País desperdiça 1 milhão de m³ de biogás por dia

22/04/2009
Por entraves na regulamentação e nas regras do Protocolo de Kyoto, o Brasil queima hoje cerca de 1 milhão de metros cúbicos de gás natural por dia em aterros sanitários, estações de tratamento de água e na agroindústria. O combustível, que representa 3% da capacidade do Gasoduto Bolívia-Brasil (Gasbol), é suficiente para abastecer 200 postos com gás natural veicular (GNV) ou acionar uma usina termoelétrica de 100 megawatts (MW).

Chamado de biogás, o combustível é proveniente de resíduos sólidos, como dejetos de animais, e pode ser tratado e transformado em gás natural para ser inserido na rede de distribuição, gerar energia ou abastecer veículos. Algumas iniciativas já aproveitam o combustível, como os aterros sanitários São João e Bandeirantes, em São Paulo, que destinam o gás para geração térmica. O aproveitamento, porém, ainda é pequeno.

`Nos Estados Unidos há mais de 500 projetos de aterros que geram energia, além de grande aproveitamento de gás natural renovável para movimentar frotas de caminhões da indústria pecuária`, diz Marcio Schittini, sócio da Acesa, empresa com dois projetos de aproveitamento de biogás em implantação no País. No Brasil, diz, há mais de 40 aterros que não aproveitam o combustível.

Para Schittini, a falta de projetos é fruto da falta de autorização da Agência Nacional do Petróleo (ANP) para o uso como combustível veicular e do modelo adotado pelo Protocolo de Kyoto, que não permite ganhos econômicos com projetos que gerem créditos de carbono. `Muitos produtores rurais têm biodigestores para separar o biogás, mas preferem queimá-lo para atuar no mercado de crédito de carbono`, explica.

Uma mudança nessa regra permitiria que, com pouco investimento, os produtores separassem o gás natural do biogás para abastecer frotas ou gerar energia. Schittini usa o termo `gás natural renovável` para defender alterações necessárias para a difusão do combustível no Brasil. E compara com o biodiesel, misturado no diesel na proporção obrigatória de 2%.

Um dos projetos da Acesa prevê o aproveitamento de gás a partir de dejetos de criações no Rio Grande do Sul, com capacidade de produção de 10 mil metros cúbicos por dia. O investimento, de valor não revelado, prevê a venda do gás como combustível automotivo. O produto será comprimido e transportado em caminhões.

Antes, porém, é necessária a regulamentação na ANP, que até hoje reconheceu só um pedido de uso de biogás, no complexo petroquímico de Camaçari (BA). Um projeto-piloto está sendo desenvolvido em parceria da Acesa com a Petrobrás e a Cedae na Estação de Tratamento de Esgoto Alegria, no Rio. Com investimento de R$ 1,1 milhão por meio de um fundo de pesquisa e desenvolvimento, terá capacidade para 25 mil metros cúbicos de gás por dia.

Autor(es): Nicola Pamplona

O Estado de S. Paulo - 22/04/2009.