefônicos são comprados todos os dias no quiosque onde trabalha, na estação de metrô do Tatuapé, zona leste de São Paulo. Diz que são `muitos` e que os de 20 unidades - o modelo mais barato - são os que têm mais saída. No entanto, ela própria diz não usar um telefone público há pelo menos um ano. Toda a família de Luana tem celular da mesma operadora, o que permite que se comunique de graça, por conta de uma promoção. `Não tenho necessidade de usar o orelhão`, afirma.Exemplos como o de Luana são cada vez mais comuns. Embora os orelhões ainda sejam muito usados, a expansão dos serviços de telecomunicações no país os colocou em um papel coadjuvante. Com mais de 40 milhões de linhas fixas e 215 milhões de celulares, as longas filas que se formavam para usar os telefones públicos praticamente sumiram. Junto com elas, também minguaram as receitas das operadoras com a prestação desse serviço. Segundo dados da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), o faturamento das concessionárias com a telefonia pública caiu 68% desde 2007, ano em que o serviço teve seu auge no país.
Numa tentativa de renovar o interesse dos brasileiros, operadoras e fabricantes de orelhões começam a testar aparelhos com novas funções. Acesso à internet, ligações grátis e até recarga de vale-transporte são algumas delas.
Na região de Piracicaba (SP), a Telefônica colocou em funcionamento 2,4 mil orelhões nos quais é possível fazer chamadas locais sem pagar nada. Para isso, entretanto, o usuário tem de ligar para um número 0800 e ouvir um anúncio publicitário, com duração de 30 segundos, sobre produtos da operadora. Se não quiser escutar o comercial, usa o cartão telefônico, pagando a tarifa do sistema convencional.
Segundo Gustavo Fonseca, diretor de produtos fixos da Telefônica, o volume de chamadas nesses telefones aumentou 25% desde que o projeto-piloto começou, em abril. `A receita publicitária mais que compensaria a receita que teríamos com as ligações tarifadas`, afirma. O executivo diz não saber quando esse modelo poderá ser lançado comercialmente, o que depende de autorização da Anatel.
Outra estratégia da Telefônica é oferecer incentivos ao uso do orelhão atrelados a planos de serviços da própria operadora. Um dos planos de telefonia fixa e internet da companhia permite ao assinante cadastrar um número para o qual pode fazer ligações grátis a partir de um telefone público. `Orelhão ainda tem formato de orelha. Mas quase todo o resto a gente quer mudar`, afirma Fonseca.
Segundo o executivo, a Telefônica tem chamado os fornecedores de aparelhos para discutir novos usos para os orelhões. A fabricante Urmet Daruma instalou, em três terminais de ônibus da capital paulista, um tipo de telefone que também funciona como máquina para recarga de cartões de vale-transporte. Basta o usuário aproximar o cartão de um sensor instalado no aparelho para que os créditos disponíveis em sua conta sejam transferidos.
De acordo com Nadia Gasparotto, diretora de telecomunicações da Urmet, o sistema está recebendo ajustes técnicos e poderá ter seu uso expandido nos próximos meses. A comodidade para o usuário pode ser um bom negócio para as operadoras, diz a executiva. Nesse sistema, as teles podem obter receita de duas formas: a comunicação entre o orelhão e a central do sistema gera um tráfego na rede, que pode ser cobrado. Além disso, a operadora pode negociar uma porcentagem sobre cada recarga feita.
No Rio, a Oi também testa novos usos para os telefones públicos. Recentemente, a companhia instalou, em uma rua do bairro de Ipanema, nove telefones públicos com acesso gratuito à internet sem fio. O sinal podia ser acessado em um raio de até 50 metros por qualquer pessoa com um dispositivo Wi-Fi, como celulares e notebooks. Porém, a operadora teve de voltar atrás em seus planos. Os moradores não gostaram da aparência das cabines e reclamaram com a prefeitura, que pediu que a retirada dos aparelhos. Procurada, a Oi não quis falar sobre o projeto nem sobre o mercado de orelhões.
