27/06/2007
Professor de Política Econômica na Universidade Colúmbia, em Nova York, desde 1982, Phelps diz que estava dormindo quando recebeu a notícia de que ganhara o Nobel. Com sono, esqueceu-se de perguntar por quê. Ele achou que era por seu trabalho sobre crescimento econômico. Passou uma hora falando sobre o tema numa entrevista coletiva para jornalistas por teleconferência. Só depois o economista Joseph Stiglitz, seu colega em Colúmbia, avisou Phelps de que ele tinha ganho o prêmio por seu trabalho sobre inflação e desemprego, de 1969. Nele, Phelps contestou a idéia então disseminada de que mais inflação gera mais emprego. Ele diz que sua vida mudou de forma dramática desde que ganhou o Nobel. `Fui professor a vida toda. Não me importaria de ganhar algum dinheiro só para variar.`
Ian McEwan: QUEM ELE É
Nasceu em Evanston, Illinois, nos EUA, em 1933. Cresceu em Hastings-on-Hundson, em Nova York, para onde sua família se mudou em 1939. Em 1981, morou cinco meses no Rio de Janeiro onde estudou. Graduou-se em Economia no Amherst College, EUA, em 1955. Obteve doutorado na Universidade Yale, em 1959. Desde 1982, é professor da Universidade Colúmbia. Em 1981, deu aula na Fundação Getúlio Vargas (FGV), no Rio. Antes, foi professor na Universidade da Pensilvânia e em Yale
O QUE INOVOU
Em 1969, questionou uma idéia tida como certa na época: que, com uma inflação mais alta, era possível reduzir o desemprego.
ÉPOCA - O senhor costuma comparar o corporativismo europeu e o capitalismo americano. Pode explicar isso melhor? Edmund Phelps - Há três aspectos na questão do corporativismo. Um deles é que o pequeno empreendedor - a pequena burguesia - é pouco inovador. No corporativismo, as pessoas preferem que o governo toque grandes projetos e decida aonde deseja levar a economia. Chamo isso de `cientificismo`. É a noção de que o governo sabe mais e pode implementar a ciência e o entendimento econômico para ter um resultado melhor que um sistema totalmente descentralizado, o capitalismo. O segundo aspecto é o que chamo de `solidarismo`. É a crença de que o governo nada deve fazer sem conseguir um entendimento com toda a sociedade. Ou que as empresas nada devem fazer sem conseguir a concordância dos acionistas. Resultado: nada acontece. É muito difícil fazer algo andar assim. Há uma preocupação exagerada com o consenso e pouca oportunidade para fazer acontecer, produzir coisas novas, seguir novos caminhos. Na Europa, há gente que pensa que não há razão para se tornar inovador, porque tudo vai bem.
ÉPOCA - E qual é o terceiro aspecto?
Phelps - É o que chamo de `antimaterialismo`. É a falta de ambição, a repulsa ao lucro, a oposição ao desenvolvimento dos negócios. É a idéia de que as pessoas devem viver integradas na comunidade, que não devemos tentar ir melhor que a comunidade. Uma empresa deve ser lucrativa apenas o suficiente para sobreviver. Não deve tentar ir muito além disso. Não deve implementar inovações que, se forem bem-sucedidas, poderão multiplicar o lucro atual por duas ou três vezes. Isso é ruim. E, se o lucro crescer, os sindicatos deverão absorver esse aumento. Então, qual é o retorno que uma empresa tem em implementar inovações? Se ela fizer isso, vai se tornar um símbolo de ganância. Por isso, os empresários têm receio de alcançar o sucesso. Se você estiver pensando em montar um negócio, que estímulo terá num ambiente desses?
Como você pode ter prazer de viver, se não está satisfeito com seu trabalho, que é algo que faz durante dez horas do dia?
ÉPOCA - Qual é o efeito dessa mentalidade na economia? Phelps - Se você não estimular a inovação, não vai gerar os empregos que seriam criados em empresas que desenvolvem e implementam a inovação. Também não ajudará a criar empregos nas empresas que fariam a publicidade das inovações. Nem nas empresas que treinariam os empregados sobre como usar a internet ou coisas do gênero. O ambiente de trabalho se torna enfadonho, chato. É preciso empurrar a empresa para a frente para gerar novos desafios. Se não for assim, haverá uma infelicidade pessoal muito grande, frustração. A vida também tem de ser excitante e divertida. Não é só uma questão de reduzir o nível de estresse ou de fazer alguma coisa pelas coronárias e pela longevidade. A vida é mais que longevidade. Como você pode ter prazer de viver se não está satisfeito com algo que faz durante dez horas do dia?