A telefonia pública já representou mais de 5% do faturamento da Oi. Hoje, não passa de 1,1%, o equivalente a R$ 522 milhões no ano passado. O mesmo ocorre com a Telefônica, que, em 2010, parou de detalhar sua receita com o serviço.
Apesar disso, os contratos de concessão da telefonia fixa obrigam as companhias a manter uma base relevante de orelhões - atualmente, há 1,1 milhão de telefones públicos ativos no país. É por isso que as operadoras buscam serviços alternativos que cubram, pelo menos, os custos que têm com a manutenção dos aparelhos.
O novo Plano Geral de Metas de Universalização (PGMU) determina que as concessionárias mantenham quatro orelhões para cada mil habitantes, desde que a distância entre os aparelhos não ultrapasse 300 metros. Essa proporção já foi bem maior - logo após a privatização, era de oito telefones a cada mil habitantes.
A redução das metas já se fez notar nas encomendas dos fabricantes. Restam apenas três deles no Brasil: Splice, Icatel e Urmet Daruma. `A produção, hoje em dia, é mais voltada para atender a reposição de peças. Quase não acontecem grandes compras de aparelhos novos`, diz Nadia, da Urmet.
A executiva, no entanto, está otimista com uma regra que foi incluída na versão mais nova do PGMU, aprovada em junho. A Anatel passou a exigir a instalação de telefones públicos em áreas rurais - em locais como escolas, postos de saúde e aldeias indígenas, sempre que for solicitado pela comunidade. Com isso, serão instalados mais de 100 mil orelhões nessas localidades, de acordo com a Anatel.
Parte dessa demanda pode ser atendida pelas operadoras com a transferência de aparelhos de um local para outro, onde são mais necessários. Entretanto, a agência exige que as teles cumpram as proporções mínimas de cobertura previstas no PGMU. Embora o uso dos orelhões esteja em queda nos grandes centros urbanos, eles ainda são um recurso importante.
`Para mim, é muito mais conveniente que o celular`, diz o autônomo José Valter dos Santos, que gasta três cartões telefônicos por semana. O técnico João Andrade até prefere o celular, mas o esqueceu em casa na sexta-feira e foi salvo pelo telefone público. `É bom ter um orelhão por perto para o caso de alguma emergência`, diz.
Autor(es): Gustavo Brigatto e Talita Moreira | De São Paulo.
Valor Econômico - 18/07/2011.
Numa tentativa de renovar o interesse dos brasileiros, operadoras e fabricantes de orelhões começam a testar aparelhos com novas funções. Acesso à internet, ligações grátis e até recarga de vale-transporte são algumas delas.
Na região de Piracicaba (SP), a Telefônica colocou em funcionamento 2,4 mil orelhões nos quais é possível fazer chamadas locais sem pagar nada. Para isso, entretanto, o usuário tem de ligar para um número 0800 e ouvir um anúncio publicitário, com duração de 30 segundos, sobre produtos da operadora. Se não quiser escutar o comercial, usa o cartão telefônico, pagando a tarifa do sistema convencional.
Segundo Gustavo Fonseca, diretor de produtos fixos da Telefônica, o volume de chamadas nesses telefones aumentou 25% desde que o projeto-piloto começou, em abril. `A receita publicitária mais que compensaria a receita que teríamos com as ligações tarifadas`, afirma. O executivo diz não saber quando esse modelo poderá ser lançado comercialmente, o que depende de autorização da Anatel.
Outra estratégia da Telefônica é oferecer incentivos ao uso do orelhão atrelados a planos de serviços da própria operadora. Um dos planos de telefonia fixa e internet da companhia permite ao assinante cadastrar um número para o qual pode fazer ligações grátis a partir de um telefone público. `Orelhão ainda tem formato de orelha. Mas quase todo o resto a gente quer mudar`, afirma Fonseca.
Segundo o executivo, a Telefônica tem chamado os fornecedores de aparelhos para discutir novos usos para os orelhões. A fabricante Urmet Daruma instalou, em três terminais de ônibus da capital paulista, um tipo de telefone que também funciona como máquina para recarga de cartões de vale-transporte. Basta o usuário aproximar o cartão de um sensor instalado no aparelho para que os créditos disponíveis em sua conta sejam transferidos.
De acordo com Nadia Gasparotto, diretora de telecomunicações da Urmet, o sistema está recebendo ajustes técnicos e poderá ter seu uso expandido nos próximos meses. A comodidade para o usuário pode ser um bom negócio para as operadoras, diz a executiva. Nesse sistema, as teles podem obter receita de duas formas: a comunicação entre o orelhão e a central do sistema gera um tráfego na rede, que pode ser cobrado. Além disso, a operadora pode negociar uma porcentagem sobre cada recarga feita.
No Rio, a Oi também testa novos usos para os telefones públicos. Recentemente, a companhia instalou, em uma rua do bairro de Ipanema, nove telefones públicos com acesso gratuito à internet sem fio. O sinal podia ser acessado em um raio de até 50 metros por qualquer pessoa com um dispositivo Wi-Fi, como celulares e notebooks. Porém, a operadora teve de voltar atrás em seus planos. Os moradores não gostaram da aparência das cabines e reclamaram com a prefeitura, que pediu que a retirada dos aparelhos. Procurada, a Oi não quis falar sobre o projeto nem sobre o mercado de orelhões.
A telefonia pública já representou mais de 5% do faturamento da Oi. Hoje, não passa de 1,1%, o equivalente a R$ 522 milhões no ano passado. O mesmo ocorre com a Telefônica, que, em 2010, parou de detalhar sua receita com o serviço.
Apesar disso, os contratos de concessão da telefonia fixa obrigam as companhias a manter uma base relevante de orelhões - atualmente, há 1,1 milhão de telefones públicos ativos no país. É por isso que as operadoras buscam serviços alternativos que cubram, pelo menos, os custos que têm com a manutenção dos aparelhos.
O novo Plano Geral de Metas de Universalização (PGMU) determina que as concessionárias mantenham quatro orelhões para cada mil habitantes, desde que a distância entre os aparelhos não ultrapasse 300 metros. Essa proporção já foi bem maior - logo após a privatização, era de oito telefones a cada mil habitantes.
A redução das metas já se fez notar nas encomendas dos fabricantes. Restam apenas três deles no Brasil: Splice, Icatel e Urmet Daruma. `A produção, hoje em dia, é mais voltada para atender a reposição de peças. Quase não acontecem grandes compras de aparelhos novos`, diz Nadia, da Urmet.
A executiva, no entanto, está otimista com uma regra que foi incluída na versão mais nova do PGMU, aprovada em junho. A Anatel passou a exigir a instalação de telefones públicos em áreas rurais - em locais como escolas, postos de saúde e aldeias indígenas, sempre que for solicitado pela comunidade. Com isso, serão instalados mais de 100 mil orelhões nessas localidades, de acordo com a Anatel.
Parte dessa demanda pode ser atendida pelas operadoras com a transferência de aparelhos de um local para outro, onde são mais necessários. Entretanto, a agência exige que as teles cumpram as proporções mínimas de cobertura previstas no PGMU. Embora o uso dos orelhões esteja em queda nos grandes centros urbanos, eles ainda são um recurso importante.
`Para mim, é muito mais conveniente que o celular`, diz o autônomo José Valter dos Santos, que gasta três cartões telefônicos por semana. O técnico João Andrade até prefere o celular, mas o esqueceu em casa na sexta-feira e foi salvo pelo telefone público. `É bom ter um orelhão por perto para o caso de alguma emergência`, diz.
Autor(es): Gustavo Brigatto e Talita Moreira | De São Paulo.
Valor Econômico - 18/07/2011.