ÉPOCA - No Brasil, embora tenhamos uma classe de empreendedores de alto nível, que desenvolveram negócios de sucesso em todos os ramos de atividade, muita gente pensa assim também...
Phelps - Estou certo de que não é todo mundo. Mas tenho a mesma sensação. Isso não acontece só no Brasil. Na Argentina, deve ser no mínimo tão ruim quanto aqui. Se o Brasil quiser chegar perto dos países desenvolvidos, precisa ter um tecido de instituições econômicas e uma cultura que encoraje e receba bem a inovação.
ÉPOCA - Como o senhor vê o atual cenário econômico internacional, de altas taxas de crescimento? É algo sustentável? Phelps - Há duas incertezas. A primeira é a China. Ela terá de enfrentar novos problemas a cada passo que der no processo de desenvolvimento. A China quer alcançar o Ocidente e ter uma economia desenvolvida, como a americana. Possivelmente, vai conseguir chegar lá. Mas terá de aprender a fazer as coisas de forma nova. E não podemos ter certeza de que a China conseguirá ultrapassar todos os obstáculos, um depois do outro, até atingir seu objetivo. A outra questão: não sabemos em que estágio estamos na revolução da comunicação e da informação que começou nos anos 90. Estamos chegando ao fim deste boom? Ou ainda há muito a caminhar e teremos mais uma década ou duas de grandes investimentos em tecnologia?
ÉPOCA - Qual seria o efeito de uma eventual desaceleração na economia chinesa?
Phelps - A possibilidade de acontecer um problema na China que provoque uma reação em cadeia em escala mundial é sempre preocupante. Os juros talvez estejam muito baixos, particularmente nos Estados Unidos. É possível que eles dêem um salto. Com isso, os preços das ações podem ter uma queda. Pode haver uma correção de preços nas bolsas, mas não acredito numa contração histérica dos investimentos.
ÉPOCA - A cada crise internacional, o tempo de recuperação parece estar encolhendo...
Phelps - É verdade. Levou 11 ou 12 anos para a economia voltar a crescer na Grande Depressão de 1929. Depois, demorou 12 meses em 1987. E, na crise da China, em fevereiro, quando a queda das bolsas locais teve impacto global, levou 12 dias. Talvez nem isso. É possível que as economias estejam mais resistentes.
ÉPOCA - O que mudou em sua vida desde que ganhou o Prêmio Nobel?
Phelps - Houve uma grande mudança. É mais ou menos o tanto de mudança que posso suportar. Estou viajando muito, dando talvez mais palestras do que deveria. Mas neste ano eu quero circular mais. Não me importaria de fazer algum dinheiro para variar. Jamais ganhei dinheiro nenhum. Fui professor a vida inteira, nunca atuei no mundo dos negócios. É também uma oportunidade de testar minhas idéias.
Fonte: Época - número 0475
José Fucs
25/6/2007.
Ian McEwan: QUEM ELE É
Nasceu em Evanston, Illinois, nos EUA, em 1933. Cresceu em Hastings-on-Hundson, em Nova York, para onde sua família se mudou em 1939. Em 1981, morou cinco meses no Rio de Janeiro onde estudou. Graduou-se em Economia no Amherst College, EUA, em 1955. Obteve doutorado na Universidade Yale, em 1959. Desde 1982, é professor da Universidade Colúmbia. Em 1981, deu aula na Fundação Getúlio Vargas (FGV), no Rio. Antes, foi professor na Universidade da Pensilvânia e em Yale
O QUE INOVOU
Em 1969, questionou uma idéia tida como certa na época: que, com uma inflação mais alta, era possível reduzir o desemprego.
ÉPOCA - O senhor costuma comparar o corporativismo europeu e o capitalismo americano. Pode explicar isso melhor? Edmund Phelps - Há três aspectos na questão do corporativismo. Um deles é que o pequeno empreendedor - a pequena burguesia - é pouco inovador. No corporativismo, as pessoas preferem que o governo toque grandes projetos e decida aonde deseja levar a economia. Chamo isso de `cientificismo`. É a noção de que o governo sabe mais e pode implementar a ciência e o entendimento econômico para ter um resultado melhor que um sistema totalmente descentralizado, o capitalismo. O segundo aspecto é o que chamo de `solidarismo`. É a crença de que o governo nada deve fazer sem conseguir um entendimento com toda a sociedade. Ou que as empresas nada devem fazer sem conseguir a concordância dos acionistas. Resultado: nada acontece. É muito difícil fazer algo andar assim. Há uma preocupação exagerada com o consenso e pouca oportunidade para fazer acontecer, produzir coisas novas, seguir novos caminhos. Na Europa, há gente que pensa que não há razão para se tornar inovador, porque tudo vai bem.
ÉPOCA - E qual é o terceiro aspecto?
Phelps - É o que chamo de `antimaterialismo`. É a falta de ambição, a repulsa ao lucro, a oposição ao desenvolvimento dos negócios. É a idéia de que as pessoas devem viver integradas na comunidade, que não devemos tentar ir melhor que a comunidade. Uma empresa deve ser lucrativa apenas o suficiente para sobreviver. Não deve tentar ir muito além disso. Não deve implementar inovações que, se forem bem-sucedidas, poderão multiplicar o lucro atual por duas ou três vezes. Isso é ruim. E, se o lucro crescer, os sindicatos deverão absorver esse aumento. Então, qual é o retorno que uma empresa tem em implementar inovações? Se ela fizer isso, vai se tornar um símbolo de ganância. Por isso, os empresários têm receio de alcançar o sucesso. Se você estiver pensando em montar um negócio, que estímulo terá num ambiente desses?
Como você pode ter prazer de viver, se não está satisfeito com seu trabalho, que é algo que faz durante dez horas do dia?
ÉPOCA - Qual é o efeito dessa mentalidade na economia? Phelps - Se você não estimular a inovação, não vai gerar os empregos que seriam criados em empresas que desenvolvem e implementam a inovação. Também não ajudará a criar empregos nas empresas que fariam a publicidade das inovações. Nem nas empresas que treinariam os empregados sobre como usar a internet ou coisas do gênero. O ambiente de trabalho se torna enfadonho, chato. É preciso empurrar a empresa para a frente para gerar novos desafios. Se não for assim, haverá uma infelicidade pessoal muito grande, frustração. A vida também tem de ser excitante e divertida. Não é só uma questão de reduzir o nível de estresse ou de fazer alguma coisa pelas coronárias e pela longevidade. A vida é mais que longevidade. Como você pode ter prazer de viver se não está satisfeito com algo que faz durante dez horas do dia?
ÉPOCA - No Brasil, embora tenhamos uma classe de empreendedores de alto nível, que desenvolveram negócios de sucesso em todos os ramos de atividade, muita gente pensa assim também...
Phelps - Estou certo de que não é todo mundo. Mas tenho a mesma sensação. Isso não acontece só no Brasil. Na Argentina, deve ser no mínimo tão ruim quanto aqui. Se o Brasil quiser chegar perto dos países desenvolvidos, precisa ter um tecido de instituições econômicas e uma cultura que encoraje e receba bem a inovação.
ÉPOCA - Como o senhor vê o atual cenário econômico internacional, de altas taxas de crescimento? É algo sustentável? Phelps - Há duas incertezas. A primeira é a China. Ela terá de enfrentar novos problemas a cada passo que der no processo de desenvolvimento. A China quer alcançar o Ocidente e ter uma economia desenvolvida, como a americana. Possivelmente, vai conseguir chegar lá. Mas terá de aprender a fazer as coisas de forma nova. E não podemos ter certeza de que a China conseguirá ultrapassar todos os obstáculos, um depois do outro, até atingir seu objetivo. A outra questão: não sabemos em que estágio estamos na revolução da comunicação e da informação que começou nos anos 90. Estamos chegando ao fim deste boom? Ou ainda há muito a caminhar e teremos mais uma década ou duas de grandes investimentos em tecnologia?
ÉPOCA - Qual seria o efeito de uma eventual desaceleração na economia chinesa?
Phelps - A possibilidade de acontecer um problema na China que provoque uma reação em cadeia em escala mundial é sempre preocupante. Os juros talvez estejam muito baixos, particularmente nos Estados Unidos. É possível que eles dêem um salto. Com isso, os preços das ações podem ter uma queda. Pode haver uma correção de preços nas bolsas, mas não acredito numa contração histérica dos investimentos.
ÉPOCA - A cada crise internacional, o tempo de recuperação parece estar encolhendo...
Phelps - É verdade. Levou 11 ou 12 anos para a economia voltar a crescer na Grande Depressão de 1929. Depois, demorou 12 meses em 1987. E, na crise da China, em fevereiro, quando a queda das bolsas locais teve impacto global, levou 12 dias. Talvez nem isso. É possível que as economias estejam mais resistentes.
ÉPOCA - O que mudou em sua vida desde que ganhou o Prêmio Nobel?
Phelps - Houve uma grande mudança. É mais ou menos o tanto de mudança que posso suportar. Estou viajando muito, dando talvez mais palestras do que deveria. Mas neste ano eu quero circular mais. Não me importaria de fazer algum dinheiro para variar. Jamais ganhei dinheiro nenhum. Fui professor a vida inteira, nunca atuei no mundo dos negócios. É também uma oportunidade de testar minhas idéias.
Fonte: Época - número 0475
José Fucs
25/6/2007.